Estagnados

 

Não somos quem gostaríamos de ser, somos folha que o rio carrega: levados pela correnteza dos acontecimentos, da margem pacata até as pedras maciças das cachoeiras. Chegamos ao nosso destino, nosso mar, não por vontade própria, mas por mãos invisíveis que nos conduzem através dos dias, meses, anos.

Me pergunto o que aconteceria se saltássemos desse leito fluvial dos acasos e tomássemos as rédeas de nossos caminhos. Será que poderíamos ser tudo aquilo o que desejamos, almejamos, idealizamos?

Nesse imenso e profundo oceano da existência, somos iludidos por pensar que decidimos alguma coisa. Somos tão frágeis, tão ínfimos, impulsionados de um lado para o outro por ventos revoltos – que, vez ou outra, são capazes de nos arrancar as raízes.

Para onde iremos, com pés assim tão descalços?

Não somos livres como gostaríamos de ser, somos escravos de mestres desconhecidos, mas os olhos no umbigo nos impedem de enxergar as prisões que nos limitam. À beira das estradas mais convidativas, fincamos estacas no solo profundo, desejamos enterrar de volta a raiz que o vento nos ajudou a libertar.

Penso que jamais chegaremos aonde desejamos, pois temos medo de sair do lugar, medo de perder o controle que nunca tivemos sobre a vida que levamos. Receamos a correnteza, as ondas, o movimento que transmuta ódio em amor. Tememos o que está por vir e, assim, fechamos as portas para o que está reservado para nós – a recompensa definitiva.

Para onde iremos, com águas assim tão estanques?

Somos tudo o que mais temíamos – casulo selado para sempre, viga fincada na terra a fundo, poça parada, vento recolhido. Somos o avesso do caminhar.


Imagem: Sven Scheuermeier – Unsplash

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