Irish soul

“Minha alma é irlandesa”.

Eu não sei dizer de onde vem essa minha paixão pela Irlanda e pela estética/cultura céltica. Acho que foi quando li As Brumas de Avalon pela primeira vez, ou quando comecei a assistir a filmes de época, na adolescência, e descobri as belezas da Emerald Isle.

Pensando bem, quando era ainda uma criança pequena, no sítio do meu avô, imersa no ambiente natural, eu me perdia em lembranças que não pareciam minhas, sobre montanhas, castelos, praias rochosas. Sonhava com guirlandas, com círculos de pedra, com o Natal na neve, com um idioma que não conhecia, sentindo saudades de algo que nunca experimentei.

Um espírita poderia argumentar que são recordações de vidas passadas – mas, como eu não acredito em reencarnação, essa resposta não me satisfaz. Talvez seja influência do inconsciente coletivo, que entende por “fantasia” as imagens de mundos como a Terra Média, de Tolkien, ou paisagens como as do jogo de vídeo-game Skyrim. Ou então pode ser o desejo de que as coisas sejam imbuídas de magia, de que existam fadas e seres encantados vivendo em nosso meio. E eu sempre fui fascinada pela magia. 

Confesso que sou adepta dessa fuga mental, desse hábito de sonhar com mundos que não existem, com florestas cobertas de musgo, o mar batendo com ondas espumantes em encostas de pedras escuras, o vento sempre fresco. Neve. Uma toca de Hobbit com aroma de madeira, de bolos e tortas assando no forno à lenha, um cachimbo, uma lareira para aquecer as madrugadas, cervejas escuras e fortes.

Em meus devaneios, há uma constante melodia de violinos e flautas, harpas, vozes de fadas, há a meia-luz das lanternas que iluminam o verde-escuro das árvores.

Sempre que a tristeza me invade, ou quando estou nervosa, respiro fundo e visualizo essa terra que eu criei, e me transporto para lá. Consigo sentir até o perfume das folhas úmidas e das frutas silvestres, o canto dos pássaros, as borboletas tocando minhas mãos.

É só então que percebo: essa terra dos meus sonhos não existe.

Ainda assim, a paixão pela Irlanda permanece.

Quando comecei a me interessar de verdade por esse país, ao final da adolescência, descobri a cantora canadense de ascendência irlandesa e escocesa, Loreena McKennitt. Eu a conheci através do meu pai, que é apaixonado por música clássica e também por paisagens, castelos, belezas perdidas e melodias que tocam a alma (talvez esses sejam gostos herdados, ou uma predileção hereditária). Desde então, ela é a cantora que mais ouço no dia a dia, pois as letras e os acordes de suas canções me fazem viajar até os lugares favoritos que só meu espírito conhece.

Com ela, descobri também outras bandas, como U2 (que eu já conhecia, mas não sabia que era de lá), The Corrs, The Cranberries, Chieftains, Clannad, Enya, e o maravilhoso espetáculo de sapateado irlandês Riverdance. E não podemos nos esquecer de escritores como James Joyce e C.S. Lewis, Yeats, Oscar Wilde e Iris Murdoch. Já mencionei a cerveja Guinness (ou o “paraíso em um copo”)? E a sonoridade do idioma irlandês? E seus castelos e praias? Esses já seriam motivos mais que suficientes para amar a Irlanda.

Embora eu ainda não tenha viajado para a Irlanda, e conheça apenas o que a internet, os livros e os filmes me permitem, sinto que algo em mim pulsa e vibra por aquela terra. Sinto um desejo imenso de correr por colinas tingidas de verde, subir nas torres dos castelos ancestrais, entrar em um pub que no passado era frequentado pelos grandes escritores e me embriagar de cerveja escura e poesia, cantar as músicas que ecoam em meu peito quando sonho, choro de saudades e tenho medo do futuro.  Sinto vontade de contemplar um por do sol em Carrickfergus e cantar essa canção homônima. 

O que me acomete não é um saudosismo de uma época passada, como se eu quisesse retornar a um dos períodos mais insalubres e trevosos da história da humanidade, ou ao tempo onde a guerra era o estado normal dos povos. Devia ser horrível viver sem tecnologia, sem saneamento, sem acesso ao conhecimento, e se você não nascesse em meio à nobreza ou como filho/filha/familiar de um senhor feudal ou chefe de um clã a sua vida se resumiria a servir aos outros noite e dia. E, mesmo nascendo em meio à “elite” da época, se você fosse mulher, o seu destino não seria realmente seu. Isso sem contar que qualquer diferença ideológica significava uma sentença de morte.

Ou seja: não consigo compreender por que idealizam ou romantizam tanto esse período medieval.

Seria mais ou menos como viver em um episódio de Game of Thrones, só que sem dragões, sem magia, sem o glamour da vida dos castelos, só o horror do incesto, das tramas abomináveis, das violências, da fome, da peste, das guerras.  Para isso, nem é preciso sonhar ou desejar viver no passado – todas essas atrocidades ainda existem em nosso mundo.

O que sinto em relação à Irlanda transcende uma época. É como se uma atmosfera de magia envolvesse aquela região, como se meu coração estivesse sintonizado com suas cantigas tradicionais, ou com o ritmo do sapateado, com o cinza de suas pedras, das nuvens que enfeitam o litoral. Como se o verde dos meus olhos refletisse a cor dos trevos que simbolizam St. Patrick. Como se os montes onde nascem as flores do campo fossem meus Anam Cara (amigos da alma).

Às vezes me pergunto se tenho ancestrais irlandeses, se essa chama que me ilumina é algo que corre em meu sangue.

Não tenho certeza. E me assusto com esse magnetismo desconhecido, essa sensação de que não pertenço ao Brasil – se bem que o nome do nosso país, “Brasil”, também remete a uma lenda irlandesa, da ilha de Hy-Brasil, que seria uma espécie de Atlântida muito procurada durante a época das grandes navegações. E, provavelmente, é daí que vem o nome do nosso país – e acho que prefiro ficar com essa versão do que com a do pau-brasil. Seria muito mais místico para mim.

Talvez essa atmosfera de magia que tanto almejo, essa terra verde com a qual sonho, seja apenas um estado de espírito, um “Hy-Brasil” que não existe, um misto entre a Irlanda que idealizei e o país abençoado onde gostaria de morar (ou o nosso Brasil idealizado, que também não existe).

Enquanto não encontro respostas definitivas, sigo respirando esse aroma verde, essa vontade de me conectar com alguma ancestralidade perdida. Me alimento das músicas e da esperança de um dia realizar o sonho de conhecer essa terra que tanto me fascina.    


Imagem: Castelo Rock Of Cashel (Irlanda), por Patrick Swan/Getty Images

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4 comentários

  1. Seria esse desejo pela magia uma forma de sobreviver neste mundo? Algum tipo de mecanismo mental sofisticado que nos transporta para um lugar de fantasia, e nos dá um alento mágico para continuar lutando diante da realidade?

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