Pontos finais

As noites de domingo nunca mais serão iguais após o final da série Game of Thrones. Foram muitos anos acompanhando essa superprodução televisiva, com seus personagens tão fantásticos e, ao mesmo tempo, tão reais – é quase como se eu os conhecesse pessoalmente. Embora a série tenha apresentado sinais de declínio de uns tempos para cá, é inevitável admitir que Game of Thrones é uma das séries mais emblemáticas de todos os tempos, com sua belíssima fotografia e sua trilha sonora impecável, atores incríveis e locações dignas de serem imortalizadas em obras de arte.

Eu poderia passar horas aqui discutindo sobre tudo o que amo, bem como o que odeio em Game of Thrones, como a queda na qualidade do roteiro, visível e lastimável, nas últimas temporadas. Poderia também apontar as falhas de adaptação do livro para a série, entre diversos outros defeitos.

No entanto, hoje o foco é a beleza desta saga, que me propiciou entretenimento, que me fez companhia durante vários anos, que suscitou reflexões e despertou em mim um olhar diferente para questões sérias como guerra, poder, política, “bem versus mal”, dever, honra e ética. Com os livros de George R. R. Martin e a série da HBO, aprendi que tudo é muito mais complexo do que pensamos, e que nada é absoluto, fixo e imutável.

Após o desfecho da série – que ultrapassou os livros e ganhou um caminho próprio – muitos fãs, como eu, ficaram com um gostinho amargo na garganta. Não porque o final foi ruim ou porque não atendeu às expectativas que tínhamos para os personagens, mas porque muitas coisas não foram explicadas, muitas tramas não foram concluídas, muitos motivos seguem sendo um mistério.

“Todos os homens têm de morrer, Jon Snow. Mas, primeiro, vivemos.”

É claro que não é preciso esmiuçar os mínimos detalhes de uma história para que ela seja considerada boa ou marcante, e eu jamais esperei que uma série como essa tivesse um final clichê ou “felizes para sempre”. Tampouco julgava que fôssemos compreender todos os mistérios que envolvem o mundo criado por Martin. Acho que eu só esperava um final tão grandioso quanto tudo o que vimos ao longo dessas oito temporadas.

Mesmo com todos os pontos positivos que a série me proporcionou, o gosto amargo permanece, pungente, sobrepondo-se aos sabores que a vida oferece.

Em face da enorme frustração que senti ao assistir a esse último episódio, uma pergunta brotou em mim: por que precisamos de pontos finais?

Rebobinei a fita da minha própria história, tentando revisitar os momentos mais críticos, as surpresas, os plot twists, e me dei conta de que nem sempre temos conclusões ou desfechos na vida real. As “pontas soltas” são maioria nos enredos de nossa existência. Pessoas vão e vem, sem razão, sem nos explicar seus porquês. Alegrias se transformam em cinzas em nossas bocas (parafraseando Tyrion Lannister), o inverno chega e nem sempre traz o frio, a esperança da primavera é um sonho distante que insiste em não nos esperar. Somos mais imprevisíveis do que gostaríamos, temos áreas cinza, nosso mundo não tem muita lógica. Em diversas ocasiões, desejamos a magia, oramos para que algo sobrenatural nos salve de nossas batalhas – mas a verdade é que nada é tão simples assim.

“Os homens vivem suas vidas presos a um eterno presente, entre as brumas da memória e o mar de sombras que é tudo que sabemos dos dias vindouros.”

Fazendo uma comparação bem simplória, um final de uma grande história nada mais é que a última página de um álbum de fotografias – ou seja, não é realmente um ponto final, é mais como um marco no percurso. Acho que minha decepção com o final da série se resume ao fato de que crio elevadas expectativas para as histórias que me encantam, assim como para a minha própria vida.

Talvez seja por isso que, na ficção, eu goste de pontos finais coerentes e explicativos. De  ciclos que se encerram, de recompensas e consequências, de soluções que não são simples, mas necessárias e grandiosas. As coisas já são tão abstratas em nosso mundo real, por que não podemos ter uma visão mais completa dos fatos que acompanhamos nos filmes e livros?

“Eu prefiro minha história morta. A história dos mortos é escrita com tinta, a dos vivos com sangue.”

Talvez eu esteja apenas projetando em Game of Thrones os anseios que tenho para minha própria vida. Afinal, o que nos liga a uma boa história não são apenas as cenas de tirar o fôlego, os efeitos especiais ou as frases de efeito. Uma boa história permanece em nós como uma marca, nos ensina a ser mais humanos, nos conecta com partes da nossa alma as quais desconhecemos. Em última instância, nos ensina a lidar com a nossa própria história.

É por tudo isso que os pontos finais são importantes, tanto na vida quanto na ficção, para que possamos dar por concluída uma etapa, uma vivência, uma luta travada na escuridão, um parto entre sangue, sal e fumaça. De certa forma, acho que me incomodam as reticências, pois reforçam o caráter incerto da vida. É como observar a muralha de gelo desmoronar e sentir-se impotente por não conseguir conter a avalanche.

Os pontos finais nos ensinam a ser mais presentes, a aproveitar o agora, a vislumbrar a morada acolhedora que nos aguarda após a subida da montanha. Ainda que essa montanha não exista e que os caminhos sejam percorridos apenas em nossa imaginação.

Para que as jornadas e vivências façam sentido, a fantasia serve como um alento, um Norte, uma voz a nos guiar pelos silêncios de nossas almas. Buscamos encerramentos de jornadas, ritos de passagem, redenção; temos tão pouco disso em nossas rotinas, que nos resta apenas viver tais cenários através de pessoas inventadas. E elas acabam se tornando tão reais, que tudo o que desejamos para as personagens com as quais nos identificamos é o que também queremos para nossa vida: que elas possam alcançar seus objetivos e que cumpram seus propósitos, saindo vitoriosas em suas batalhas.

Quem sabe isso seja um presságio de nossos próprios pontos finais.

“Quando a neve cai e os ventos brancos sopram, o lobo solitário morre mas a matilha sobrevive”.

 


*Citações retiradas dos livos da saga “As Crônicas de Gelo e Fogo”, de George R. R. Martin.

* Imagem: Unsplash.

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