Café da manhã

Acordo desistindo dos planos que fiz para hoje. Eu deveria ir ao MASP. Passear pela Avenida Paulista, admirar o cinza do céu da cidade da garoa, buscar inspiração no grito das ruas e nos ambientes culturais. Tomar um café, fotografar um café, fingir que sou feliz num café. Fazer de conta que férias é tempo de sorrir.

Sete em ponto, desperto sem entusiasmo. O relógio bate fundo em mim, pronunciando uma lista de coisas e planos que vou abandonar antes mesmo de levantar da cama. Luto contra o desejo de permanecer ali, estirada em minha miséria, envolta no sentimento de não querer: ser, estar, permanecer, existir. Eu, hoje, não quero.

Mas tenho fome. Vontade de comer panquecas, mas não vai dar para fazer, falta ingrediente, paciência, leite. Na geladeira, um vazio semelhante ao que tenho no peito. Tudo está mais gelado do que deveria — é inverno, e a temperatura está no frio máximo. Para quê, se não há o que refrigerar?

As coisas simples me transportam a questionamentos profundos, e me pergunto por que nasci assim, quebrada, um pouco torta nas emoções. Sempre meio entristecida, até nos momentos mais felizes. É como se a felicidade, para mim, se assemelhasse a um sacrilégio. Sorrir nesse caos, nesse mundo torpe, como pode?

Pego a bandeja de ovos e torço para que não estejam podres. Quebro um, depois outro, numa tigela que não uso há tempos. Misturo com duas colheres de aveia, um pouco de açúcar, essência de baunilha. Na frigideira, essa miscelânea se torna uma espécie de omelete-panqueca, no qual espalho requeijão e mel, uma criação excêntrica que saboreio, orgulhosa, uma mini-vitória que me forço a comemorar; na verdade, várias: levantar da cama, ajeitar os lençóis, limpar a sujeira da caixa de areia dos gatos, pensar em comida, fazer a comida. É pouco, mas hoje significa a salvação de uma vida.

Enquanto aprecio esse prato sem nome, com calma, e em pé, na beira da pia, leio as mensagens que chegam para mim. O marido, preocupado. A colega, agitada, perguntando como faremos para divulgar um curso. Por que é que invento essas coisas? Por que é que não fico aqui para sempre? Os sites de recrutamento me oferecendo empregos, quando tudo o que eu queria era não precisar fazer nada além de escrever, viver, acordar um dia após o outro sem a obrigação de fazer um dinheiro que serve apenas para me manter funcionando. Funcionária. Autômato que sonha em morar no mato.

Termino o prato, abro a torneira e deixo a água molhar ralo, copo, colher, escumadeira, frigideirinha, garfo, xícara de ontem, deixo a louça um pouco limpa, uma pré-lavagem de quem tem preguiça, mas também tem culpa de largar bagunças. Detesto cheiro de ovos na pia, detesto sujeira, exceto quando estou assim, sem viço, uma planta meio seca, um galho de alecrim cujas folhas caíram na terra, desperdiçadas, sem servir de tempero.

Sinto sede. Há alguns limões esquecidos na geladeira. Pego um copo grande, jogo duas colheres de café de açúcar demerara lá no fundo. Corto um limão cravo ao meio, espantada. Ele resistiu a um mês de geladeira, mesmo sendo orgânico e isso me faz pensar se precisamos mesmo de tanto veneno, porque olha como essa fruta durou, durou muito, está intacta, vejo suas sementes abundantes acumuladas no fundo do espremedor e as imagino brotando em um sítio só nosso, meu amor, já pensou, uma varanda para tomar um café agora, eu até faria um bolo, até untaria uma forma, e olha que tenho aversão a untar a forma, porque a manteiga gruda na mão e não sai nunca mais. O limão espremido cai em cima do açúcar e o faz desaparecer e o aroma de sítio é esplendoroso, posso até ver o limoeiro do sítio do meu avô, todo carregado, tal qual árvore de Natal, enfeitado de bolinhas cor de laranja. ou melhor, cor de limão cravo. Coloco a água, mexo bem, as partículas restantes do açúcar dançando com os gominhos alaranjados, ou alimoados, até que o redemoinho formado pela colher para de girar.

O suco está aguado, que ironia, a vida está assim também, meio azeda, meio faltando açúcar, mas vou guardar o outro limão cravo para mais tarde, porque posso precisar. A sede vai voltar.

No meio tempo, vou tomar um café. Capuccino, talvez, porque café vai ser uma batalha, vai complicar a vida, vai ser assim: fazer um só, ou uma garrafa toda?, mas se eu fizer a garrafa toda vai sobrar e vou ter que jogar fora e onde já se viu jogar coisas fora com essa crise, olha, se eu tiver que jogar mais uma vez café pelo ralo da pia da cozinha eu vou ficar brava, e isso também é ruim porque entope os canos, café tem aquela gordura, aquela coisa que gruda nas paredes, tá vendo essa laminha preta aqui no cano, é isso, é esse café que a gente joga aqui, meu deus, pra quê jogar café fora, pra quê desperdiçar as coisas, a vida, a manhã inteira com esse lamento, que cansativo, eu me canso comigo mesma.

Pelo menos já não estou mais chorando, nem com fome, agora é a vez de me sentir arrependida por ter sucumbido ao medo, à tristeza, à tepidez, como eu já sabia que aconteceria.

Pelo menos, um texto. Pelo menos, um dia a mais, viva.


Imagem: Thought Catalog via Unsplash

Anúncios

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s