Ser saudável em um mundo doente

Hoje é o Dia Mundial da Saúde. A data comemorativa foi instituída em 7 de abril de 1948, na primeira reunião da Organização Mundial da Saúde, ou World Health Organization. Desde então, muitas ações são realizadas neste dia para conscientizar as pessoas sobre a importância da prevenção, dos cuidados pessoais com o corpo e com a mente, enfim, de tudo o que promove a boa saúde de um indivíduo.

É estranho pensar sobre saúde em meio a uma pandemia, em meio à crise sanitária que se alastra em todo o planeta.

Apesar de todo o perigo e toda seriedade da pandemia de COVID-19, é preciso recordar que o problema do acesso à saúde não é algo recente ou decorrente deste novo vírus. Vivemos em uma sociedade doente, que prioriza o lucro ao invés de vidas.

Em pleno Dia Mundial da Saúde, o que vemos acontecer aqui em nosso país (e, quiçá, no mundo)? O total descaso pela ciência, pela vida, pela manutenção de direitos humanos assegurados pela constituição e universalmente aceitos como tal. Vemos governantes relativizando medidas de combate a uma pandemia que já atingiu mais de 1 milhão de pessoas, e resultou, até agora, em mais de 50 mil vítimas fatais (dados da Universidade Johns Hopkins). Vemos empresas reclamando que perderão dinheiro, enquanto a população, majoritariamente a classe trabalhadora, sequer compreende a dimensão desta crise ou sabe como cuidar da própria saúde.

Saúde, essa coisa tão frágil e preciosa, a que poucos têm acesso.

Ser saudável, algo que deveria ser um direito de todos, sem exceção, há muito tornou-se privilégio. Os avanços da medicina são reservados aos afortunados que podem pagar quantias exorbitantes por eles. Mais uma vez, é o dinheiro escolhendo quem vive e quem morre. Isso jamais pode ser considerado justo.

Um dos exemplos fictícios mais didáticos dessa gritante desigualdade está no filme Elysium, de 2013. Em um futuro distópico, a elite da Terra cria uma estação espacial que é o próprio paraíso, onde, inclusive, há uma máquina capaz de diagnosticar e curar doenças, até mesmo o câncer. Enquanto isso, no planeta que os ricos deixaram para trás, a população sofre com uma realidade arrasada e sem recursos, sem tratamento médico, sem esperanças, sendo completamente explorada e escravizada para o benefício de quem vive no utópico mundo artificial orbitando a Terra.

Será que estamos assim tão longe desse cenário?

Tudo bem, estou usando um exemplo extremo aqui, mas vamos pensar na situação em que hoje nos encontramos. Com epidemias provocadas por tantas enfermidades evitáveis, como sarampo, influenza, febre amarela e outras doenças para as quais já existem vacinas, bem como aquelas que poderiam ser erradicadas com saneamento básico, como cólera, dengue e afins, o grande problema do mundo parece ser o desinteresse pela vida dos pobres, e não as doenças, em si.

Com o surto de COVID-19, estamos testemunhando o colapso dos sistemas de saúde em todo o mundo, mas a falta de estrutura e insumos já é realidade há bastante tempo, em muitos países, inclusive o nosso. Talvez seja uma boa oportunidade para revermos as estruturas sociais que tornam ainda mais difícil o acesso a tratamentos e métodos preventivos.

Quem paga o preço pelo descaso e pela desigualdade somos todos nós.

Hoje paguei o boleto do plano de saúde. Novecentos e quarenta e três reais, cobertura simples para mim e para o marido, ele com mais de quarenta e doença respiratória, eu com mais de trinta e “obesa”. Tudo isso encarece o plano, pois, teoricamente, haverá mais demanda por parte do paciente. Esse valor é quase um terço do meu salário. É quase o valor de um salário mínimo.

Nem preciso dizer que o atendimento deste plano, cujo nome não citarei para evitar transtornos, deixa muito a desejar, sobretudo quando se trata de especialidades e médicos sérios. Isso porque os valores repassados pelos planos de saúde a esses profissionais são abusivos, para não dizer ridículos. Cobram de nós o olho da cara e precarizam o atendimento. Percebo, então, que o problema não é o sistema público ou o privado, e sim a lógica do lucro a qualquer custo, que coloca em risco a vida de milhões de pessoas.

Engraçado, também, que quando se fala de saúde logo se pensa em médicos e hospitais, em álcool, gaze, soro, algodão.

A medicalização da vida é uma tendência, haja vista que a indústria farmacêutica está aí para sanar as nossas dores com pílulas mágicas, se você tiver dinheiro, é claro. No entanto, saúde é mais que ir ao médico e ver que está tudo bem com o corpo ou com a mente.

Ser saudável vai além de estar com os exames dentro de parâmetros aceitos pela medicina, tem a ver com a mente, os comportamentos, o espírito, os valores. Saúde engloba todos os fatores da vida de uma pessoa, desde o lugar onde mora, a escola em que estuda, os alimentos que consome e o lazer que pratica.

Imagine só como é a vida de uma pessoa totalmente desprovida de acesso a saneamento básico, moradia, alimentação de qualidade e descanso adequado. Agora, imagine como é viver assim em meio a uma pandemia. É inútil acreditar que nosso sistema de saúde dará conta da demanda, por mais que seja gratuito e acessível a todos, diferentemente do sistema dos EUA, por exemplo, onde tudo é pago.

A vida jamais deveria ser mercantilizada.

Gente não é produto e saúde é direito.

Devemos lutar pelo acesso gratuito e universal aos cuidados médicos e de saúde como um todo. Nosso SUS é uma preciosidade que deve ser preservada – é através dele que ocorrem as campanhas de vacinação, de prevenção a doenças, de tratamento de especialidades para quem não tem condições de pagar o valor salgado da saúde privada.

Que possamos, neste dia e no restante do ano, lembrar que o nosso mundo está infectado pela doença da ganância, da desigualdade, da opressão. Enquanto não conseguirmos tratar esses fatores, nos restará apenas a ilusão de que somos saudáveis – pois, como é possível ser saudável em um mundo assim tão enfermo?


Foto: Marcelo Leal via Unsplash