Desejo de primavera

Ou: Uma oração contemplativa

Queria ser como as pessoas que sorriem despreocupadamente, caminhando no parque às dez da manhã de uma quinta-feira. Queria ser como os animais, que desconhecem as tramas da sociedade humana e que confiam na natureza e na providência, sem se desesperar.

Queria ser como uma borboleta, que, com muito esforço, e sem desistir, voa em meio às ventanias e consegue pousar nas flores, em segurança, cumprindo seu papel de permitir que exista o alimento para todas as outras espécies.

Queria poder viver um único instante sem sentir esse peso, essa pedra de toneladas e toneladas que afunda o peito, essa enfermidade invisível que, mesmo com remédios, me rouba a liberdade e a autonomia. Será que viverei sem essa melancolia, sem os soluços de quem chora escondida em todos os cantos de todos os cômodos, todos os dias?

Queria ser como as andorinhas que brincam perto da minha janela; para elas, não há barulho, pedras, peso, nuvens cinza, enfermidades ou soluços de tristeza. Há, apenas, o voo lúdico e o desejo intenso de mergulhar em queda livre. As andorinhas sabem que não vão cair; suas asas são resistentes e conhecem todos os movimentos e as direções das correntes de ar.

Queria aprender a não cair, a ter asas fortes, a voar com destreza e determinação. Caminhar sem correntes, sem desesperos, com a leveza de quem se permite tirar uma folga em um dia de primavera.


Imagem: Julian Hochgesang — Unsplash

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