O quinto cavaleiro do apocalipse

Nas alturas do céu de algodão, uma trombeta soa e silencia todo o planeta, proferindo uma música sombria e desproporcional ao tamanho do instrumento. Quem a carrega é um anjo de cabelos negros, coberto por vestes de prata, cuja tarefa é anunciar a chegada do quinto cavaleiro do fim do mundo.

Ao contrário do que indicavam as profecias, o número correto de cavaleiros do apocalipse não era quatro, embora a Peste, a Guerra, a Fome e a Morte sejam as grandes emissárias da desolação. Elas já estão presentes, em larga escala, desde o início dos tempos – ou há tempo suficiente para não serem mais consideradas tão temíveis assim. Talvez, justamente por isso, Deus tenha guardado em segredo o pior de todos os seus servos e, no momento oportuno, tenha decidido enviá-lo à Terra como arauto do Armagedom.

Ainda era cedo na história da humanidade quando o primeiro selo se rompeu, e o mesmo anjo tocou a mesma nota lúgubre para despertar a atenção de toda a criação. No entanto, quase ninguém o escutou – e, se ouviu, não fez grande alarde. A Peste tornou-se conhecida de todos, amiga íntima das civilizações primordiais, devorando plantas, bichos, gente.

Quase concomitantemente, o segundo selo, trazendo consigo o Cavaleiro da Guerra, se abriu e revelou o lado vil do ser humano, um poder destruidor ainda maior que o da Peste, e que perdura sem sinal de esmorecimento. Assim como no caso do primeiro Cavaleiro, seu poder não foi suficiente para fazer a humanidade acordar para a iminência do fim.

E, assim, transcorreram os séculos e, um a um os outros dois Cavaleiros foram convocados a cumprir seu destino de levar ao mundo a mensagem do Apocalipse. Como seus companheiros, também não foram ouvidos. Talvez a Morte tenha sido a mais bem-sucedida, despertando desespero e levando todos e todas a buscarem derrotá-la.

Mas, voltemos ao quinto Cavaleiro. Ao escutar o toque da trombeta, ele começa a cavalgar, meio sem jeito, sem a imponência de seus iguais, sem trazer consigo grandes desgraças ou infortúnios. Seu manto cinza está gasto, surrado, e o faz parecer quase-cômico. Nas mãos, além da correia que utiliza para conduzir seu cavalo, carrega uma rédea simbólica com o poder de guiar os caminhos e futuros do universo. O animal sobre o qual está montado não demonstra sinais de pressa ou altivez, trotando, cabisbaixo, em direção ao planeta, pisoteando a atmosfera.

À medida que o anjo o avista, sente-se tomado por uma inominável aflição. O Quinto Cavaleiro, com esse andar trôpego, passou à frente do que deveria ser o primeiro de todos, a Peste, conforme ordenavam as profecias. O anjo tenta barrá-lo, mas sabe que é uma tarefa impossível – uma vez que um Cavaleiro é libertado, nada poderá fazê-lo retornar até que tudo esteja consumado. Ciente de que a Ira de Deus será sem precedentes, o anjo se retira da cena para fugir das consequências, mesmo sabendo que não é culpado por nada daquilo.

O Quinto Cavaleiro traz consigo o Espírito da Omissão, que mancha com apatia, afastamento, silêncio e desinteresse todo ser que cruza seu caminho. Graças a isso, a Peste, a Guerra, a Fome e a Morte não causaram tanto alarde quando foram trazidas pelos outros Quatro Cavaleiros.

Ainda desolado, o anjo desiste de se esconder e corre para ter com o Criador e questioná-lo por que sua onisciência não o alertara sobre a possibilidade da confusão que se apresentava. Por que Deus, em todo seu poder, permitiria um mal-entendido tão banal como aquele?

Sem saber muito bem o que responder, Deus conforta o anjo com um olhar amoroso, e este, então, compreende que provavelmente essa é uma obra bem pensada do Criador, que os Seus desígnios não são simplórios e que, em breve, Ele irá revelar a razão por trás de tudo. A palavra profética que afirma “os mornos serão vomitados” o consola, e ele parte para uma das moradas celestes, a fim de aguardar a convocação divina para o próximo serviço.

Deus, por sua vez, observa o cenário que se desenha, os futuros possíveis que se formam à sua frente, o passado, o presente, o depois e o tudo, confiante na ordem natural das coisas – afinal, elas sempre se encaixam, ainda que de uma forma horrenda.

Enquanto isso, ou antes, ou depois disso – o tempo é algo complexo para seres etéreos e imortais – o Quinto Cavaleiro continua seu passeio pela Terra, tingindo as almas das pessoas com a mais pura indiferença. Elas assistem passivas a tudo: fomes, malogros, misérias, injustiças. O caos ganha corpo e forma, talvez ele seja o sexto cavaleiro não-anunciado, o grande vilão que irá aniquilar o planeta e tudo o que nele há.

Deus, em sua existência atemporal, pensa, e sabe, que existe uma maneira de impedir o avanço da não-profetizada Omissão, pior das desgraças e, por conseguinte, o Caos com letra maiúscula, o nome do ponto final.

Em um dos futuros, ele vê essa solução se concretizar e sorri, confiante de que, em um dos muitos mundos possíveis, a humanidade tomará a atitude correta de olhar para os lados, repensar seu posicionamento isento e morno e viver distante das trevas.

Nos outros, no entanto, os Cinco Cavaleiros prosseguirão com sua peregrinação, sem nenhum impedimento, até que se cumpra o tempo certo do derradeiro fim.


Imagem: Clément M. via Unsplash

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