O fim do mundo que conhecemos

Ando refletindo bastante sobre as coisas das quais sinto falta. Não porque eu esteja entediada, já que o trabalho continua igual, apenas mudou de endereço – isso sem contar o serviço doméstico, que espanta o tédio por horas a fio.

A questão é que já faz um mês, ou mais, que não saio de casa, e muito da nossa experiência social e de interação com o mundo envolve esse ato de sair do próprio casulo.

Vejo o céu apenas através da janela ou quando vou até a garagem do prédio. Sinto o vento no rosto no final da tarde e me lembro de quando saía para caminhar, correr, comprar pão, visitar algum amigo ou parente, ir ao shopping ou mesmo sair para o almoço em dias de trabalho. Atividades banais do dia a dia que hoje parecem distantes, quiçá impossíveis.

Sinto saudades de ir ao parque aos domingos para vender meus contos e zines, de ver o movimento da vida, das pessoas e suas individualidades distintas. Sinto falta de comer um pão na chapa na padaria, de ir até a casa dos meus pais, de abraçar minha mãe, de conversar com minha enteada enquanto cozinho um brigadeiro sábado à noite.

Sinto muitas saudades de dar aula aos sábados de manhã, de ir aos clubes de leitura e eventos literários. Sinto falta do café com bolo, do ateliê do marido, da pipoca do cinema.

No fundo, essas saudades têm a ver com uma triste premonição, que me congela até os ossos: jamais voltaremos ao que era antes.

Talvez você esteja me achando exagerada ou alarmista, talvez nem esteja assim tão preocupada ou preocupado com este vírus, com a pandemia e esteja vivendo uma rotina normal, dentro do possível. No entanto, o que hoje ocorre em nossa sociedade tem o potencial de transformar totalmente nossas realidades.

A última grande mudança em escala global ocorreu na sequência da Segunda Guerra Mundial. Após esse período, o mundo nunca mais foi o mesmo. Igualmente, as transformações foram intensas depois da Primeira Guerra, da Gripe Espanhola, da Peste Negra, enfim, de episódios caóticos ou revolucionários.

Por que agora seria diferente?

Ontem, higienizando as embalagens dos itens que comprei no supermercado, passei alguns minutos rindo por dentro. Que coisa bizarra, lavar um pacote de macarrão! Hoje, é uma necessidade, em breve será rotina. Usar máscaras, não entrar em casa com o sapato usado na rua, ter um local para colocar objetos, roupas e produtos em “quarentena”, ter álcool em gel, álcool 70º, água sanitária diluída e sabonete líquido pela casa toda, trabalhar à distância, estudar à distância… Essas são apenas algumas das pequenas mudanças às quais estamos nos adaptando, no mundo todo, desde que o novo coronavirus surgiu.

Algo me diz que essa não será uma crise passageira.

É claro que em dado momento haverá uma vacina, uma cura ou tratamentos eficazes. É claro, também, que o ser humano irá adquirir imunidade a essa enfermidade – ou pelo menos é o que esperamos.

No entanto, será que conseguiremos voltar ao mundo que conhecíamos antes? Para aqueles que perderam os entes queridos, para os países mais afetados, como China, Itália, EUA, Equador, certamente nada será igual.

No fundo, dá até para esperar uma mudança para melhor: mais leitos nos hospitais públicos, mais estrutura para atender à população, sobretudo a mais carente, mais investimentos na ciência e mais cooperação entre os indivíduos.

Sim, é um sonho, mas pode ser que isso aconteça. Pode ser que tenhamos coragem de fazer acontecer, enfim.

Pode ser, também, que daqui para frente o que veremos é o pior retrato do ser humano, a proteção dos próprios interesses, o descaso, a intensificação das desigualdades e a relutância em mudar. Isso também pode servir como um estopim para a mudança; já não aguentamos mais a destruição e a exploração. Muitos serão contra o sistema, talvez o mundo desperte, de fato.

Seja lá como for, é certo que nada será como antes. Para o bem ou para o mal. Sentiremos saudades de muitas coisas e pessoas às quais não demos o devido valor quando tínhamos oportunidade – assim como, hoje, sentimos falta da liberdade de poder respirar tranquilamente.

Talvez a gente aprenda a valorizar o que tem. Talvez… talvez… são muitas as incertezas. A vida normal, como será?

A verdadeira transformação só o futuro dirá.

Foto: engin akyurt via Unsplash