Sobrevivendo à ansiedade

* Esse é um post puramente confessional. Se você está sentindo que precisa de ajuda, procure sempre se consultar com um psicólogo ou psiquiatra. Cuide-se!

Eu sempre me considerei uma pessoa calma. Quer dizer, tenho plena consciência de que sou explosiva, que posso defender meus argumentos de forma bastante enfática, dizer coisas sem pensar e, apesar de lutar contra essa natureza, ela ainda se apresenta com mais frequência do que eu gostaria. Natureza não se aniquila, apenas se aprende a controlar.

Mesmo sabendo de tudo isso, eu achava que a tranquilidade e a racionalidade eram as balizas das minhas escolhas, das minhas atitudes e da forma como eu encaro o mundo. algo do tipo: “eu só explodo quando é absolutamente necessário”. Até pouco tempo atrás, eu acreditava fortemente que tudo o que fazia era bem pensado e bem ponderado – eu, a epítome da balança de Libra, a personificação do símbolo da justiça. A nobreza, a moral em pessoa. 

Claro que, com a idade, e com o autoconhecimento, todos esses julgamentos acerca de mim mesma se mostraram um tanto infundados.

Descobri que, na verdade, sou (e estou lutando para não ser) uma pessoa que toma muitas atitudes sem pensar muito bem, sou agitada, insone, nervosa, penso demais e fico estagnada. Invento desculpas para mim mesma, tenho medo de tomar decisões importantes, tenho medo, pânico, pavor de tantas coisas que mal consigo começar a enumerá-las – na verdade, nem sei se quero. É melhor esquecer certos medos. (Vamos guardar isso para um texto futuro).

Autodepreciações à parte, o longo processo de análise e mudança pelo qual tenho passado nos últimos anos me ajudou a perceber esses traços, ou vícios, de personalidade. E, quando no final de 2016 fui diagnosticada com Transtorno de Ansiedade Generalizada, ou TAG, para os íntimos, muitas coisas começaram a fazer ainda mais sentido. Como, por exemplo, as oscilações de humor, as incertezas, o pânico e os pensamentos repetitivos.

Foi engraçado receber esse diagnóstico, como se finalmente alguém conseguisse me explicar a origem do universo, de forma simplificada. Ao mesmo tempo em que pude tratar os meus problemas com mais facilidade, também comecei a usar a ansiedade como muleta pra muitas coisas, ou como uma carta na manga para me auto-justificar em casos diversos, como se minhas atitudes pudessem ser validadas ou minimizadas pelo meu transtorno. Não me orgulho disso, mas é um fato.

Claro que, ao reconhecer essa vergonhosa atitude, tive que caminhar na direção da mudança. Hoje sou capaz de ponderar melhor antes de me apoiar na desculpa da ansiedade ou me entregar a ela, de fato (embora ainda haja um longo caminho pela frente).

A questão principal de todo esse processo é que percebi, enfim, que a ansiedade não tem cura. Eu poderia mergulhar nos remédios, abraçá-los como se fossem âncoras de salvação, na certeza de que, um dia, eles me livrariam dessa “doença”. Mas o psiquiatra não me deu essa alternativa, e me encaminhou para terapia, e eu o agradeço por isso.

Queria os remédios, apesar de sentir um pouco de medo de ter à minha disposição substâncias tão fortes. Eu os desejava, não só pela sensação de alívio que eles devem proporcionar, mas porque me acostumei às muletas e a não desenterrar fantasmas que precisavam ser exumados e exorcizados.

É interessante notar que muita coisa apodrece dentro de nós. Achamos que, ao colocar uma pedra em cima, os defuntos ficarão enterrados para sempre, sem voltar para nos incomodar. Mas, uma coisa é certa: tudo o que fica podre começa a feder. E, meus amigos, quando o fedor começa a subir, não há quem o impeça de contaminar todo o resto.

Mas, voltando à ansiedade: sem abandonar as muletas, fica difícil eliminar o mal pela raiz. Minha intenção não é, de forma alguma, menosprezar o valor dos remédios, pois muitas vezes eles são imprescindíveis, e não apenas muletas. E, se você precisa de medicamentos, tome-os direitinho, não negligencie o tratamento que seu médico prescreveu – cada caso é único. Como disse antes, eu até gostaria de tomar algo que me permitisse chegar ao final do caminho da evolução um pouco mais depressa (e acho que isso também é um sintoma da ansiedade, que quer tudo para ontem).

