Um pedaço de chão

Se você olhar bem, verá que o mundo todo é um jardim.
– Frances Hodgson Burnett

Semana passada, terminei de ler o livro O jardim secreto, da autora britânica Frances Hodgson Burnett, obra clássica da literatura juvenil inglesa. Embora seja mais voltado para o público jovem, acredito que essa é uma leitura adequada para pessoas de todas as idades, e que muitos adultos podem se beneficiar das reflexões propostas na história.

Ontem, resolvi assistir à adaptação cinematográfica da obra, que está disponível na Netflix. O filme é de 1993 e eu já havia assistido muitas vezes, principalmente quando era mais nova. No entanto, nunca tinha lido a história original, que é um pouco diferente, como ocorre com a maioria das narrativas adaptadas para a telona. Fiquei surpresa – é um livro incrível!

A partir daqui começam alguns spoilers da história.

O jardim secreto fala sobre a trajetória da menina Mary Lennox que, após perder os pais, muda-se da Índia para Yorkshire, no interior da Inglaterra, para viver com um tio recluso e cheio de traumas. Na Mansão Mistlethwaite, Mary conhece uma paisagem totalmente diferente daquela à qual estava acostumada na Índia e se depara com uma atmosfera sombria e invernal.

Nessa nova realidade, a menina mimada passa a ser tratada com menos reverências e sem ter todos os seus caprichos atendidos, o que a faz mudar seu jeito arrogante e seu humor carrancudo. Uma das principais causas para essa transformação é a vida na natureza, nos jardins da charneca. O contato com essa vida simples e rústica faz Mary perder a carranca, sentir fome e engordar, ter o cabelo mais bonito e uma expressão mais sadia.

As plantas da charneca, bioma comum ao interior da Inglaterra, estão secas e mortas quando Mary chega a Mistlethwaite. Essa é uma bela analogia ao estado de espírito da menina, que começa a florescer à medida que ela passa a trabalhar na terra, a cultivar o jardim secreto, a conhecer mais a si mesma.

Em uma de suas falas, Mary pede ao tio um pedaço de terra no qual ela possa plantar flores e estar em contato com a natureza, pois ela começa a perceber o quão transformador é mexer nas plantas e testemunhar a vida que brota do chão.

Para mim, essa é a parte mais emocionante do livro.

Uma garotinha de dez anos percebe que a vida ao ar livre e em contato com a terra faz bem para a alma, cura as feridas, suaviza o mau humor e transforma a gente. Como o inverno se transforma em primavera e a vida torna a vicejar.

Essa relação de Mary com a terra me faz recordar minha própria infância. Passar as férias no sítio do meu avô era como entrar em um portal místico, transcendendo o tempo e o espaço.

Ficávamos o dia todo fora de casa, brincando no jardim, no campo, ajudando a cuidar da horta, do pomar e do galinheiro. Subíamos em árvores e fazíamos expedições a lugares “proibidos”: terrenos sem cerca, o rio que cortava o fundo da chácara, o sítio do vizinho onde entrávamos passando por baixo do arame farpado. Víamos animais esquisitos, conhecíamos frutas inexistentes na “cidade grande”, caminhávamos por quilômetros sem que o cansaço nos abatesse. À noite, o sono era tranquilo e revigorante e as conversas e histórias em frente à lareira criavam laços eternos.

A vida parecia extremamente simples: bastava ter um pedaço de chão para viver. Continuo achando que a simplicidade é a chave para a felicidade, e sigo buscando o meu pedacinho de chão.

Hoje amanheci com vontade de colocar os pés na terra, de mexer nas plantas, de ver as minhocas se revirando e as formiguinhas levando as folhas embora. Acordei querendo sentir o frescor da grama sob meu corpo ao deitar no campo após trabalhar no cultivo dos vegetais. Queria poder estar em meio à vida, e não trancada no apartamento, distante do que é natural. Eu também sou natural e preciso desse contato como do ar que respiro. Eu sou uma planta sem viço quando estou longe do mato.

Quando esse sentimento me invade, recorro aos vasos de samambaia, violeta, avenca, musgo e hera. Plantas que não precisam de muita luz, pois aqui em casa o sol é escasso. Aproveito o momento de aguar meu pequeno jardim urbano e enfio as mãos na terra, revivendo as saudades do sítio que já não é mais do meu avô.

Se eu morasse na roça, durante essa pandemia, será que sentiria tanta agonia quanto agora? Acho que não.

Claro, ainda seria terrível, ainda haveria pensamentos de medo e angústia, mas a terra exerceria sua função terapêutica e faria o tempo passar menos aflito, mostrando que a vida continua e segue seu curso, mesmo quando sofremos. A explosão das flores, o nascimento dos frutos, a cantoria dos pássaros seria como uma sinfonia de esperança para o coração cansado.

A possibilidade de auxiliar a terra em seu processo de criação é algo que propicia grande satisfação e nos faz sentir que somos realmente úteis. Porque no fim das contas, um pedaço de chão nos provê tudo aquilo de que precisamos: ar puro, água, comida e abrigo.

Um pedaço de chão era o bastante para que eu pudesse começar uma revolução, dentro e fora de mim.

É uma pena que nem todos tenham um tio aristocrata para quem fosse possível pedir um pedaço de terra ou a chave de um jardim secreto. As coisas mais simples da vida, e também as mais complexas, acontecem em um pedaço de chão. Para mim, é inconcebível que haja gente sem ter onde morar, plantar ou entrar em sintonia com a natureza, com tanta terra no planeta. Com tanto verde, tanta vida e tanto mato, é um crime que, para sobreviver, tenhamos que nos distanciar do que nos nutre. Alguns de nós jamais terão dinheiro para ter um pedaço de chão, jamais experimentarão uma verdadeira conexão com a Terra e seus elementos.

E se a cura para esse vírus fosse viver em um pedaço de chão? E se a cura para o mundo fosse permitir que cada ser humano tenha um pedaço de terra? Um pedaço de chão. Terra, que não pertence a ninguém, pois que não se pode aprisionar ou delimitar a vida com cercas ou grades.

Se a gente olhar com atenção, vai ver que um pedaço de chão é um universo inteiro.


Foto: Nagesh Badu no Unsplash