Amoras silvestres

Do lado do restaurante onde almoço diariamente, há um grande arbusto de amoras. Poucos meses atrás, no pleno frio de julho, seu aspecto era estéril, havia ali nada além de galhos secos, madeira semi-morta, uma aura de enterro, lamentos pela possível inexistência da primavera no solo seco de sua morada.

Como toda planta feita de ciclos, a amoreira vicejou. Tornou-se uma árvore alta e farta, com verdes folhas pontilhadas de vermelho, preto e aromas. Amora e aroma: que aliteração perfeita. Inverno transformou-se em primavera, em flores que agora colho e como, sorrisos que nascem pintados de rubro em minha boca que, no entanto, não se prende a versos ou palavras quando me estico para apanhar uma, duas, cinco, vinte frutinhas no pé, depois do almoço.

Ter um pé de amora ali, bem ao lado do local do almoço, é uma bênção. Um presente que eu poderia ignorar, imitando a maioria dos funcionários para quem o arbusto é invisível. Por vezes penso que a danada da amoreira se faz de disfarçada, se esconde de olhos desdenhosos, se veste de concreto e desafeto para guardar suas frutas para nós: eu e algumas amigas, algumas crianças, alguns sanhaços e bem-te-vis. São bravos esses pássaros, guardiões das frutas sem dono, são eles os detentores de royalties, os herdeiros daquela fartura toda, foram eles e seus ancestrais que a plantaram ali, que velaram sua hibernação, que cuidaram para que tudo desse certo no inverno passado. Acostumei-me a pedir licença a essas aves-sentinelas sempre que me espicho até as frutinhas mais maduras que nunca consigo alcançar.

Sabe-se lá por que razão, decidi abrir os braços e o coração para essa centelha de felicidade nos dias de trabalho. Por isso mesmo, talvez: por serem dias de labuta, de cansaço, nos quais se precisa de um pouquinho de açúcar, de instantes lúdicos.

Pois bem. Nada se iguala a este pé de alegria plantado ao lado de uma árvore falecida, que quase brota, não fosse pelos esforços dos Administradores a cortarem seus verdes bracinhos que nascem, semanalmente, nos tocos de madeira sem vida. Nossa querida amoreira, que nos fornece sobremesa grátis todos os dias, que nos propicia recordar a infância e a leveza.

Colher amoras no almoço é ato de paciência. É aceitar a providência, esperando sempre pelo próximo dia, pelas frutas mais maduras do amanhã.

Vez ou outra, colho uma fruta que está amadurecida pela metade e brinco que a minha amiga-árvore me enganou. Posso ouvir os pássaros gargalhando. Não sabes distinguir as coisas prontas das que ainda estão sendo feitas, mulher? Respondo que não, em silêncio, o azedo da fruta verde queimando a garganta. Assim, aprendo mais e mais sobre o tempo e sua importância, sobre a real necessidade de aguardar a passagem dos dias e saber apreciar todas as cores, do esbranquiçado ao verde-claro, do rosa pálido ao vermelho, do rubro escuro ao preto intenso. Do azedume à doçura.

É diário esse momento de colher amoras no almoço. Sagrado, até, porque é impermanente. Logo, os pássaros haverão comido tudo. Ou nós mesmos teremos acabado com todas as frutinhas maduras, até que o sol incida sobre um novo grupo e as transforme em manjares açucarados. Ou, então, o outono chegará, com suas folhas amarelas, a ausência de flores, o sono e a improdutividade.

Há, além de amoras, metáforas presas nos galhos do arbusto-amigo. Lá no alto, quase inalcançáveis, os frutos mais pretinhos, doces e saborosos se exibem como prêmios. Demoramos longos e exaustivos minutos para colher poucas frutinhas – que, no entanto, parecem satisfazer mais que uma porção ilimitada de doces. São como frutos mágicos: cada mordida, um cesto repleto. Os sanhaços cinzentos bem sabem de seu sabor. Aqui embaixo,  posso apenas imaginar seu sumo escorrendo nos cantos da boca, tingindo os dedos e a roupa, posso apenas idealizar o dia em que conseguirei puxar um galho, derrubando sobre mim toda essa fartura. Enquanto isso, para os sanhaços e bem-te-vis, o banquete é grátis, perene, constante.

Há reflexões pendendo de cada ramo da amoreira que me acolhe nas tardes úteis. Vejo a mim mesma, saltando atrás de algo cujo sabor conheço, mas que minhas mãos não conseguem alcançar. Eu poderia chegar até os galhos mais altos: bastaria ter coragem de trazer comigo uma pequena escada, ou de procurar soluções para trazer os galhos superiores mais para perto do chão. Bastaria querer com mais força.

Assim é a vida, dizem as frutas rosadas que ainda vão demorar a amadurecer.

Do lado do restaurante onde faço minhas refeições diárias há amoras silvestres, delicadas como borboletas, robustas como o tronco de um carvalho. Para chegar até elas, é necessário um trabalho conjunto. Alcançá-las é motivo de comemoração, ainda que se colha uma ou duas frutinhas. Fincado naquele solo há, muito além de frutas, árvore, sorrisos, metáforas e reflexões, um alento, um suculento cacho de esperança que se deixa embalar pelo vento das manhãs. Todos os dias, as amoras silvestres me ensinam sobre felicidade e contentamento. Me fazem superar as tristezas e ansiar por um novo dia, com fruta madura, mais doçura e sabor.


Imagem: Pixabay

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