No entanto, o universo me olhou e disse: chega de muletas, é hora de aprender a caminhar sozinha, com suas próprias pernas, mesmo que capengando.

E eis que sigo mancando, às vezes tropeçando, às vezes ainda sem equilíbrio, como uma criança que ainda não sabe que não precisa mais das rodinhas quando está aprendendo a andar de bicicleta.

Nos últimos meses, com a crise financeira que tem atingido tantas famílias (incluindo a minha), o desemprego real oficial ® há quase um ano, a falta de perspectivas sócio-políticas em nosso país (e, por que não? no mundo), todo esse cenário tem contribuído muito para fortalecer esse monstrinho do TAG que vive em mim.

Eu poderia mentir, dizer que estou cem por cento bem, que, como não tive mais crises de pânico, estou curada. Ou então, que a ansiedade que me acomete agora é normal, faz parte da vida, é como com todas as outras pessoas. 

Poderia, também, jogar a toalha, voltar no médico e implorar pelas pílulas salvadoras, que ajudam tantas pessoas que conheço e que sofrem do mesmo transtorno. Poderia ignorar todo o meu progresso e retroceder no amadurecimento, voltando a usar os subterfúgios do passado para me sentir mais à vontade.

Poderia, mas não quero.

Conviver com a ansiedade é algo que tem me transformado, e posso afirmar que me tornei muto mais consciente de mim mesma e da vida por causa disso. É horrível, dá vontade de desistir, é debilitante em várias situações, porém, não fosse por esse diagnóstico feito pelo psiquiatra há quase dois anos, eu ainda estaria estagnada, e provavelmente me sentiria incapaz de sobreviver a tudo o que tenho passado nos últimos tempos.

Porque, na verdade, é isso o que tenho feito: sobreviver. E sou muito grata por isso. Cada dia que encerro com vida é como uma maratona completada – e não importa a minha colocação, só me importa cruzar a linha de chegada.

** Se você também sofre de transtornos e distúrbios mentais e emocionais, saiba: você não está sozinha/o. Você é uma pessoa forte, válida, corajosa, e tudo bem sentir as coisas que sente. Procure ajuda, busque o apoio de quem está ao seu lado e se abra. Tome seus remédios, alimente-se bem, descanse, cuide do seu corpo e da sua mente. Tudo vai passar, vai melhorar, é só ter um pouco de paciência e resistir. Sobreviver. Estamos juntos! **


Imagem: averie woodard via Unsplash

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6 comentários

  1. Menina, chorei lendo. Sei como é, e lidar com tudo isso tem dias que é enlouquecedor. Mas, ao contrário do que a gente deseja, uma passo de cada vez, né? E muita paciência com o nosso ‘eu’ que quer atropelar processos, correr para o fim, sem curtir e viver o meio.
    Bju e tamo junto.

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  2. Sim….vc está certinha em tudo!! Você descreve o TAG tal como ele é. Tal qual também me atinge. Mas talvez ele se diferencie na intensidade, na duração das crises, na origem, na idade e talvez no quanto atinge a qualidade de vida da pessoa acometida. Assim como vc, também gostaria de nunca ter ” intoxicado” meu organismo com drogas. Realmente são umas drogas…. Mas são drogas que me emprestaram hormônios que meu cérebro não estava mais dando conta de produzir sozinho. E por outro lado, produzindo adrenalina em excesso. Causando uma enorme disfunção nos outros órgãos. É um círculo vicioso. Do tipo: “Se correr, o bicho pega. Se ficar o bicho (literalmente) come”. Difícil. Mas você tem razão. Agora eu preciso buscar outras alternativas para o “bicho” não me comer outra vez….

    Curtido por 1 pessoa

    1. Sim, tia, é sempre importante buscar ajuda e apoio profissional. Os remédios são importantes, mas a nossa compreensão sobre o transtorno, os gatilhos e tudo o mais também é fundamental para podermos seguir a vida. Eu ainda não estou “livre” de ter que tomar remédios. Por enquanto, estou me virando. Mas…. nunca se sabe.
      Que a gente consiga superar tudo isso. Um beijo com muitas saudades! ❤

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