Lamentos de um anjo frustrado

Diz a crença popular, corrente entre os filhos de Deus, que nós, os anjos, fomos criados para protegê-los dos males e perigos físicos ao longo de sua existência. Penso nisso e sorrio. Sou incapaz de oferecer proteção, muito menos de salvar a vida de alguém.

Incapaz, porém não no sentido literal. Tenho habilidades que poderiam ser úteis, caso fosse possível ou necessário impedir uma morte ou um acontecimento infeliz. Minha frustração decorre da impotência que sinto diante do que vejo, dia após dia, um filme que se repete em um roteiro dramático, personagens frágeis, o inevitável final banhado a lágrimas.

Do alto das nuvens, observo a humanidade em seu ritmo frenético, correndo pela esteira rolante da existência, ignorando as paisagens belas que o Criador desenhou para o seu deleite. Todos querem chegar a algum lugar, sem saber onde,  sem se atentar ao fato de que o único destino certo é aqui: a morada eterna.

Se eles soubessem dessa certeza, talvez poderiam levar uma vida diferente. Menos rápida, mais detalhada.

A pressa deles me incomoda, faz os olhos arderem durante as longas horas de vigília, estremece meu corpo etéreo em espasmos de dor. Eles mais parecem um borrão de luz tingindo o espaço, tão rápidos que são seus passos. Para amenizar o ardor que a observação provoca, lanço mão de alguns recursos, como alterar a minha percepção do tempo para parecer que os homens e mulheres estão caminhando a passos mais lentos, ritmados.

A dança da lentidão, é como chamo esses momentos que preenchem a solitária rotina da glória celestial.

Esse é meu único subterfúgio. Tento instruir as pessoas – muitas vezes meus colegas me advertem por acreditarem que estou sendo teimoso, mas mesmo assim, tento. Quando se tem a eternidade para tentar, o que não falta é tempo.

Insisto em crer na humanidade. Queria poder resgatar a todos e impedir que se abandonem ao sofrimento.

Aqui, somos apenas monitores, embora de tempos em tempos, em raros eventos, o Criador nos ordene abandonar a paz celestial e tentar intervir nas trapalhadas dos humanos. Sussurrar palavras de amor e inspiração em seus ouvidos. Mover um objeto do caminho para que não tropecem. Ajudar um pobre trabalhador a conseguir um emprego, ou um estudante a ter uma nota razoável. Tocando o coração de um chefe de estado para que desista da ideia de guerra plantada pelos espíritos malignos em seus pensamentos.

É ótimo poder saber que faço parte de algo maior- literalmente, porque o espaço tem um tamanho infinito e a nossa noção de grandeza é tão complexa que essas poucas linhas seriam incapazes de comportar. Sabemos que a vida na Terra é um ponto ínfimo na curva da eternidade, e que certos acontecimentos, como sofrimento e morte das pessoas, são pedaços da história que não refletem no cômputo geral.

Mesmo assim, é grande a frustração que me invade, por ser um mero espectador dos sofrimentos que as criaturas terrenas experimentam ao longo de sua trajetória.

Eu gostaria de poder salvar a vida de quem se perde a troco de nada.

Quando vejo um humano sofrendo, meus braços ensaiam um acalanto, como a mãe que acolhe o filho que cai prostrado ao chão. Houve um tempo em que eu me atrevia a quebrar os protocolos e envolvia os perdidos em abraços de consolo, mas era raro alguém sentir minha presença. Ao contrário, o comum era me espantarem, como se eu não passasse de um mau presságio, um calafrio.

Quando há um animal por perto, a reação é mais instantânea, instintiva. Cães e gatos conseguem nos ver – e os humanos suspeitam disso. Demorei séculos para ter essa consciência, e foi no dia mais marcante de minha carreira angelical que descobri que os animais podem nos enxergar.

Havia uma jovem deitada perto dos trilhos de um trem desativado, devia ter no máximo quinze anos de idade, estava com uma seringa espetada no braço direito e prestes a ter uma overdose. Eu me aproximei em silêncio e comecei a emanar energias de amor e consolo na direção da garota, antes mesmo de tocá-la – era urgente alcançar seu espírito, seus sentimentos, para inspirá-la a interromper o fluxo da droga. Um cão repousava ao lado dela, mas assim que intuiu minha presença, começou a latir insistentemente, cada vez mais alto.

A moça não resistiu. Teve uma parada cardíaca enquanto eu sentia minhas asas translúcidas serem sugadas de volta para o plano angelical, com um imã que me puxava para cima – mecanismo que o Criador implementou para impedir que seguíssemos o exemplo dos colegas que resolveram se juntar aos humanos, os tais anjos caídos. O cão foi morto a pauladas por um traficante que passava por ali fugindo de um carro de polícia.

Até hoje me culpo por isso – e é engraçado sentir culpa, algo que eu julgava tão humano, tão indigno de um ser celestial. Sem contar a tristeza, pois é triste ser um anjo sem poder transformar absolutamente nada. Sem poder salvar ou proteger. Às vezes me vejo como um desperdício, e só após ser tocado pela Graça do Senhor é que enxergo a solução: não sou eu, é a Graça do Senhor que irá transformar tudo.

Queria conseguir reduzir as distâncias entre a Graça e os Filhos do Senhor. Criar um escudo invisível ao redor de todos os seres da criação.

Nós, os servos do Senhor, sofremos com essa ausência de autonomia e liberdade para oferecer a salvação – mas o pensamento, por si só, já configura como um sacrilégio. Afinal, não foi Cristo quem morreu para salvá-los? Eu, humilde trabalhador espiritual, não poderia ter essa pretensão. Só pode ser salvo quem busca a salvação. 

No fundo, os seres humanos estão todos em busca da própria redenção – alguns só não sabem disso. Fui ordenado a não interferir no libre-arbítrio desses que ainda estão distantes de tal compreensão, que tropeçam nas pedras ao invés de organizá-las e construir o próprio caminho, que olham apenas para o chão e se esquecem de Deus, de si mesmos e do próximo.

Acho que minha maior frustração é não poder colocar as coisas em ordem.

Daqui do alto, enxergo padrões tão simples, como um quebra-cabeça que eu poderia resolver em alguns dias, e que resultaria em uma imagem harmoniosa, uma paisagem digna de um quadro perfeito e sublime pintado pelo Criador.


Imagem: Unsplash (editada por mim)

Anúncios

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s