O tempo de viver é agora

Desde seu início, 2020 já mostrou que não veio a passeio. Incêndios florestais, chuvas avassaladoras, pandemia, crise econômica, crise política, caos iminente. Vivemos tempos difíceis e é provável que o cenário demore a retornar à normalidade (se é que um dia vivemos algo parecido com o normal – aliás, talvez tenhamos normalizado a barbárie. Voltarei a falar disso em outra oportunidade).

Quando penso no futuro, o estômago revira, a boca fica seca, o suor salpica meu rosto com angústia. Penso que talvez eu não tenha forças suficientes para sobreviver a eventos distópicos, principalmente porque me desespero e, com a ajuda da ansiedade, sofro por antecipação.

Vejo amigos aflitos, lançando ao vento questionamentos iguaizinhos aos meus, que se resumem a: o que será de nós?

É óbvio que ninguém pode responder a essa pergunta. O futuro é incerto, é construção contínua e coletiva, é o instante logo após o agora, entrelaçado ao presente em uma trama infinita. Por isso, de nada adianta ocupar a mente com o que ainda está por vir e perder a parte boa da vida.

Eu sei que é difícil encontrar coisas boas em meio ao atual cenário em que o mundo se encontra. Nossa vida parece mudar a cada instante, e com as notícias que vemos na mídia as possibilidades tornam-se mais limitadas: viagens, cursos, carreira, compras, encontros, todos os planos colocados em modo de espera por tempo indeterminado.

Ainda assim, a vida é urgente – talvez por ser cada vez mais frágil.

Podemos enxergar beleza através das frestas do caos. O céu azul, a solidariedade nas redes de amigos e conhecidos, o desejo de mudança, a ânsia por ver cair um sistema injusto e desigual. Pela primeira vez em nossa era, o sentimento de medo e incerteza é coletivo. Estamos todos passando por essa tempestade juntos, e podemos criar uma nova realidade depois que ela acabar. Espero que sejamos capazes de fazer isso!

Acho que nossa vida nunca mais será a mesma após a COVID-19. O que, aliás, é uma verdade do agora: já não vivemos mais como antes. O confinamento, o receio, a neura com a higiene e ao ouvir tosses e espirros, tudo isso já faz parte de nossa realidade, como em um filme apocalíptico. Já estamos em um mundo para o qual não fomos preparados.

Como, então, seguir vivendo?

Bem, eu escolhi me concentrar em um dia de cada vez. Se hoje acordei bem, com saúde, com um teto, em segurança e com as coisas no lugar, então está bem. Neste agora, há cores, sabores, sentimentos, pequenas coisas que nos mantêm em contato com o mundo do qual estamos isolados. Neste agora, você existe, e isso é uma grande vitória (ou um enorme privilégio); afinal, sua vida mantém-se preservada durante uma pandemia sem precedentes em nossa era.

Mantenho a sanidade pensando no que consigo e posso fazer agora. Ler, escrever, trabalhar (a rotina profissional continua, só mudou de cenário), conversar com os entes queridos, ainda que virtualmente, fazer carinho nos gatos, observar a estranha calmaria das ruas, imaginar o que fazem agora todas as pessoas atrás das janelas que me rodeiam.

O único tempo que temos é este instante passageiro. O futuro sempre foi incerto, apenas tínhamos a sensação de que podíamos controlar os acontencimentos.

Viva, agora. Exista, pois isso é o que basta. O amanhã será um novo agora, e assim é a vida: uma sucessão de momentos-agora. Portanto, vamos aproveitá-los, da melhor maneira possível.


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