Ler mulheres negras para entender (e combater) melhor o racismo

Desde que comecei a mediar o clube do Leia Mulheres aqui em São José dos Campos, tenho lido livros que talvez não escolhesse por conta própria, por não saber deles ou por não conhecer as autoras.

Pensando bem, foi graças ao Leia Mulheres que passei a comprar e escolher mais livros escritos por mulheres, de modo geral.

Após conhecer esse maravilhoso projeto (do qual sou suspeita para falar, pois amo e percebo sua importância a cada novo encontro), notei que, mesmo sendo feminista, na minha estante havia muito mais livros escritos por homens do que por mulheres – mesmo que isso seja uma grande ironia, afinal sou escritora e mulher.

Falando sobre mulheres negras, as únicas escritoras que eu conhecia além da Chimamanda Ngozi Adichie eram a Maya Angelou, a Angela Davies e a Alice Walker, esta última graças ao filme baseado em seu livro, A Cor Púrpura. É triste pensar que ao longo de 35 anos, eu só havia lido dois ou três livros escritos por pessoas negras, e dentre eles apenas dois escritos por mulheres negras.

Essa hegemonia branca – principalmente no meio acadêmico e intelectual – está tão enraizada em nós, torna-se tão natural e normalizada, que não percebemos a ausência de diversidade na literatura, a não ser que haja um questionamento, partindo de nós mesmos ou instigado por algum fator externo. No meu caso, graças ao envolvimento com o feminismo e com o Leia Mulheres.

Foi só quando passei a ler livros escritos por mulheres negras que percebi como a história é contada de maneira tendenciosa para nós, como falta em nossa literatura vozes diversas, protagonistas não brancos, pessoas corajosas o bastante para dar voz e vida aos personagens invisibilizados do nosso mundo. É como se ignorássemos a existência de realidades duras ou fôssemos totalmente cegos para o racismo, tão presente e nocivo em nossa sociedade.

Sim, somos racistas. Você pode se ofender com essa colocação ou achar que, como indivíduo, não reproduz o racismo, mas é impossível negar que a estrutura da nossa sociedade é racista. E, infelizmente, as mulheres negras estão na base da pirâmide social, sofrendo um acúmulo de opressões que as impedem de alcançar o mínimo de igualdade.

É claro que eu jamais irei saber o que é ser uma mulher negra, e não tenho condições de falar sobre a experiência de ser negra no mundo, hoje (e ontem), pois sou branca e nunca sofri com o racismo. Daí a importância de ler livros, textos, relatos, blogs,  artigos científicos, crônicas, romances, novelas, quadrinhos, zines e matérias jornalísticas e de pesquisa escritos por mulheres negras.

Quem melhor do que elas para denunciar as mazelas do racismo? Quem melhor do que elas para nos informar o que acontece em suas vidas, em seus países de origem, em suas comunidades?

Se pensarmos que até pouquíssimo tempo atrás mulheres não podiam votar, não podiam exercer funções intelectuais na sociedade e eram vistas como seres inferiores, e que esses pensamentos ainda permeiam a nossa vida, é fácil compreender por que há muito menos mulheres em destaque no mundo literário. Quando se trata de mulheres negras, isso tudo é muito pior, pois além do machismo, elas sofrem com o racismo, a falta de oportunidades que costuma acompanhar a vida das pessoas negras, a falta de abertura social, sobretudo nos meios intelectuais, e a falta de interesse dos brancos em escutar o que elas têm a dizer.

Somos ainda uma sociedade que traça perfis conforme a cor da pele, que faz cara feia e fecha as portas para cabelos que não sejam lisos, que não entende nada sobre “a África” – como se não houvesse distinção entre os países daquele vasto continente. Fazemos vista grossa para o racismo “velado”, chamamos de mimimi quando alguém denuncia práticas racistas no mercado de trabalho ou em qualquer outro contexto. Julgamos que nossa cultura é melhor, que nosso modo de vida é o correto, invadimos terras que não nos pertencem, colonizamos aldeias, dizimamos etnias, culturas, idiomas, histórias – “em nome do progresso”. Fechamos os olhos para chacinas dentro do nosso país, para mulheres, homens e crianças negras assassinadas e humilhadas diariamente pelo Estado.

A única pergunta que me vem à mente é: Até quando?

Ao ler as histórias escritas por mulheres negras, sejam elas de ficção ou relatos biográficos, me pergunto onde estavam as pessoas que se diziam não racistas? O que faziam para combater esse pensamento opressor e as atitudes racistas que nos causam revolta e repulsa? Como se posicionavam politicamente ou nos meios sociais?

E, a partir desse questionamento, voltei o olhar para mim mesma, e me perguntei: o que tenho feito para que o racismo deixe de ser uma realidade? 

“Numa sociedade racistanão basta não ser racista. É necessário ser antirracista.” – Angela Davis.

Nós, brancos, temos uma dívida histórica a pagar com os negros – sobretudo com as mulheres negras. É preciso que a gente reconheça que nossos ancestrais foram responsáveis por milhões de mortes, por escravizar todo um continente e por perpetuar a ideia de que os negros são menos dignos que os brancos. E, a partir desse exercício de humildade e reconhecimento de privilégios, começar a desconstruir os preconceitos que que existem dentro de nós.

Nós precisamos combater o racismo de forma ativa, nos posicionando a favor de quem sofre essas opressões, promovendo espaços de debate, dando oportunidades para pessoas negras, para mulheres negras, poderem se destacar e ocupar espaços que antes eram restritos aos brancos.

O primeiro passo para isso é conhecer o outro lado da história, ouvir e ler, com o coração aberto e sem melindres, os relatos de quem é estigmatizado diariamente apenas por ter a cor da pele diferente,  por ser de uma etnia sobre a qual nada sabemos.

Encerro esse post com quatro livros escritos por mulheres negras que li no ano passado e no começo deste ano e que, a meu ver, são essenciais para compreender o racismo, suas consequências e seus efeitos em nossa sociedade. Entender, para poder combater. 

A Cor Púrpura – Alice Walker

Olhos d’Água – Conceição Evaristo

Americanah – Chimamanda Ngozi Adichie

A Mulher de Pés Descalços – Scholastique Mukasonga

O blog Clarices e Marias também fez uma lista com 12 autoras negras que você precisa conhecer. E eu, pessoalmente, recomendo que vocês conheçam a autora Jarid Arraes e seus maravilhosos cordéis, que contam a história de heroínas negras brasileiras que foram super importantes para o nosso país – mas que, provavelmente, você não conheceu nas aulas de história.


Imagem: Alice Walker, por Sweatpants & Coffee

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