Mudar, mas só por mim

Já faz um tempo que estou fazendo terapia, quase um ano. Eu já havia passado por psicoterapia no passado, mas dessa vez busquei um caminho mais espiritualizado. Minha terapeuta é holística e usa uma abordagem de harmonização do ser, com florais e Reiki.

Tenho apenas uma coisa a dizer sobre todo esse processo: mudou a minha vida.

Tem sido um caminho tortuoso. Quando a gente se enxerga por inteiro, sem artimanhas, sem ocultar nada, é comum ver um reflexo feio e desagradável no espelho da consciência.

É preciso coragem para enxergar a si mesmo sem maquiagens nem artifícios.

A aceitação que resulta desse reconhecimento demanda ainda mais força e valentia. Porque em um mundo que exige de nós uma vida meticulosa e impecável, saber de nossas falhas e acolhê-las com gentileza é um ato de rebeldia, é um passo para uma vida autêntica.

E você se surpreenderia com o tanto de gente que tem medo de tudo isso. Por achar que era bem resolvida, capaz de me autoanalisar e de me entender, tive uma imensa dificuldade em admitir que estava totalmente perdida e desesperada por orientação. Acho que eu tinha mesmo era receio de topar com a sombra, que amarrei nos confins do subconsciente, que fingi não existir.

Mergulhando fundo no caos da minha essência, percebi que precisava de ajuda há muito tempo, e que se eu tivesse demorado mais, poderia ser tarde. Eu estava realmente surtando, e o pior, sem saber o motivo. Talvez por não haver uma razão isolada, mas um conjunto de fatores que se potencializaram com o passar dos anos, cimentando meus pés na calçada da vergonha.

Sempre me julguei autossuficiente nessa jornada de autoconhecimento, e relutei demais para buscar ajuda profissional. Tanto que meu corpo e minha mente tiveram que gritar. Bem alto mesmo, com as palavras ansiedade e síndrome do pânico. Já faz quase dois anos que convivo com esses monstrinhos na minha cabeça – provavelmente, eles estão por perto há mais tempo, eu é que não tinha reparado.

Estou melhor, mas não curada. Até porque esses transtornos são fantasminhas que nos acompanham para o resto da vida, com o qual temos que aprender a lidar, e não a colocar debaixo do tapete.

A terapia tem me ajudado muito a reconhecer os padrões de comportamento que me destroem e me colocam para baixo, que me afastam da minha essência e me levam à depressão. Percebo todos os dias as repetições que preciso deixar de lado, os pensamentos obsessivos, a autossabotagem, a maneira como eu mesma me oprimo nos momentos de pressão.

Ser “eu” é uma tarefa cansativa. Porque “eu” venho acompanhada de manias, esquisitices, traços de personalidade muito intensos e defeitos. Uma cacetada deles. Tão horríveis, a ponto de contaminarem todo o resto da minha pessoa.

Quer dizer, era o que eu pensava.

Graças ao meu empenho em compreender minhas atitudes e o mundo ao meu redor, consegui vislumbrar que muitos dos meus defeitos, na verdade são traços comuns aos seres humanos. Afinal, ninguém é perfeito.

Eu me cobrava uma perfeição moral, ética e de comportamento, que é impossível de atingir. A cada deslize, a cada gesto que desagradava alguém, eu internalizava o autojulgamento de uma forma tão pesada, que nada do que fazia estava suficiente ou correto. Eu não me permitia errar, de jeito algum.

Estou usando os verbos no passado, não por já ter abandonado essa mania de autodepreciação, mas por ter me comprometido a fazê-lo. Quero me libertar da cobrança, do vício de remoer todas as atitudes procurando pelas minhas falhas, pois esse martírio estava me impedindo de simplesmente existir sem carregar um peso de toneladas nas costas.

Tente se imaginar soterrado por tudo o que você já fez na vida e te desagradou, ou magoou alguém, ou fez alguém torcer o nariz. É uma sensação de paralisia e impotência. Justamente porque, diante da perfeição ou da ideia que temos dela, todos somos insignificantes. 

Eu me sentia constantemente sufocada pelo desejo de cumprir todas as obrigações à risca, pelo medo de falhar, pela sensação de que precisava a qualquer custo agradar e satisfazer o mundo inteiro (e nunca a mim, pois eu não sabia do que gostava ou o que queria, de verdade). Como ser feliz e plena, se eu nem sabia o que poderia me levar a esses estados de ânimo?

O que me leva a um ponto crucial: é impossível agradar todo mundo.

Você pode tentar, se desdobrar, fingir, empenhar todas as suas forças. Uma atitude que agrade seu chefe, por exemplo, pode causar desavenças no seu relacionamento conjugal. As coisas que você faz para agradar os seus filhos podem causar ciúmes entre eles. Os defeitos que você tenta eliminar do seu comportamento podem ser virtudes em contextos diferentes.

Quando parei para pensar nisso, de verdade, foi como se tivesse encontrado a explicação sobre a criação do universo, ou encarado Deus face a face. Estou exagerando, eu sei, mas deu para entender que fez toda a diferença na minha vida.

Quer dizer, os defeitos que tanto me atormentavam talvez nem fossem tão horríveis assim, mas apenas reflexos da minha insatisfação comigo mesma (fruto da ansiedade+depressão). E, nesse círculo vicioso, a cada atitude que desviava dos meus parâmetros idealizados de comportamento virtuoso e imaculado, eu me punia. Inconscientemente, com os julgamentos, conscientemente, impondo restrições ainda maiores às minhas ações.

Como ser livre, se todos os seus passos são medidos por uma régua que não faz o menor sentido, e que é totalmente relativa?

Hoje, encaro o meu processo de mudança como algo que faço para mim, e não pelos outros. Quero transformar o meu olhar sobre a vida. Ser mais tolerante, menos arrogante, saber reconhecer meus talentos, ouvir mais, aceitar mais os tropeços (meus e dos outros).

E, finalmente, descobri que estou fazendo isso pela pessoa que mais amo: euzinha, composta pela meiga menina sonhadora e pela tempestuosa mutante predadora que espreita os recônditos da minha personalidade, buscando atenção.

Abraçar as partes que menos gosto em mim tem me ajudado a ser completa, a ter mais amor próprio e seguir sem tantas cobranças. A perdoar minhas falhas e aprender a conviver pacificamente comigo mesma. Afinal, terei que viver na minha própria companhia pelo resto da vida, e se existe alguém que precisa se sentir contemplada pelas minhas atitudes, esse alguém sou eu.

Mudar? Sim, claro, a todo o tempo e sempre para melhor. Mas só para a minha evolução pessoal, nunca por pressão externa. Caso contrário, deixarei de ser “eu”, para me tornar uma pessoa que o mundo espera que eu seja.


Imagem: Unsplash

Anúncios

Um comentário

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s