Nossos barcos não são os mesmos

Diz que estamos no mesmo barco, mas não usa máscaras, ou só as veste quando não é preciso.

Acha que essa doença não mata, que sua vida ficará intacta depois disso, por causa da abundante prata que estufa seus cofres, que se espalha em malas encharcadas de sangue pobre.

Julga-se nobre por oferecer migalhas, enquanto a fome e a fadiga vencem o trabalhador dia a dia.

O que diria Dona Maria, que mal tem água para lavar as mãos? O que faria se João, seu irmão em Cristo, pedisse a você um pedaço de pão ou sabão, para matar “tudo os bicho”?

Em seu sobrado de luxo, em seu quarto arejado, vive cercado de empregados que garantem seu conforto, enquanto esbraveja que a doença é farsa política. Nada justifica faltar ao trabalho – é preciso que outros trabalhem para garantir a farta herança da sua família.

O que diria se Dona Maria espirrasse ou tossisse perto da menina que ela cuida? Esse negócio não é tudo isso, mas tome aqui uma máscara; melhor, aqui tem um tecido, pode usar tudo para costurar a sua, faça como quiser só não apareça aqui com o rosto despido.

No fundo, não é solidariedade ou caridade o que move essa ação, e sim medo, covardia. Dona Maria e Seu João continuarão vindo trabalhar – ônibus lotado, rosto amargurado, vida invisível aos carros blindados que passam na faixa ao lado protestando pelo direito de trabalhar para não morrer de fome.

Fome. Maria, João e outros sem nome padecem desse mal há tantos anos que COVID-19 é só mais uma sigla que não sabem pronunciar, doença de rico, que tem grana para viajar.

Não. Ninguém tem tempo de ficar doente nesse bairro de casas espremidas, onde as noites são mal dormidas por causa do ronco da barriga que só viu comida no almoço da casa da patroa.

Dona Maria escuta o filho mais velho tomar banho de caneca, com a chuva do dia anterior, ou do dia antes daquele, ou de outro qualquer, guardada na caixa d’água. O perfume do sabonete agita suas emoções. Tomara que a madame não dê falta. O filho agora está protegido da doença, e Maria, então, consegue adormecer.

Cinco dias depois, mãe e filho vão parar no hospital. No sobrado de luxo, a patroa resmunga por ter de, ela mesma, vestir o avental.

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