Por que ainda não somos ricos?

Ah, quem nunca sonhou em ganhar na Mega Sena, em ter um salário mais gordinho, em poder trabalhar menos e desfrutar mais da vida? Bem, talvez todos os ricos do mundo, pois jamais tiveram que se preocupar em suar a camisa para ganhar o pão de cada dia.

Dinheiro é um negócio complicado. Faz falta, aguça desejos, transforma caráter. Como diria a maravilhosa letra da canção Money, do Pink floyd, é a fonte de todos os males hoje em dia.

No meu caso, reles mortal proletária, posso confirmar essa última afirmação. Dinheiro é uma fonte de problemas. Paradoxalmente, é igualmente a solução das grandes aflições que passo todos os dias: pagar boletos, pensar no futuro, na aposentadoria (que provavelmente ficará apenas no sonho), nos projetos que quero ou preciso realizar, no meu destino caso a crise ganhe proporções ainda maiores e eu volte a fazer parte das estatísticas do desemprego.

O mundo todo parece girar em torno de enormes cifrões, como se o Sol, grande astro-Rei da civilização, emanasse moedas de ouro ao invés de radiação e calor. Talvez seja essa a origem de nosso fascínio pelo metal – é como se o próprio sol estivesse em nossas mãos, nos concedendo desejos, nos transformando em micro-celebridades. Isso, é claro, supondo que reste alguma moeda após o pagamento de todos os impostos, obrigações, contas, após a compra de tudo o que é necessário para a nossa vida (ou sobrevida, nas condições atuais).

Sem dinheiro, vivemos em ciclos de dificuldades, lutas, batalhas diárias pelo pão de cada dia, e isso nos leva a fazer tudo o possível para não perder o teto sobre nossas cabeças.

Trabalhar, para nós que estamos na ponta mais fraca da corda, é uma questão de sobrevivência. E isso é algo que fazemos praticamente todas as horas do nosso dia.

Cadê o dinheiro que nos prometeram, então?

Segundo a lógica vigente, quem se esforça bastante, alcança o sucesso financeiro. A ideia que nos transmitem desde que nascemos é a de que “chegaremos lá” se nos empenharmos ao máximo, se o nosso suor escorrer em dobro, afinal “Deus ajuda quem cedo madruga”.

Nesse sentido, se você não alcança a tranquilidade das finanças, logo a culpa é toda sua, e não de um sistema excludente, que privilegia quem já tem bastante, que dificulta a vida do trabalhador. A culpa pelo saldo negativo da sua conta não é do alto custo de vida ou do fato de que você provavelmente trabalha para o enriquecimento de outrem; é você, pobre, que não sabe poupar, que não administra bem sua renda (que renda, meu Deus??), que não sabe investir.

Será que isso é verdade mesmo?

Eu não sei você, mas eu ando madrugando bastante, trabalhando em praticamente todas as horas em que estou desperta, economizando em tudo o que é supérfluo e, ainda assim, continuo pobre. Analisando o tanto que trabalho, dia após dia, eu me faço a seguinte pergunta:

Por que ainda não conquistei o meu primeiro milhão?

Minha reação instantânea seria dizer que, com tantos gastos no cotidiano (sem ter um fundo de reserva ou um dinheiro rendendo bem), é impossível economizar até chegar a uma quantia razoável. Ou então, que, como toda boa proletária, eu teria que trabalhar em pelo menos três empregos para conseguir juntar alguma grana por mês.

Mas, espera, eu já tenho quatro “empregos” – trabalho em uma editora, faço traduções e revisões como freela, dou aulas particulares e escrevo. Essas quatro funções me rendem algum dinheiro (e inclusive você pode me apoiar no Padrim e contribuir com a renda de um dos meus “empregos”), me permitem viver com dignidade. Ainda assim, continuo pobre.

Ou seja, podemos depreender que essa lógica de trabalho duro = muito dinheiro no bolso é totalmente furada.

Vale lembrar que, para se ter uma carreira sólida em qualquer área, é necessário fazer diversos cursos e especializações. Porém, como conseguir cumprir esses requisitos sem ter tempo disponível para estudar, nem dinheiro extra para pagar pelos estudos? O ingresso em instituições públicas de ensino costuma exigir muito empenho, o que também demanda muito tempo, fechando assim o ciclo da “carreira estagnada” da maioria de nós. Além do mais, em algumas áreas, você pode ter até pós-doutorado: o mercado deseja, mesmo, ter um funcionário de alto nível, mas sem precisar pagar muito.

Assim, seguimos, eu e mais milhões de pessoas neste mundão, em total confusão graças ao discurso que nos alimenta: o de que é possível enriquecer com muito trabalho e dedicação.

A narrativa da pessoa que surge do nada, que vence a pobreza e se torna dona de uma multinacional é algo que nos fascina, que nos faz vislumbrar um mundo em que a chance de chegar até o topo é uma realidade possível. Nos dá esperanças de que podemos também ter um futuro brilhante, despreocupado e garantir a tranquilidade das próximas gerações.

No entanto, esse sonho está muito distante da realidade: todos os humanos assalariados, ou que dependem do trabalho para sobreviver, são pobres.

Basta pensar da seguinte maneira: você precisa trabalhar para viver? Se sua resposta foi “sim”, então você é pobre. Agora, se você pode desfrutar de férias perpétuas, vivendo dos lucros dos milhões de dólares investidos em ações de empresas ou de juros e rendimentos de transações bancárias, trabalhando por prazer, então você pode dizer que é rico.

Eu sei, é difícil admitir isso, principalmente quando se tem um teto, comida, emprego, televisão, celular, carro, esses privilégios da chamada classe média. Mas, veja, isso não significa que estamos “bem”; significa que a coisa está tão feia por aí que ter acesso ao básico do conforto nos faz sentir “ricos” ou “mais abastados”. Se você mora e trabalha no Brasil, provavelmente vive com um salário médio de dois mil e poucos reais por mês, faixa salarial considerada como “classe média” (entre aspas, sim, porque a classe média é uma ilusão, e tema para outro post).

Você já parou para pensar no que dá para fazer com dois mil e poucos reais? Ou com um salário mínimo? Ou com quatrocentos e poucos reais ao mês (ganho de mais da metade da população do Brasil)?

Isso não diz nada para nós? Pois deveria.

Quando fingimos que na verdade não somos pobres (porque, afinal, temos algum poder de compra), a tendência é cairmos na ilusão de que estamos mais perto do topo do que da base da pirâmide econômica.

Contudo, a realidade é que a concentração da riqueza mundial está nas mãos de poucas pessoas. É desesperador saber que, no atual sistema, os ricos só existem graças à exploração do povo sofrido e pobre, do qual faço parte.

Isso me faz pensar que eu poderia muito bem mudar a pergunta que fiz no título para: Será que eu gostaria mesmo de ser rica?

Talvez não seja tão legal assim ter dinheiro em excesso, no fim das contas. Dinheiro é bom, mas viver em paz e lutar por um mundo mais justo é muito melhor.


Foto: Linus Nilsson via Unsplash