Receita para um dia bom

Hoje estou vivendo um dia bom.

Não consigo especificar o motivo concreto de ter chegado a essa conclusão, pois, em essência, nada de especial aconteceu ao longo das horas que se passaram até eu me sentar para escrever esse texto.

Apesar do carnaval, estou em casa seguindo a mesma programação de uma segunda-feira qualquer. Esse é mais um dia, que poderia se perder no calendário e na memória se eu não tivesse escolhido escrever sobre ele.

Uma segunda-feira comum, porém com mais leveza e menos apertos no peito.

A vida hoje está girando em torno de trabalho, leituras, cuidados com a casa e comigo. Momentos que se repetem a semana toda, sem sabores novos, sem cenários inusitados. Exceto talvez pela música, que ecoa pela minha casa desde a manhã. Mas música também não é novidade para mim.

Talvez seja uma oscilação hormonal. Ou então a brisa fresca que entra pela janela. O fato é que estou vivendo um bom dia, tranquilo, calmo, agradável.

Um dia bom. Sem alarmes, sem surpresas, como na música do Radiohead.

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Uma metáfora me veio à mente.

Dias bons são como bolos simples, de fubá, chocolate, laranja, ou daqueles sem cobertura – os chamados bolos “inocentes”, como diria minha tia-avó Lourdes.

Os dias incríveis são bolos de festa, decorados com glacê, chantili, confeitos de açúcar e chocolate. 

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Levantei da cama com a sensação de estar fazendo as coisas certas, de que tudo vai se resolver e se encaixar – é questão de tempo. Até mesmo as minhas emoções, um dia serão mais brandas. Esse é um sentimento raro para alguém como eu, que sofre com transtorno de ansiedade e que tende a mergulhar em ondas espessas de pessimismo. Ainda mais nos tempos em que vivemos.

O sol brilha por entre nuvens, o ar fresco me envolve e conforta – afinal, verão com pouco calor é o sonho de todos os amantes do frio. Algumas ideias brilhantes estão me fazendo uma visita, mas sem a euforia que costuma acompanhá-las, já que encontrei o meu jeito de fazer as coisas, sem cobranças irreais.

Recebo esses insights calmos como ondas se chocando contra meu corpo, mas sem violência, só com energia – ou com uma violenta carga de impulsos criativos, que ao invés de machucar, orienta.

A atmosfera desse dia plácido, o suave calor que emana do meu coração e se espalha pelo resto dos órgãos, células, membros, a certeza de que o futuro não importa, tudo isso me leva a refletir sobre quais são as características de um dia que vale a pena recordar. Ainda que seja um dia prosaico, de mesmices e sem grandes novidades.

Eu costumava acreditar que, para ser considerado agradável ou até mesmo bom, um dia precisava vir acompanhando de incríveis acontecimentos. Aniversário, Natal, festa, presente, gargalhadas e empolgação. Filme novo estreando no cinema. Reencontro com amigos. Surpresa de amor no dia dos namorados.

Um dia bom requer, segundo meu critério enviesado, pelo menos algumas epifanias – como se a vida, ela própria, não fosse um grande acontecimento.

Os outros dias, coitados, eram ofuscados à luz dessas memórias mirabolantes, perdiam seu valor em comparação com o encantamento e a magia daqueles considerados como bons (quando, na verdade, eu deveria considerá-los como excelentes ou incríveis, pontos fora da curva da existência).

Foi então que percebi que estava sendo exigente demais, comigo e com a vida.

Esses momentos extraordinários são raros, e não deveríamos tê-los como referência para a felicidade rotineira. Só o fato de haver uma continuidade na vida já seria motivo para enaltecer qualquer dia como um instante digno de nota, uma página a ser grifada em nossa biografia.

Se compararmos todos os momentos ordinários com as datas marcantes que vivemos, perderemos a habilidade de enxergar as pequenas coisas, as pequenas alegrias. E se esses eventos empolgantes se tornarem habituais, perderão um pouco da magnitude, da intensidade. Se repetidos à exaustão, serão apenas fatos comuns de nossas vidas.

Quero conseguir enxergar beleza, leveza e raridade nos dias mais banais. No cotidiano que se repete. Nas tardes lentas de trabalho, o sol batendo na janela, preguiçoso e indulgente, esquentando as paredes e espalhando a preguiça dentro de casa.

Quero ser capaz de comemorar a vida nos dias em que nada de diferente acontece.

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Um dia bom é um catálogo de possibilidades.

Me pego, então, pensando no que significam os dias ruins, ou por que fazemos questão de guardá-los na memória. Por que atentamos tanto para detalhes negativos, mas insistimos na amnésia do que é corriqueiro.

Talvez os dias ruins sirvam para nos fazer lembrar das coisas boas, nos ajudar a valorizar o que temos de positivo, a sentir gratidão, a desviar dos caminhos da tristeza. Talvez sejam lembretes singelos de que é impossível viver sempre uma linha reta, um gráfico estável de felicidade e plenitude.

Mas será que o segredo da vida não consiste em atingir a plenitude, mesmo nos dias piores?

Enquanto escrevo esse texto, me recordo de como ontem foi um dia ruim em termos emocionais. Tive dificuldade de me sentar à mesa e conversar com as pessoas, de sorrir com sinceridade, de ser eu mesma e de respirar sem nós no peito. Tudo isso, cortesia da ansiedade, dos resquícios de uma depressão, nuvem negra sempre pairando sobre mim.

Em termos de acontecimentos, o domingo-ontem foi um dia recheado de itens que compõem os dias bons.

Teve encontro com a família, comida boa, abrigo, aconchego, vento de sombra de árvore. Teve belas palavras lidas em um livro – teve até chocolate e milk-shake. E, além dessas extraordinárias delícias, teve tudo o que tenho diariamente: uma casa limpa, meu marido-amigo-companheiro, meus gatos, minha cama macia, roupas boas, um jardim pequeno mas verdinho.

Não me faltou absolutamente nada.

Ao que tudo indica, então, classificamos os dias como bons ou ruins de acordo com as emoções que vivemos neles, ou com as quais analisamos os eventos transcorridos neles.

Talvez a receita para um dia bom seja ter a capacidade de enxergar o extraordinário, mesmo na rotina das coisas que não valorizamos.

Talvez a receita para ter um bom dia não seja uma lista de itens, mas uma nova mentalidade, de gratidão, presença e humildade.  Reconhecer que todos os dias são bons, ainda que nos pesem nos ombros, ainda que a vida seja difícil – porque, de qualquer forma, estamos vivos.

Um dia bom é aquele em que estamos vivos. 


Imagem: Patrick Tomasso disponível no site Unsplash

(No texto da imagem, está escrito “hoje foi um bom dia”, em inglês)

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