Temos sorte

Estou vivendo uma inusitada sequência de dias. De alegria, plenitude, despreocupação. O coração palpita preguiçoso, o corpo dança na languidez do ócio, no ritmo daqueles que não têm obrigação de cumprir nenhum tipo de compromisso.

Estou vivendo dias calmos. Um dia tranquilo, seguido de outro dia tranquilo, com mais sorrisos do que descontentamentos. Ao meu redor, além da paz, encontro uma casa segura, lençóis limpos, conforto, proteção. Dois gatos enroscados na beira da cama enquanto leio. O amor sempre por perto, na figura do marido, dos pais, dos amigos. Tudo tão certo e bom, que dá até um pouco de receio do que pode vir a seguir – afasto o pensamento com urgência, não posso deixar que esse tipo de sensação me invada e me roube os presentes que venho recebendo da vida. Reclamar não é mais uma opção.

Tenho reclamado tanto. Tenho me esquecido de olhar a vida sob a ótica do otimismo, da pureza, do desejo pela utopia. Tenho vivido enclausurada em meu umbigo, de portas trancadas, e não tem sido interessante.

É fácil se esquecer da sorte, das alegrias e das coisas boas; mais fácil ainda se concentrar naquilo que ainda não veio, na escassez, no que falta.

Tenho pensado bastante naquilo que ainda não conquistei, tanto que parece que me esqueci de onde vim, e todo o árduo caminho que trilhei até aqui. Seja lá em qual aspecto da vida eu pense, sempre haverá mais o que comemorar do que lamentar, se eu souber enxergar da maneira certa. Minha fortuna sempre foi maior que a miséria, com a graça do universo, e isso não deveria passar despercebido ao longo dos meus dias.

Eu deveria agradecer, ao invés de me lamentar a respeito de tudo.

Basta olhar para o lado para notar que o problema não é a vida ou as circunstâncias que porventura tenham se apresentado. O problema sou eu. As escolhas que fiz e das quais me arrependo – como não dar continuidade aos estudos após a graduação, não ter ido fazer um curso no exterior, não ter, ainda, publicado o meu primeiro livro. Eu me fixo nisso, no futuro incerto, naquilo que ainda há de vir, e fecho os olhos para a felicidade. Julgo decisões passadas sem a mínima compaixão pela pessoa que eu era quando não levei em conta tudo o que está em jogo hoje. Eu era inocente, sem noção, alheia ao que tais escolhas trariam, e acho que já está mais do que na hora de fazer as pazes com os caminhos que trilhei e com a pessoa que eu era ao dar os passos tortos que, apesar de não terem seguido a trajetória que idealizei, me trouxeram a um lugar de autoconhecimento, amor, reconhecimento, encontro, partilha, comunidade, construção, criação, ação. Sou feliz por tudo isso.

Então, por que reclamo tanto?

Comecei a escrever esse texto com uma intenção em mente, mas, em seguida, pensei:  nem todos têm esses privilégios que estou enumerando aqui. Senti um grande aperto no coração em pensar no quanto sou sortuda, no quanto é difícil para algumas pessoas apenas terem um teto onde morar. Me senti como uma daquelas madames que reclamam da fila nos parques da Disney, ou que lamentam a falta de sabonetinhos hidratantes nas suítes presidenciais do Hyatt. Uma pobre menina rica.

E, embora eu faça parte da classe trabalhadora, do grupo dos ferrados, da galera dos pé-rapados, eu tenho total consciência de que sou uma pessoa sortuda. Porque a sorte, o acaso, Deus ou qualquer coisa que o valha me permitiu nascer em uma casa repleta de amor, me acompanhou em meus passos tortos e me fez persistir quando tudo me levava ao precipício. Porque alguma força sobrenatural soprou em meus ouvidos a intuição de ficar, de continuar, de fazer o que deve ser feito. Porque essa mesma força me colocou nos lugares em que eu deveria estar, nos momentos certos – e, ainda por cima, fui capaz de aprender o que precisava nesses instantes obscuros.

Tenho sorte de poder perceber que tudo em minha vida é bom, é válido, é necessário. Mesmo as coisas ruins, que são passageiras, como todo o resto. Mesmo as dificuldades, as frustrações, os perrengues, as desilusões. Tenho sorte de poder estar neste espaço virtual, escrevendo minhas emoções, derramando minha alma em palavras, e ter alguém que me lê e divide comigo algumas das aflições da existência. Tenho o privilégio de poder fazer o bem à vida de quem lê meus textos, de me conectar com quem está do outro lado da tela, de dizer, ainda que sem usar essas palavras, “Ei, você sabe que não está só, né? Você sabe que tem alguém aqui do outro lado que também sente um turbilhão de coisas e não sabe lidar com elas, né?”. Sou uma mulher de muita sorte, por viver no planeta Terra, no ano de 2019, em plena revolução digital, feminista, ecológica, sustentável. Tenho sorte de poder fazer parte do exército de pessoas dispostas a não se curvar. Que vieram ao mundo para fazer algo além do básico.

Hoje dormirei mentalizando todas as coisas que fazem de mim uma pessoa de sorte.

E você? Já parou para pensar em como tem sorte? Te convido a fazer um exercício, de escrever todas as coisas pelas quais você se considera uma pessoa de sorte. Se parecer difícil, te dou uma ajuda! Comece a lista com as seguintes frases:

  • Tenho um dispositivo eletrônico que me permite navegar pela internet
  • Sobrevivi a mais um dia difícil
  • Tenho o privilégio de ter sido afalbetizada/o
  • Tenho sorte porque estou buscando compreender o mundo através da leitura…

O resto da lista você pode completar com o que quiser. Já estou aqui fazendo a minha e posso afirmar: Temos muita, mas muita sorte mesmo.

Que possamos sempre nos lembrar disso quando a tentação de reclamar bater à nossa porta.


Imagem: Yan Ming via Unsplash

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