Rimas sem pé nem cabeça

A insônia vence o cansaço, a melancolia derrota a alegria. Todos estamos suscetíveis à desesperança – somos reféns da agonia.

O que não podemos é sucumbir à apatia diante desta grave pandemia, em que o medo abre espaço para a negação. Quem diria!

O ceticismo foi rasgado em pedaços e a fé voltou a acolher, reconstruindo o que estava quebrado e desatando nós e laços. Sem perceber, estou de joelhos, implorando a Deus que perdoe nossos erros, que nos tire da eterna inércia, que nos revele a verdade.

Quando a dor supera o desejo de caminhar e acreditar, o sol perde seu fulgor e a noite, fria, se confunde com o dia. Já está tarde, mas não quero dormir, ainda que o sono supere a ansiedade. Olhos se fecham, boca se abre, um bocejo me tira a liberdade de escolher entre mergulhar no reino do abstrato ou permanecer acordada, sem contato com o que dorme em mim. Sim, estou cansada, mas desaprendi a adormecer, a não ser à tarde.

Tenho uma fome que não é da idade, mas os dentes já estão escovados, o que faz a preguiça vencer a vontade – assim como quando um lampejo racional me impede de comprar doze barras de chocolate.

Prudência. Quando ela desaparece, vivo imersa em neurose e me esqueço de fazer o que deveria. Dia após dia, a procrastinação se transforma em urgência. Escrever, viver o presente, esticar o tempo até desafiar a ciência.

Cumprir os compromissos fazendo versos sem pé nem cabeça.


Foto: Pixabay