O lado bom

** Não há lado bom em uma pandemia. **

Tenho escutado todos os dias que esse período de horror que vivemos pode ter algo de positivo: uma lição para a humanidade, uma oportunidade de autoconhecimento e aprendizado, um sopro de esperança pela cooperação e união entre as nações.

Eu mesma fui ludibriada por essa positividade exacerbada, que pune e demoniza quem se atreve a sair da zona do namastêgratiluz. Esse é um dos resultados da mentalidade individualista que prefere culpabilizar a pessoa por tudo o que ocorre de ruim com ela ao invés de pensar criticamente e analisar os fatores sociais que ocasionaram essa condição.

A pobreza é um exemplo bem claro disso: muitos afirmam que para ser rico, basta trabalhar bastante, basta querer e ser dedicado. Contudo, sabemos o quão falaciosa é essa afirmação, pois há inúmeros fatores que influenciam a situação econômica de uma pessoa, sendo mais evidente que o nascer em berço de ouro é quase que determinante para o sucesso ou a riqueza do indivíduo.

Hoje, o sujeito é penalizado moralmente por adoecer, ou por desejar priorizar a preservação de sua saúde e não da economia. Quem acha que a coisa está feia, ou não consegue manter o ânimo a todo o tempo, ou enxerga e denuncia a dura realidade da vida é encarado como vilão. Há quem diga que estamos vivendo uma “ditadura da positividade” ou a “positividade tóxica”. Jamais imaginei que ser positivo pudesse ser algo ruim. Mas, em alguns casos, pode ser péssimo, pois aliena e impede a pessoa de se prevenir ou de se preparar para um cenário adverso.

Desculpem-me, mas dessa vez a positividade perdeu a batalha.

É impossível pensar em coisas boas ou manter a positividade quando milhares de pessoas estão morrendo pela incompetência de nossos governos e pela ganância do capitalismo, que transforma saúde em produto e gera desigualdades absurdas.

Confesso que, quando tudo isso começou, eu estava um pouco menos desanimada. Ou talvez mais otimista, porque ainda havia uma leve sensação de que aqui tudo poderia ser diferente. Difícil saber se era isso ou se eu estava apenas me enganando ao dizer que tudo vai ficar bem, tentando colocar uma máscara de pessoa centrada ou buscando enxergar um sentido nesse momento bizarro.

Por mais que as coisas, na minha bolha, estejam razoavelmente ok, ou que eu esteja em segurança e tudo o mais, quem é que consegue dormir em paz e descansar cem por cento sabendo que a qualquer momento o caos pode explodir de vez? Quem, em sã consciência, sente-se seguro, protegido ou mesmo tranquilo ao saber que nossas vidas estão nas mãos de velhos com maturidade de crianças mimadas?

Eu não consigo.

Sou grata pelos privilégios e pelas bênçãos divinas, é claro. Há amor no mundo. Há arte, afeto e maravilhas. A vida segue, com todas as suas belezas e complexidades. Há muita coisa boa no mundo, em qualquer circunstância.

No entanto, quando falamos de o lado bom da pandemia, é o mesmo que dizer o lado bom da guerra, o lado bom do genocídio, o lado bom do tsunami, o lado bom do 11 de setembro, etc. Simplesmente não tem como dizer “ah, mas veja pelo lado positivo” em situações assim.

O que estamos vivendo hoje é uma guerra, mas não apenas contra um vírus. A guerra é contra o negacionismo, o reacionarismo, o ódio e a mentalidade de torcida de futebol, contra a irracionalidade, as fake news e a ignorância. É incrível como ainda há quem acredite em uma grande conspiração comunista, em teorias como a da Terra plana, em boatos enviados em mensagens cujas fontes são “não sei a autoria, mas achei interessante”, ou “recebi de um amigo médico, pode confiar”.

É impossível enxergar o lado bom da ignorância, sobretudo quando esta leva à morte de quem não tem acesso a informações confiáveis ou a recursos e tratamento médico. Enquanto alguns fazem festa, churrasco, piadas odiosas, pressão para reabertura do comércio e pouco caso do medo alheio, filhos, pais, amigos, parentes e cônjuges choram, à distância, a perda de seus amados. É, no mínimo, revoltante.

Sinto apenas uma enorme vontade de gritar. Minha energia criativa está empoçada nas docas da indignação.

Confesso que não tenho conseguido escrever o quanto gostaria. Sempre que me sento em frente ao computador ou ao papel, os pensamentos são mais ruins do que bons. Quando sai algum texto, costuma ter o tom deste aqui: amargo, cínico, pessimista, repetitivo e com aspecto de querido diário.

Mas, vem cá, vamos fazer um exercício de pessimismo comigo. Ou melhor, de realismo: Já são mais de três milhões de pessoas infectadas no planeta e, apesar de a maioria ter se recuperado (por enquanto), já houve mais de 200 mil mortes em menos de seis meses de pandemia. Para fazer uma comparação, de acordo com os dados da OMS, na pandemia de H1N1, entre 2009 e 2010, morreram menos de 20 mil pessoas. Considerando que há, em ambos os casos, subnotificação e dados “mascarados”, é desesperador. Quantas vidas serão levadas embora nos próximos dez anos?

Mais do que números, esses dados referem-se a pessoas. Como eu, você, nossos entes queridos e conhecidos. São vidas encurtadas por falta de empatia, de investimento em saúde, de união e cooperação. O luto de milhares é tratado como algo que não importa. “O que se pode fazer?”, dizem alguns poderosos.

Bem, eu sei de várias coisas que poderiam ser feitas se houvesse boa vontade e se o lucro e o dinheiro dos donos do mundo não fossem mais importantes que as nossas vidas.

Para além dos poderosos, há aqueles que defendem o indefensável por causa de um medo totalmente injustificado, por não saberem enxergar além do próprio nariz ou, simplesmente, por não conseguirem admitir que erraram em suas escolhas.

Sabe, é cansativo. Seria muito mais simples se lutássemos apenas contra um negócio microscópico, que nem vivo é. Mas, além dessa, tem a luta contra a fome, contra o racismo, a homofobia e o machismo, contra a ganância e a opressão, contra a exploração e a objetificação das pessoas. Há a luta pela sobrevivência, pura e simples, travada diariamente por milhões de seres humanos em todo o planeta.

Seria tão simples se a gente soubesse coexistir!

Acho que esse post é mais um desabafo do que um texto. Tenho tentado me isolar, me blindar contra a negatividade das notícias ruins, mas ainda assim há uma insistente voz em minha consciência que indaga de quem é a culpa?

Talvez não haja culpados, e o vírus seja apenas uma consequência natural da maneira como a sociedade está organizada. Isso já seria o bastante para me inquietar, visto que não concordo com essa tal maneira de existir.

O lado bom disso tudo? Não sei. Estar viva, talvez.


Foto: Yohann LIBOT no Unsplash

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