Não seremos reféns

Como é difícil existir em dias como hoje. Dias em que desejo poder imprimir sentimentos em imagens e palavras, mas sei que não terei sucesso. Como é pesado o fardo de sentir as dores do mundo e não ser capaz de abrandá-las. É pesado o fardo de se manter quieta quando se quer explodir. Ninguém aguenta tanto tempo.

Levo em meus ombros o peso de saber que um mundo melhor é possível, e de ter a noção de que vivemos no lodo apenas pelo capricho de poucos, que não se contentam com o “muito” que já possuem – esses poucos que mandam no mundo querem tudo, até as nossas almas. Querem nos tirar tudo, até o que não temos, para que possam nos controlar eternamente. Nos querem ocupados, angustiados, alienados, para que soframos com a boca bem fechada, calados como bons robôs sem voz.

Mas estou farta de me manter em silêncio, de abaixar a cabeça, de ser a pessoa que agrada aos algozes, de ser a serva submissa, “o bom cabrito que não berra”.

Por tantos anos estive calada, por tantas vezes me deixei levar pela passividade. Ah, quanto tempo se passou até que eu soubesse que tenho voz, e que posso usá-la. Quanta vida desperdicei, quanto me deixei aprisionar. Já chega! Não mais!

Tenho visto tanta gente calada, aflita, sofrendo. O que podemos fazer para sair desse estado de agonia e torpor? Como podemos recuperar nossa agência, nossa alegria de viver, roubada pelas mãos de quem está no poder?

Eu não sei responder a essa pergunta de forma definitiva (acho que nunca sei responder a nada, mesmo, de maneira resoluta). 

Acontece que nós precisamos falar. Ainda que não saibamos o que dizer. Temos que abrir as comportas da alma.

Precisamos nos levantar contra as injustiças, as atrocidades, construir o mundo que já existe de forma utópico – aquele, sem desigualdades, onde impera o amor, o convívio pacífico, a solidariedade.

E hoje eu me permito gritar. Me permito dizer: não serei refém. Vou além, e afirmo: não seremos reféns. Nem eu, nem você.

O mundo deseja colocar as almas à prova, nos fazer ceder à pressão de ser refém. Mas hoje, estou densa. Sou um tecido impermeável, uma parede escura intransponível. Sou o peso da transformação, o absurdo da esperança que brota tímida em meio à desolação.

Eu existo, você existe, e a luta é para que sigamos existindo. Que sejamos livres, que sejamos vivos, de fato.

Diante da aridez da semana que hoje chega ao fim, percebi que é isso o que desejam os poderosos: eles nos querem reféns, do medo, do pânico, da insegurança em relação ao futuro. Nos querem reféns do dinheiro, da falsa felicidade que o consumo proporciona, do prazer, da euforia. Nos querem reféns da luta pela sobrevivência, para que sejamos incapazes de bater de frente, gritar e mostrar nossa voz.

Nos querem reféns, para que, um dia, ou agora, ou para sempre, aceitemos entregar nossa dignidade por migalhas.

Porém, eu digo: Não.
Não serei refém.

Hoje, sou aquela que rompe padrões, rotinas, sistemas.
Sou toda coragem, sou a chave que rompe correntes, grilhões, cadeias.
Hoje não serei silêncio. Serei brava, redonda, imensa. Hoje serei represa rompida, inundando espaços e fecundando a aridez. Hoje serei revolução.


Imagem: DESIGNECOLOGIST via Unsplash

Anúncios

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s