Ano novo, ritos e recomeços

Esse não é um texto otimista. Não porque deixei de acreditar no futuro ou por ter perdido as esperanças. Pelo contrário: sou uma pessoa que crê nos frutos da ação, que nada mais é do que a fé combinada à atitude.

Sem fé, nada é possível. 

Dito isto, creio que posso seguir com as minhas reclamações e meus devaneios com a consciência mais leve.

…..

O novo ano já chegou, trazendo nas costas uma bagagem pesada de expectativas, promessas de mudança e possibilidades infinitas. São 2018 ciclos desde a vinda de Cristo, milhares de outros mais desde que a humanidade se instalou nesse planeta.

Esse número “dois mil e dezoito” transmite a impressão de que a vida é infinita, ancestral. Talvez seja graças a essa grandiosidade do tempo que até os mais céticos se tornem crentes à meia-noite, atirando-se a toda sorte de superstições. Comer lentilhas, guardar sementes de uva e romã, folhas de louro na carteira, sete ondas –  tudo para que a sorte sorria com os dentes escancarados nos dias que virão.

Será que isso tudo funciona?

Sou avessa aos misticismos e crendices dessa época, pois prometem algo impossível. É como se todo mundo despejasse sobre o ano que se inicia a responsabilidade de propiciar maravilhas e felicidades nunca antes experimentadas. Como se no primeiro dia após a festa dos fogos e das sete ondinhas, o universo fosse nos transformar, e à nossa vida, num passe de mágica.

Detesto ser a voz do pessimismo, mas tudo isso é ilusão. Mudanças só acontecem com ação e com o esforço de quem deseja fazer o novo se concretizar. E a despeito de todos os ritos e da fé, um ano que se inicia é apenas uma das inúmeras leituras possíveis da realidade – afinal, nem todos comemoram a virada do ano no último dia de dezembro.

Eu compreendo, de verdade, a necessidade que temos de ritualizar as passagens, de encenar a fé como um espetáculo. No entanto, sem uma real intenção de transformação, de nada adianta soltar fogos, comer lentilha ou jogar flores para qualquer divindade que seja.

O simbolismo do recomeço está aí para ser empregado a qualquer momento das nossas vidas, se assim desejarmos. E, de preferência, ao longo do ano todo, e não apenas em um dia de festa.

Nada de novo no ano novo

Quando penso em virada do ano, uma coisa que sempre me marca são as fotos do “dia seguinte”, nas praias do Brasil. Ah, que belo começo, o lixo espalhado pelas areias claras e paradisíacas, o plástico que será engolido pelas espécies marítimas, os pássaros e animais domésticos que morrem assustados com os rojões, o resto do resto do resto flutuando pelas águas em direção ao horizonte.

É assustador. Por mais que sejamos otimistas em relação ao futuro da humanidade, é inevitável se entristecer com esse tipo de cena, justificável em nome de uma celebração que poderia muito bem ser repensada. Logo no momento em que deveríamos refletir sobre mudanças, acabamos reproduzindo o que há de pior na raça humana: o egoísmo e o desdém pelo planeta.

Imagine que louco se todos nós realmente tomássemos a consciência de que a Terra não é só nossa, mas que os outros seres – animais, vegetais, minerais – que a habitam têm o mesmo direito de estar aqui? Imagine que revolucionário se fôssemos evoluídos o bastante para abrir mão de ritos e tradições prejudiciais (como a queima de fogos, por exemplo), em benefício do coletivo?

É como na nossa vida individual. Produzimos tanto lixo emocional! Somos incapazes de olhar para esses resíduos, recolhê-los do chão dos sentimentos e dar o devido fim a eles. Reciclá-los também é possível: transformando a dor em crescimento, por exemplo.

Tenho a infeliz impressão de que isso ficará apenas na minha imaginação.

Nossa, Mariana, como você é amarga”. Pois é, eu ouço muito isso quando critico alguma coisa à qual todos se agarram como se fosse uma tábua de salvação, mas sem saber que é uma pesada âncora de ferro fundido.

Precisamos aprender a deixar nossas âncoras para trás, tanto as individuais quanto as coletivas.

O primeiro passo para a transformação, seja ela pessoal ou social, é abrir mão do preciosismo, parar de colocar certas coisas no pedestal – até mesmo nossas opiniões, emoções e características pessoais. Como podemos recomeçar, como indivíduos e sociedade, se não soubermos nos desprender do passado?

Recomeçar do zero?

Tá aí outra coisa quase impossível de se fazer. Talvez não se trate de dar um reset no mundo ou em nós mesmos. Afinal, somos o produto de nossas escolhas e, por mais desapegados que sejamos, por mais que possamos deixar o passado lá atrás, sofremos hoje as consequências de tais eventos, por mais que sejam longínquos.

Assim como nós, o planeta também sofre com os estragos aos quais o submetemos ao longo dos séculos. Embora seja impraticável reiniciar tudo, como num jogo de vídeo-game, se nós nos empenhássemos na transformação global, com certeza poderíamos construir um futuro diferente.

Na utopia perfeita, o plástico seria substituído por materiais que não prejudicam o meio-ambiente, os fogos seriam trocados por projeções holográficas (tô exagerando?) e não haveria lixo nas areias. As emoções, também plásticas e artificiais, seriam reconfiguradas para seu estado natural e orgânico.

Tá vendo como esse texto não é totalmente cético e pessimista?

E se a gente encarasse cada dia que nasce como um reveillon?

No primeiro dia do ano, refleti muito sobre minhas atitudes dos últimos tempos. Sobre a forma como encaro o mundo, meu papel nele e as consequências dos meus comportamentos. Entristeci, pois tenho certeza de que são poucos os que perdem tempo nesse tipo de reflexão. As prioridades do mundo são outras.

E, em vez de ficar tentando mudar o meu entorno – por exemplo, brigando com as pessoas para que elas enxerguem as coisas como eu -, estou disposta a silenciar minhas revoltas e transformá-las em ondas de paz.

Apesar do baixo-astral, me propus alguns pontos de ação – não são resoluções, pois também não acredito muito nelas. Um deles tem a ver com encarar todos os dias como se fossem o último, sem levar essa proposta para a esbórnia. Quero ressignificar o “viver como se não houvesse amanhã”, da inconsequência ao carpe diem.

Aproveitar os momentos para amar, ser feliz, sorrir, compreender, mudar, renovar, acolher. Ser cada vez mais fiel à minha essência e menos escrava do mundo e de seus sistemas. Se há um rito no qual deposito toda a minha fé, seu nome é transformação.

Que nesse novo ano possamos nos transformar, transpondo nossos casulos, soltando as âncoras e dando o devido destino aos nossos lixos físicos e emocionais.


Imagem:  Leio McLaren – Unsplash

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