A difícil arte de não emitir opinião o tempo todo

Que irônico: emitir uma opinião sobre não opinar!

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Ser escritora é uma missão cansativa.

Nós costumamos pensar, e muito, o tempo todo, na verdade. Sobretudo nos assuntos que nos desagradam ou causam estranhamento: dores, loucuras, comportamentos, relacionamentos, despedidas, tristezas, mudanças, esperanças, sociedade…

Passamos tempo demais ruminando sobre a vida em geral, ou analisando situações banais e dando a elas proporções épicas. Sentar para escrever um texto, qualquer que seja, requer muito esforço, tanto mental quanto emocional. E, em alguns casos, é preciso entrar em contato com aspectos sombrios da nossa alma, cuja existência gostaríamos de ignorar.

Às vezes, bem raramente, escrever é puro deleite. É colocar no papel tudo o que temos de alegre, puro e suave, é transcrever sorrisos, amores, afetos. Ainda assim, é uma tarefa árdua, pois nos deixa à mercê do outro, sempre vulneráveis ao olhar de quem está do lado de fora. Costumo pensar que escrever é um ato de coragem e de amor, uma semeadura sem nenhuma garantia de colheita no futuro. Apesar de tudo isso, não há como fugir dessa missão, marcada profundamente no âmago de quem a abraça.

Mas esse texto não é sobre a escrita, e sim sobre as expectativas que projetam sobre nós, reles mortais artífices da palavra, principalmente no que diz respeito a opiniões.

É comum me perguntarem o que penso de determinado assunto, ou me questionarem por meu silêncio sobre este ou aquele tópico que está em alta no momento — os tais trending topics.

“Você escreve em tantos lugares, e não está falando justamente sobre isso?”. Pois bem, não estou falando sobre isso, e só vou falar sobre um isso, seja lá o que isso for, quando sentir que tenho uma importante contribuição a fazer. Quando julgar que preciso fazer parte do debate. Caso contrário, o silêncio continuará sendo minha resposta.

Sei que é importante se posicionar, e, acreditem, eu me posiciono diariamente: com minhas ações, nos projetos com os quais contribuo, incluindo elementos importantes em minhas histórias, suscitando reflexões nos meus zines. Todos os dias, escrevo frases ou aforismos para tentar conduzir meus leitores e seguidores a repensarem conceitos.

Talvez esse trabalho seja muito mais eficaz ou importante do que dizer o que eu penso sobre algo. Eu nem sou tão relevante assim — as reflexões e mudanças que elas despertam nos leitores são muito mais. E isso pode acontecer sem que eu precise emitir meu parecer sobre o mundo.

Obviamente, já caí na besteira de acreditar que, como digo por aí que sou escritora (e, de fato, exerço esse ofício), eu preciso, devo, sou obrigada a ter uma opinião. Sobre qualquer coisa, inclusive sobre as coisas que mal conheço.

E é aí que escrever se torna um conflito eterno. Existe um abismo gigante entre pensar, refletir e ponderar e emitir uma opinião concreta sobre algo, e nesse ínterim, pode ser que eu mude de ideia. Então, para não correr o risco de me precipitar, prefiro não dizer nada. Nas palavras de Clarice Lispector, “O que eu não sei dizer é mais importante do que o que eu digo”.

No momento, minha escolha é (quase) sempre seguir calada e me permitir muito mais a reflexão do que o julgamento ou a emissão de um veredito final sobre algo.

Primeiro, porque não, não sou obrigada a ter uma opinião acerca de todos os assuntos que estão em alta– até porque existe vida fora das bolhas das polêmicas da internet, e nem sempre consigo estar por dentro de tudo. Gosto da vida real, concreta, cara a cara, onde nos resta pouco tempo para elaborar respostas e argumentos lacradores. Existe uma realidade dura e urgente fora das telas do computador, longe de notícias, no meio da rua, nas comunidades, nos projetos que transformam vidas, na “mão na massa” que passa longe de qualquer textão.

Segundo, porque a obrigação de ter uma opinião está nos transformando em pessoas extremamente arrogantes — escritores ou não. Nos tornamos detentores da verdade e do saber, formadores de opinião (olha o perigo!), influenciadores de mentes e comportamentos. Disparamos palavras mortais através do teclado do celular ou do computador, despejamos verbetes belos e atrozes e exigimos que o mundo os acolha com carinho; afinal, é nossa opinião, o que temos de mais precioso, o que nos define e nos posiciona no mundo. Ainda que sejamos totalmente leigos, temos que emitir nosso pensamento, temos que opinar — caso contrário, é bem provável que nos considerem como seres não-pensantes ou alienados.

Eu sei, é irônico escrever um texto que claramente está impregnado de opiniões, falando a respeito da possibilidade de viver sem emitir meu ponto de vista o tempo todo. Talvez seja essa a beleza de não precisar opinar sobre tudo: ter liberdade para ser uma metamorfose ambulante (como diria Raul Seixas) e repensar meus próprios conceitos e juízos.

E, no fim das contas, deixar de emitir uma opinião não significa parar de escrever. A ficção é uma forma excelente de mostrar aos leitores minha visão de mundo, criando laços, promovendo transformações e reflexões muito mais profundas, sem julgamentos. Hoje, me concentro em aprender novas técnicas, em refinar meu modo de contar histórias, para aprofundar essa conexão com quem está lendo e, quem sabe, conseguir escrever um livro coerente e sensível, capaz de tocar muitos corações.

Este é o grande sonho dessa escritora cansada. Um sonho que passa longe de ter um post viralizado, por exemplo, ou de tentar convencer alguém de que o que falo é a verdade absoluta. Minha função como escritora é outra.

Talvez, no silêncio das entrelinhas, na sinfonia das metáforas e alegorias, eu consiga dizer muito mais do que em qualquer artigo bem elaborado. Talvez os personagens sejam mais convincentes do que eu, usando palavras mais claras, argumentos mais fortes. 

Enquanto não descubro o que penso sobre aquilo que ainda nem sei, sigo inventando novos mundos, desdobrando emoções e experiências em letras meio tortas. Sigo na cansativa missão de escrever, mas não sobre mim ou sobre o que penso. As histórias são mais importantes do que a minha opinião.

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2 comentários

  1. ❤ Muito bom!
    Esta coisa da escrita vem-se-nos entranhada na Alma e não dá mesmo para fugir.
    Já tudo o resto aqui descrito, requer mesmo muita capacidade para se estar conectado com o que realmente importa para o Ser que é quem escreve. Que essa jornada de descoberta continue e que continue interessante! ^_^

    Curtido por 1 pessoa

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