Vãs preocupações

A manhã me despertou com frio e susto. O gato, impaciente, subiu na cama e fez suas exigências. Fui até a cozinha no modo automático, enchi o pote de ração, pensei em tirar mais cinco minutos de soneca, mas tive medo de perder a hora.

O computador já estava ligado muito antes do horário de começar o trabalho. Lembrei-me de quando o home office era escolha e estremeci. Há um ano venho pedindo ao universo a oportunidade de voltar a trabalhar em casa e, de uma forma ou de outra, consegui o que tanto queria.

Logo, a segunda preocupação do dia ocupou minha mente por algumas horas. E se eu causei tudo isso? E se minha fé foi tão grande que, em segredo, desejei ardentemente pelo caos, para fugir das situações que me fazem mal? Não, isso seria impossível. Ninguém é capaz de criar algo assim apenas com o pensamento. A ansiedade gritou em meu ouvido as mesmas palavras de sempre, e só consegui tirar essa ideia surreal da cabeça quando me ocupei da terceira preocupação: a limpeza da casa.

Os pelos dos gatos se aglomeram em montinhos por todos os cantos e eu os vejo rodando, girando em espirais quase poéticas junto com o vento gelado que vem lá de fora. Faz menos de três dias que fizemos faxina, eu passo vassoura na casa todos os dias, não é possível uma casa tão pequena sujar tanto! Como não consigo sossegar enquanto não resolvo essas pequenas irritações, peguei a vassoura e comecei a varrer.

Entre uma varrida e outra, a quarta preocupação veio sem alarde, porém intensa: o que vou fazer quando meu remédio acabar? A impossibilidade de sair me esmagou assim que larguei a vassoura; tive que me sentar na cozinha, fazer um esforço para não surtar, pegar um copo d’água – xi, não tinha tomado a bupropiona! Joguei os comprimidos liláses goela abaixo, dando goles e mais goles d’água até que me senti mais calma.

Enfim, sentei-me para começar o trabalho, já preparada para a quinta e recorrente preocupação: o prazo de entrega. Oscilando entre vai dar tempo e não vai dar nem a pau, passei o dia com meio-foco, em plena batalha com os pensamentos.

A música me acalmou. Uma melodia que transitava entre o alegre e o triste, combinando perfeitamente com as cores de quarta-feira. Descobri que amanhã será feriado também, mas como, no fim das contas, não deu tempo de entregar o trabalho, fiquei no computador até tarde.

Tarde demais, lá vem a sexta preocupação: o que vou fazer com meu tempo livre durante esses quatro dias? A resposta fácil, escrever, é a primeira que aparece, mas eu sei que não é bem assim. Nunca é. Por que as coisas precisam ser tão difíceis?

Com os olhos ardendo, decidi tomar banho para relaxar. Nem mal entrei no boxe, já substituí a sexta preocupação pela sétima: lavar o banheiro. Enquanto pensava nisso, já me ocupava em esfregar um pouco os azulejos com a esponja e o detergente que deixo no cantinho do boxe, uma maneira de me tranquilizar caso queira me livrar da sujeira não só do corpo, mas também do local.

Não me lembro no que estava pensando enquanto descarregava as energias negativas nos pobres azulejos. Só sei que, ao terminar de esfregar alguns cantos aleatórios do boxe, me levantei mais depressa do que deveria e bati a cabeça com tudo no suporte de shampoos. Já fiz isso algumas vezes, mas nunca com tanta força. Um grito agudo, gutural e involuntário saiu da minha garganta e trouxe consigo a vergonha e o receio de causar preocupação nos vizinhos, no marido, nos gatos; sentindo um forte calor no local do impacto, investiguei o tamanho do estrago com a ponta dos dedos.

Sem sangue, boa notícia. Uma leve tontura me impulsionou para fora do boxe e por um instante achei que ia desmaiar. O marido não ouviu o grito, os gatos estavam do lado de fora do banheiro, como sempre. A oitava preocupação surgiu para ocupar o lugar da dor: e se eu precisar ir ao hospital? E se acontecer algo de ruim aqui em casa durante essa pandemia? Será que eu teria coragem e estrutura para ir ao pronto socorro?

Fui para o quarto tentando me concentrar no que estava fazendo, para não ceder à vontade de me atirar na cama e dali não sair. Essa fora a gota d’água, esse pânico, esse pavor de precisar sair da proteção da quarentena.

Peguei o celular e vi uma mensagem de um amigo com quem não falava há tempos. Me distraí um pouco com essa conversa, mas logo desviei o foco para a nona preocupação: a quantidade de óbitos causados pela covid-19.

Foi aí que tudo desandou. Uma avalanche de preocupações sem sentido me fez correr para a cozinha, já pronta para me refugiar em uma pílula – mas lá estavam eles, o leite condensado e o creme de leite, que eu havia separado antes, com a intenção de fazer um brigadeiro.

As ações que se sucederam foram todas instintivas: abrir as caixinhas, despejar os líquidos cremosos na leiteira, o cacau em pó, acender o fogão, pegar a colher de pau no congelador, começar o processo de esvaziamento total da mente. Os ruídos da fervura, a chama azul bruxuleando sob a panela, um espaço de tempo para meditar. Cozinhar acalma.

Mexendo o doce quente, elenquei todas as preocupações que me ocuparam ao longo do dia. Vinte e três dias sem sair de casa, o ensaio do apocalipse acontecendo no planeta, e eu aqui preocupada com coisas tão pequenas. A fumaça com aroma de festa me fez sorrir, já ansiosa pelo conforto que a guloseima me traria naquela noite.

Desliguei o fogão e coloquei algumas colheradas fumegantes de brigadeiro em uma xícara. O remédio da noite, não posso me esquecer da duloxetina. Mais uma pílula, goles e mais goles d’água, colher, brigadeiro, xícara, um passeio até a janela.

Da sacada do apartamento, consegui ver um grupo de pessoas bebendo no posto de gasolina da esquina. Um alarme de carro tocava insistentemente, e eu pensava em quando haveria o silêncio, a calmaria que se espera em tempos de isolamento. Comi o doce ainda morno, até raspar a xícara, saboreando as reações químicas que me propiciaram instantes de calma.

Fui me preparar para dormir com mais um item para a minha coleção de vãs preocupações: e se todo esse cuidado, esse isolamento, não servir para nada, no fim das contas? Entreguei nas mãos de Deus, orei e continuo orando, fiz promessas, fui cautelosa o tempo todo. Será que no final, isso vai contar? Estaremos protegidos, eu e as pessoas que amo?

A necessidade de estar sempre no controle, a vontade de saber o desfecho de tudo, o olhar que não descansa – as vãs preocupações do mundo, a me rondar, a tirar a paz. Quando elas me deixarão viver tranquila? Por que não consigo abandoná-las por completo?

Deitei na cama, cansada, o alarme do carro já não apitava mais à distância. À meia noite e dez, deixei o celular no criado-mudo, ciente de que de nada adiantaria tentar dormir.


Imagem: Tonik, via Unsplash.