Desabafo pascal

Não aguento mais ter um demente, ausente, inconsequente como presidente, uma besta que lidera essa gente que marcha em prol da morte, que desdenha de um vírus mortal, que nos aprisiona na mentira e nos abandona à própria sorte.

Não aguento mais a apatia de quem deveria fazer oposição – na hora da eleição, estes serão os mesmos a nos tratar como estúpidos, números, dedos prontos para apertar o botão “confirma”. Nada desanima mais que saber da indiferença de quem deveria nos proteger, nos amparar. Onde é que está o Estado para nos ajudar? Não aguento mais esperar.

Oh, Pai, por que nos abandonaste?

Não aguento mais o desgaste dos dias, a intensa febre da alma, a impaciência de querer logo sentir a calma: vidas precisam ser salvas. É preciso ter firmeza, pois a única certeza que temos, ainda mais agora, é a fragilidade da existência. Urge recuperar nossa essência.

Não aguento mais ser resistência solitária perante amigos, parentes, chefes autoritários. O cansaço me domina nestes dias, uma fúria velada, pois sei que nada do que eu fizer terá valia perante a barbárie.

Não aguento mais tentar convencer as pessoas de que precisamos mudar, encontrar soluções mais humanas, criar um sistema que inclua ao invés de excluir. Sinto que grito embaixo d’água, enquanto vejo um navio afundar; eles, na superfície, não vão me escutar, e eu seguirei com força, a nadar e a subir, até que possa voltar a ver o lindo céu do outono.

Pai, em Tuas mãos entrego o espírito da Terra, essa ferida purulenta, que precisa ser cicatrizada.

Não aguento mais o ser humano, que se julga o dono do planeta, mas mal sabe cuidar de si ou do outro. A revolta me faz duvidar se Cristo faria o mesmo sacrifício de outrora se ao mundo viesse hoje. Ora, é claro que o amor divino ao meu sentimento não se pode comparar.

Não aguento mais falsos messias que prometem a salvação mas se comprazem em nos matar.

Não aguento mais esse povo que diz seguir a Cristo, mas que em toda oportunidade insiste em pedir a Pilatos que solte Barrabás. Não aguento mais beatos-fariseus, imitadores de Anás e Caifás, que repetem em ciclos perenes a contumaz condenação a que Jesus foi submetido, milhares de anos atrás.

Pai, dai-me a graça de compreender que não adianta debater ou lutar contra a cegueira desta furiosa manada. A sina da Terra já está consumada.


Foto: Jon Tyson via Unsplash