Coisas para se fazer enquanto o emprego não vem

Trabalhar é uma delas, é claro!

Há quase um ano, fui demitida de um emprego que me propiciou uma situação financeira estável por cinco anos. O salário era razoável, no sentido pejorativo da palavra. Ainda assim, era certo que ao fim de todos os meses ele estaria lá, transformando em azul o saldo negativo da minha conta. A carteira assinada trazia consigo benefícios como vale-alimentação, plano de saúde, férias e décimo-terceiro. E tudo isso no regime de home officeEra bom, e eu sabia.

Foi um choque ficar sem a renda e o respaldo de um emprego formal, tendo em vista a péssima situação econômica em que nosso país se encontra. Está difícil se recolocar no mercado de trabalho. Aliás, justamente por causa dessa força invisível chamada “mercado” que meu emprego foi pro espaço – ao que tudo indica, tradutores não merecem estabilidade.

Mas, graças ao universo, sempre tão generoso comigo,  consigo pagar as contas com os freelas que faço. Como tudo na vida, ser autônoma tem prós e contras. Se, por um lado, tenho uma renda instável, por outro tenho mais tempo para escrever e elaborar meus projetos.

É aquela história: tá ruim, mas tá bom.

A grande questão é que, por mais que eu esteja trabalhando, que a escrita esteja se tornando uma opção de carreira (até mesmo remunerada), ainda sinto a necessidade de voltar a ter uma renda constante. Além do motivo óbvio da segurança financeira, gostaria de poder desfrutar de férias e feriados. (E faço uma pausa aqui para gargalhar e dar muitos risos histéricos, pois nem me lembro da última vez em que tive férias de verdade. Acho que foi em 2013, na minha lua de mel).

Claro, esses são meros desejos de uma trabalhadora cansada. E ainda posso sonhar com dias menos insanos e angustiantes.

Posso, também, passar um dia inteiro assistindo aos filmes novos da Netflix. Posso brincar com meus gatos por horas. Posso passar uma tarde inteira em um parque ou em uma praça, observando o movimento das pessoas, absorvendo toda a energia criativa que a cidade tem a me oferecer (e, de quebra, um pouco de vitamina D). Posso ler todos os livros da minha estante. Posso me refugiar em um café e tirar proveito da atmosfera propícia para a criação de poesias e crônicas. Posso me permitir momentos de puro ócio – ainda que acompanhados de culpa. Posso criar novos formatos de zines, escrever contos inteiros em um único dia, jogar palavras fora, como estou fazendo aqui nesse texto.

As possibilidades parecem infinitas.

Sempre que o dia seguinte é uma página realmente em branco, sem planos ou prazos, as oportunidades de fazer algo novo parecem se multiplicar. Posso, sim, fazer o que eu bem entender. E essa liberdade, embora seja uma maravilha , também me assusta.

A única coisa que não posso fazer é esperar um emprego cair do céu, com os braços cruzados. Porque dinheiro sempre vem, mas jamais recuperamos o tempo perdido esperando algo que talvez nunca chegue.


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