A normalidade

Visto a máscara com cuidado. Um elástico na orelha direita, outro na esquerda, sem tocar o rosto.

É proibido tocar o próprio rosto. É proibido andar em público a menos de dois metros de distância de outra pessoa. É proibido fazer visitas, exceto com autorização do governo. É proibido transitar com o rosto descoberto.

Essa última proibição é a única que me conforta; ao menos ninguém verá a expressão aflita, amargurada que já se tornou parte do meu rosto.

Saio de casa apenas para buscar alimentos, pegar meus remédios e receber os vouchers que o governo distribui. Os únicos trabalhadores que não fazem teletrabalho são os que nos atendem nas distribuidoras, nas farmácias e nos postos do governo. Há postos de saúde praticamente em todas as esquinas, e as filas são quilométricas, já que não se pode ficar próximo, e já que não há mais ambulâncias ou carros de emergência hospitalar. As filas de hoje estão repletas sobretudo de mulheres carregando crianças enfermiças em slings de pano surrado.

Não há mais empregos como antes e os salários são o suficiente apenas para que possamos sobreviver. Depois das reformas trabalhistas, conseguir uma colocação em um posto de teletrabalho ou nos postos de atendimento do governo é um enorme privilégio. Olhando as pessoas nas filas dos vouchers ou do atendimento médico, eu me sinto afortunada por trabalhar, embora meu conhecimento me diga que eu deveria ficar indignada.

Mas nem isso podemos mais. Indignar-se e rebelar-se são luxos do passado. Muitos luxos ficaram no passado, inclusive o de poder ir ao mercado e escolher suas próprias frutas, dar um passeio no fim da tarde, ir ao parque, à praia. Viajar. Usar roupas frescas e com os braços e pernas à mostra. Mesmo agora, com os estabelecimentos fornecendo aventais descartáveis, protetores para sapatos e outras proteções obrigatórias, os pedidos são montados por um funcionário. Não podemos tocar nas mercadorias, pois elas são higienizadas a cada vinte minutos, com um sistema que se assemelha bastante ao de sprinklers contra incêndio. Estes ainda existem, e eu já presenciei um princípio de incêndio, certa vez, em uma ida à farmácia.

Ainda não era noite, mas o céu já escurecia, a poluição encobrindo o horizonte. Caminhei depressa, para evitar passar por uma blitz de testes, pois isso me faria perder mais de uma hora até que os exames para todas as doenças fossem finalizados.

Entrei na farmácia, vesti o avental, enfiei os pés nas sapatilhas descartáveis, peguei meus medicamentos e me dirigi até a saída. Foi tudo muito rápido. Enquanto eu aguardava no balcão, uma senhora despia os equipamentos protetores para deixar o local. Ela tirou primeiro as sapatilhas e jogou no incinerador, mas eu a vi brigando com o avental – o nó do cinto não se desfazia de jeito nenhum. Isso a deixou visivelmente transtornada e quando, enfim, o avental cedeu, ela o embolou com uma fúria súbita e o atirou no compartimento de descarte, saindo sem olhar para trás.

As chamas começaram a subir com uma velocidade inacreditável. Eu estava quase na porta quando vi um dos atendentes com um extintor na mão. Os sprinklers foram acionados no mesmo instante, e eu saí da farmácia molhada, porém viva.

Engraçado, agora já consigo rir disso. Mas ninguém verá meu sorriso enquanto caminho com a cabeça levemente baixa, as feições escondidas pela máscara e pelo capuz do moletom.

Ontem encontrei uma amiga que não via há tempos. Consegui reconhecê-la pela voz e pelo jeito de andar. Não nos falamos, nem nos cumprimentamos – isso também é proibido. Trocamos alguns olhares e eu sei que ela me reconheceu, pois acenou com a cabeça e os cantos dos olhos ficaram enrugados, sinalizando um possível sorriso.

Os detalhes importam. Antes, mal sabíamos reparar neles. Mal sabíamos olhar para os outros.

Antes. Já nem sei como era viver sem tantos panos, tanta cerca, tanta proteção. Antes, eu achava que a vida era normal, mas hoje enxergo que nunca foi. E, no fim das contas, os seres humanos se acostumam a tudo.

Chego em casa, deixo os sapatos do lado de fora. Jogo a máscara no incinerador perto da porta da frente. As luvas eu deixo para incinerar dentro do aparamento. Só posso ver o Tom depois de passar pelo chuveiro, colocar as roupas na máquina de lavar, tomar três pílulas verdes, uma rosa e outra branca. As do Tom são todas azuis e eu tenho que fazê-lo engolir todas as manhãs, junto com um pedacinho de carne seca.

Abro a porta de acrílico e ele pula em cima de mim. O único ser vivo que me vê sorrir todos os dias, meu cão, Tom. Antes, passeávamos pela rua, ele levantando a patinha para marcar todos os postes, eu fumando um cigarro lentamente. Ele também deve sentir falta disso.

Vamos até a varanda, e eu me permito abrir um pouco a janela de vidro para deixar o ar entrar. Não consigo fazer isso por muito tempo sem colocar uma das máscaras que tenho para usar em casa, a vermelha de bolinhas brancas. Nas outras varandas, muitos olhares, muitas máscaras multicoloridas, canções que se sobrepõem, vozes abafadas. Os pássaros também cantam à noite, madrugada adentro.

Uma lágrima me surpreende quando me recordo que essa era a minha vida, antes. Dentro destas paredes tudo continua igual.


Foto: Adli Wahid no Unsplash