Síndrome do domingo à noite

Vou começar esse texto com uma frase polêmica: eu não gosto de ter que trabalhar.

Sei bem o que você deve estar pensando ao terminar de ler essa declaração: que eu sou uma molenga, vagabunda, preguiçosa. Que eu vivo às custas do governo ou sou sustentada por alguém. 

Mas isso não é verdade. Eu estou desempregada, porém faço milhares de freelas, dou aulas de inglês e suo a camisa para poder pagar os famigerados boletos. 

Dito isso, podemos seguir adiante.

Veja bem, o trabalho, em si, é algo maravilhoso. A sensação de produzir algo do zero ou de contribuir com a humanidade de alguma forma – ainda que no pequeno círculo onde você está inserida/o – é realmente gratificante. Ver o resultado do seu esforço pessoal materializado em algo tangível ou intangível (quando seu trabalho consiste de ideias, por exemplo) é uma grande satisfação.

Concluo, então, que gosto de trabalhar. O que me desagrada é ter que trabalhar.

A obrigação do trabalho nos impõe acordar cedo, enfrentar transportes públicos lotados (ou dirigir com os olhos ardendo de sono), usar roupas que muitas vezes não gostamos, engolir opressões e sapos do tamanho de um mundo, às até mesmo abusos e desmoralizações, para podermos receber uma quantia de dinheiro ao final do mês. Geralmente, menor do que gostaríamos ou do que precisamos.

E não estou me referindo aqui a valores exorbitantes, mas ao mínimo para se viver – valor que, ironicamente, ultrapassa e muito o do salário mínimo. (Tente viver com menos de mil reais por mês em uma cidade grande, tendo que pagar aluguel, eletricidade, transporte, supermercado, educação, impostos. Apenas tente.)

Vendemos nosso tempo e nossas habilidades pelo preço de mercado – e haja vista o leilão de menores tarifas, geralmente o quem dá mais se torna quem dá menos. Ou seja, o funcionário/trabalhador que aceitar receber menos pelo maior acúmulo de funções ou tarefas acaba sendo o escolhido para a grande maioria dos cargos ou serviços.

Se você achar que estou exagerando, a página do Facebook Vagas Arrombadas provará o contrário. São milhares de vagas que oferecem salários risíveis, benefícios que não se enquadram nas leis trabalhistas e exigências como experiência de cinco anos na área para recém-formados ou estagiários.

Isso quando o trabalho é registrado e existe uma mínima garantia de que as leis serão cumpridas pelo empregador.

Porque o que mais vemos por aí é contratação de MEI. Nada contra quem é autônomo e micro-empresário, pelo amor de Deus. O que me faz torcer o nariz, e muito, é esse sistema que nos obriga a abrir uma micro empresa individual para trabalhar como funcionários/empregados. É a glamourização do jeitinho brasileiro, que transforma todo mundo em empresário, mas com o ônus (e sem os benefícios) do funcionário registrado em regime de CLT.

Sem contar as vagas que oferecem “moradia em troca de trabalho voluntário” (ou seja, gourmetizaram o trabalho análogo ao escravo e estamos aceitando numa boa).

Acho que é por isso que não gosto de ter que trabalhar. Porque essa sensação de não ter para onde correr, de desespero e pânico que nos assola quando estamos sem um trabalho estável é uma opressão insuportável. E eu, como pertenço à classe trabalhadora, não posso me considerar outra coisa a não ser pobre.

Ah, mas você é privilegiada, tem de tudo, não pode dizer que é pobre. A triste verdade é que se eu deixar de trabalhar, todos esses “privilégios” se tornam pretéritos, o que significa que não sou diferente dos milhões de brasileiros e estrangeiros que diariamente batalham pelo pão de cada dia e pelo mínimo de dignidade. O fato de eu ter acesso a um pouco mais de conhecimento ou poder aquisitivo não me torna mais especial – eu sou apenas uma trabalhadora com nível superior. Assim como milhões de outros.

O que me leva a mais uma reclamação: por que nós, pobres, não temos acesso aos itens básicos da vida sem termos que trabalhar?  (Já ouviu falar na renda básica universal?). Creio que essa é a queixa da grande maioria dos que hoje sofrem com a síndrome do domingo à noite.

Esse é um sentimento que acomete a todos os trabalhadores assalariados ou autônomos que não têm a sorte de fazer aquilo que amam. Aliás, mais uma grande falácia do capitalismo.

Faça o que você ama e não terá que trabalhar nem um dia de sua vida. Que frase mais cruel. Você realmente acredita que amar o seu trabalho fará com que essa palavra/imposição perca seu peso? Colocar amor nas coisas que fazemos não significa que não estamos fazendo aquilo, ou que aquilo magicamente deixou de ser uma obrigação só por ter amor envolvido.

Podemos amar nossa função, mas detestar o ambiente de trabalho que nos assedia moralmente, ou odiar as burocracias envolvidas no cargo que ocupamos, por exemplo. Sinceramente? Acho que isso é bem normal. Não deveríamos ter vergonha de sentir o peso das obrigações, quando elas nos pesam. 

E, além do mais, é bem fácil falar sobre amor ou gostar do que se faz quando se trabalha dentro de um escritório com ar-condicionado, em uma função cobiçada ou considerada como intelectualmente superior. E quanto a todos os empregos e trabalhos invisíveis e que ninguém sonha em ter, mas aos quais muitos precisam se sujeitar para poder prover o sustento para si ou para sua família?

Decididamente, ter que trabalhar é uma opressão. E é por isso que sentimos essa síndrome do domingo, esse aperto no peito, essa angústia de ter que recomeçar a semana fazendo o que nos pesa.

Se não pesa para você, sinta-se uma pessoa agraciada. É um raro sentimento.

Porém, imagine que não é igual para todos. Existem pessoas que sofrem condições péssimas em seus trabalhos, e jamais irão encará-lo como algo que não seja uma obrigação ou um fardo.

Claro que nosso olhar sobre a vida pode transformar nossas atitudes – encarando o trabalho com gratidão, ele se torna menos duro, mais bem-vindo e prazeroso. No entanto, continua sendo um trabalho. Por mais que tenha cerveja ou sinuca dentro da empresa, ela continuará sendo uma empresa, e não uma festa de amigos.

Para quem só pode descansar ou ser ligeiramente mais livre ou autêntico aos finais de semana, o peso do final do domingo é pungente. E até para quem trabalha, fica aquele gosto amargo de não ter descansado com o resto do mundo.

Para vocês que, como eu, sentem isso, toda a minha solidariedade. Somos nós que carregamos o mundo nas costas.


Imagem: Unsplash

Anúncios

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s