UTI

A alma do mundo está doente.

Sinto pela respiração fraca, ofegante e forçada da Terra, pelos gritos de desespero que ecoam pelos bairros de classe média (abafados por travesseiros, calmantes, antidepressivos), pelo sangue que tinge as águas dos rios e oceanos. O planeta chora, assim como cada um de nós.

A grande rocha azul que nos abriga derrama lágrimas silenciosas pelos crimes cometidos contra ela, contra nós mesmos e contra o futuro. Estamos cegos e surdos, o coração inflamado de sentimentos contrários à nossa natureza. O coletivo caminha de mãos dadas rumo a um poço profundo, do qual parece ser impossível sair.

Você também sente isso?

Não é que esse seja um evento cósmico, sobrenatural – embora eu acredite que sim, é esse o caso. Por mais que esse cenário resulte de atitudes e motivos concretos e racionais, há um fator invisível que atua na psique do nosso planeta, nos levando, todos, a uma espécie de torpor, de perda total de algumas de nossas mais importantes habilidades: pensar com clareza. Porque ninguém em sã consciência permitiria a prática de atrocidades como a poluição por plástico, a matança de pessoas e animais inocentes, as guerras, desigualdades, a fome e a má distribuição de renda.

Os sonhos de outrora se distanciam no horizonte, embaçados pela desesperança.

Em meio ao horror, o mundo chora e grita. E nós fechamos os ouvidos, com medo de perder a cabeça. Espantamos o pavor que nos acompanha dia a dia, esse espírito zombeteiro cochichando “não preste atenção aos detalhes, siga em frente, seja feliz, você não tem nada com isso”.

A loucura nos espreita, junto com a fome, o ódio, a amargura. Ela gargalha atrás de postes, muros, paredes, nos faz cavar buracos, construir fortalezas e barricadas para impedir que ela se aproxime ainda mais.

Me pergunto: por que fugimos do desequilíbrio, se o mundo, como o conhecemos, já é desequilibrado? Talvez nos queiram inertes, sem empatia pelo sofrimento do planeta.

Já somos ou estamos todos loucos – nós, que passamos a noite em claro buscando soluções. A sanidade talvez seja conformar-se ou engolir mentiras, um processo de “purificação” nos moldes descritos por George Orwell em seu livro 1984. Ao fim de tudo, estaremos apaixonados pelo que nos destrói.

A “sanidade” às vezes me assusta. É uma máscara de aceitação, sorrisos e conformismos que nos amordaça em troca de pertencimento. Se for assim, sou totalmente insana, pois não consigo me calar quando me aconselham a fazê-lo, “pelo bem da sanidade mental”. Como posso ter saúde mental nessa imensa UTI que chamamos de mundo?

Pois é exatamente isso que sinto. Que estamos presos em quartos de um hospital – psiquiátrico ou para o corpo – e que nosso tempo de recuperação está chegando ao fim. Precisamos nos esforçar para sair desse estado de anestesia, respirar sem a ajuda dos aparelhos, andar com as próprias pernas. Precisamos nos recuperar da normalidade, que só promove a indiferença, o isolamento, o desafeto.

A alma do mundo está doente, e a cura para isso é o amor. 


Imagem: Unsplash

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2 comentários

  1. Sim, precisamos andar com nossas próprias pernas! Concordo! Mas temos tanto medo do medo do medo… e uma dificuldade tão grande de lidar com a dor, a angústia, nossos gritos e tudo aquilo que abafamos, como você disse, com travesseiros, calmantes e antidepressivos… É preciso voltar a sentir – não apenas a dor que aflige, mas a dor que nos permite ter empatia e compaixão

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