Sobre viver

O primeiro texto de 2019 será assim um tanto tresloucado, outro tanto descabido. Sem propósito, forma ou tema definido, como a própria vida, essa épica batalha, touceira de espinhos, porém deveras doce e dotada de aroma tão suave que faz valer a pena todos os cortes que ganhamos nas mãos ao tentar tocar seus ramos. A vida, que nos dá tanto, à qual devemos graças pelos presentes diários, ela que também nos cobra um alto preço por tudo quanto nos proporciona. Uma bela dança de toma lá, dá cá. Baile eterno de almas que não sabem dançar.

Será essa a beleza da vida, essa dualidade, esse compasso sem ritmo – será que isso é possível? Será a vida, ela própria, algo possível?

Viver é uma luta constante, é melhor que sonhar, é todas essas coisas que nos dizem os livros e discos, um pouco mais, um pouco menos, talvez. Pode ser que não seja nada disso, também, e que essa busca por definições e certezas seja uma grande perda de tempo. Portanto, viver é uma gigantesca incógnita, uma equação desigual, cálculo sem resultado.

Diante de tantas interrogações, viver é verbo exageradamente intenso e transitivo. Ou transitório.

Vez ou outra, pensando na vida, questiono-me a respeito de como tenho passado os dias, e me recordo daquela frase clichê: “Será que estou vivendo de verdade, ou apenas existindo?”. Não sei a autoria desse aforismo, sei que hoje, em especial, tornei a refletir sobre ele, talvez por estar cansada de buscar consolo em utopias que jamais se realizarão, ou então por acreditar que existir é algo que, por si só, já vale a pena.

Existir. Parece tão simples, né? Fácil como sentar aqui em frente ao computador em uma noite chuvosa de sexta-feira e descarregar palavras em fluxo contínuo. Descomplicado como uma respiração atrás da outra, ato involuntário que passa despercebido em meio às urgências da rotina. Singelo, tal qual um tecido branco sem estampas ou manchas estendido sobre a grama.

Penso na frase clichê mencionada anteriormente como um estopim filosófico para algo que vai além da mera reflexão sobre aproveitar o tempo ou gozar do máximo que a vida nos proporciona. É preciso entender o que significa existir, para começo de conversa.

Descartes dizia que existir é pensar, isto é, existimos a partir da consciência, do pensamento que sabe que existe, que sabe que está aqui. Sem pensamento, não somos nada. Nesse sentido, acredito que existir é coisa preciosa como o pensar, é criar mundos, mover montanhas, é saber de segredos ocultos até para a mais poderosa das divindades.

Existir deveria ser suficiente. Como as plantas, flores, árvores que fincam suas raízes e erguem braços, verdes, cores na direção do céu, como peixes que passeiam nas correntes subaquáticas, como nuvens que desaguam no asfalto e retornam ao céu e descem dias depois na grama da floresta a milhares de quilômetros de distância daquele primeiríssimo asfalto.

Existir deveria ser mais que suficiente, cada ser cumprindo seu destino, seu papel, sua função no universo, essa sinfonia perfeita.

Mas, vamos lá, pensemos no que significa esse viver que tanto almejamos, que tanto nos atormenta quando o sentimos distante. Tenho para mim que essa ideia de “viver” que interpretamos a partir da tal frase clichê mencionada um pouco antes é nada mais que uma ilusão à qual jamais teremos acesso. O “viver” sempre implicará coisas que não fazemos, por falta de tempo ou dinheiro ou vontade ou privilégios ou mesmo de interesse – por exemplo, viajar, fazer cursos, sorrir o tempo todo, estar sempre disposta a tudo, ser dessas pessoas sorridentes que vivem em um mundo onde o tempo não atua. “Viver”, na frase clichê, é esse conceito idealizado inventado sabe-se lá por quem para nos fazer sentir inadequados, improdutivos, inaptos e incapazes de alcançar o pleno sucesso, a plena realização.

“– Mas, oh, cara escritora, não percebes que esse aforismo é um incentivo, um quote motivacional, um empurrãozinho para que os pobres mortais saiam da inércia e da mesmice e aproveitem um pouco mais a breve existência?”

Bem, admito que é uma motivação, sim, porém de que adianta motivar-se a uma busca eterna que talvez nunca atinja os resultados esperados?

Além do mais, há por aí, em demasia, pessoas que vivem sem existir – no sentido de que não refletem, não ponderam sobre a vida tal qual nosso amigo Descartes nos ensinou ser requisito para a existência, séculos atrás. Há quem persiga tanto os ideais de vida estabelecidos por outrem que nunca irá se conhecer. Isso é viver?

Cabe também mencionar que muitos olham torto para a palavra “sobrevivência”, sobretudo graças a uma frase, também clichê, que pergunta: “Você está vivendo ou apenas sobrevivendo?”.

Ora, é certo que se você está lendo essas palavras você é um sobrevivente – sobreviveu à chance de morrer no nascimento, ou de não chegar ao fim da formação dentro do útero, ou mesmo à chance de não vir a ser um feto. Sobreviveu a muitos quase-acidentes, a guerras, enchentes, dilúvios, tsunamis, epidemias, crises de pânico, de abastecimento, de projetos econômicos e políticos. Sobreviveu à evolução, à tecnologia, ao desespero dos dias. Todos nós, humanos pós-modernos, estamos sobrevivendo ao envenenamento em massa, à poluição, aos metais pesados, ao lixo que invade os oceanos, à probabilidade de morrer a qualquer momento em uma guerra nuclear.

Veja que privilégio é ser um sobrevivente! Veja como é uma sorte incrível estar aqui nesse exato instante!

Portanto, quando alguém diminui o “existir” ou o “sobreviver”, colocando como meta apenas um “viver” idealizado, acredito que seja por não ter a real dimensão de quão difícil e complexo e absurdo é poder dizer: “Eu existo” ou “Eu sobrevivi”.

Hoje, quase três meses após o início do novo ano, talvez eu finalmente tenha alcançado o entendimento que mais precisava ter a respeito da vida. Existir é o suficiente – se existo, estou cumprindo o meu destino. Sobreviver é uma meta digna e válida – e se estou viva, se existo e sobrevivo, isso já me torna privilegiada.

Não se trata de buscar algo que pode nunca vir a ser ou acontecer, e sim abraçar o aqui, o agora, o “eu existo” que pronuncio a cada nova alvorada.


Imagem: Unsplash

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