Minha escrita é independente

Assim como em toda arte, toda profissão, todo ofício e ocupação da vida, escrever é uma atividade que pode ultrapassar a esfera artística e cultural, tornando-se uma forma de ganhar dinheiro ou de obter satisfação profissional.

Há escritores que anseiam por aprovação, por sucesso, fama e holofotes. Há aqueles que encaram a escrita como um passatempo, um capricho ou válvula de escape. Há, ainda, os que trabalham o ato de escrever como algo quase religioso, um exercício sublime e elevado de transpor a alma para o “papel”.

Seja como for, escrever é algo que cada autor faz de forma autônoma, uma tarefa essencialmente solitária e individual. É possível escrever em grupo, mas no momento em que está frente a frente com o vazio da página em branco, quem escreve imediatamente se isola do restante do universo, e se deixa cobrir por uma cortina de pensamentos e criatividade.

A meu ver, a máxima alegria de escrever é saber que há alguém do outro lado, tecendo uma conexão com suas ideias através do igualmente solitário ato de ler. Tudo isso, desde a escrita até o ato da leitura e interpretação, é o que compõe a literatura, matéria tão necessária, tão coletiva e individualista, que nos une através dos séculos.

E o que move um escritor?

Nos dias de hoje, um dos grandes motivos que nos levam a fazer qualquer coisa é o dinheiro. E, apesar de ser bastante concorrido, o mercado editorial parece ser promissor para jovens escritores, sobretudo os que possuem muitos seguidores nas redes sociais. Não vou entrar no mérito de isso ser algo positivo ou negativo, mas o fato é que a lógica do mercado acaba engolindo todas as formas de manifestação artística. Nesse caso, devo confessar: tenho dificuldade de encarar isso como algo normal ou aceitável.

É óbvio que precisamos de dinheiro para viver. É evidente que no sistema em que estamos inseridos hoje é complicado conceber a arte como algo isento de valor comercial, visto que tudo é produto (inclusive eu e você, mas deixo esse assunto pra outra postagem).

No entanto, quando a única motivação é financeira, corremos o risco de abrir mão da essência, da qualidade e, sobretudo, da liberdade criativa, buscando sempre agradar a um público que está habituado a consumir sem saborear. E isso não ocorre apenas na literatura, é uma praga que assola todas as manifestações artísticas.

Não quero dizer, com isso, que toda produção literária ou artística que caia nas graças do grande público é ruim. Existem boas obras de arte e literatura que são populares, que vendem bastante, que rendem rios de dinheiro. Mas elas não são a regra, e sim a exceção.

Fico pensando: será que a arte – e, principalmente, a literatura – está se tornando obsoleta ou desnecessária? O que faremos para contornar essa situação de mercantilização do pensamento (que já não é de hoje)? 

O que me move como escritora?

Em momentos como esse, me lembro de artistas como a Amanda Palmer. De pessoas que levam sua arte a sério, que se conectam com o que produzem de forma visceral e íntima, e tentam não se corromper pela indústria. Artistas que dependem única e exclusivamente do público que cativaram e da comunidade artística que construíram para sobreviver.

É nessas pessoas que quero me espelhar. Decidi, esse ano, que não vou mais ficar tentando agradar grandes editoras ou adequar a minha produção literária a gostos pré-estabelecidos. Quero fazer boa arte, dialogar com quem se sinta tocado/a pelo que escrevo, mas sem me forçar a adaptar essa ou aquela parte para o gosto comercial.

Formei um coletivo de escritoras aqui do Vale do Paraíba – SP, chamado Coletivo Sincronistas. Estamos no começo e ainda em processo de criação de nossa primeira revista literária. O projeto tem tudo para dar certo, no sentido de fazer coisas muito legais acontecerem, movimentar a cena literária da região, realizar eventos como saraus e promover a produção das mulheres locais.

São essas as coisas que me movem, de fato.

Talvez eu não tenha sucesso financeiro. Talvez eu nunca me torne uma escritora de best-sellers – e eu nem sei se gostaria de ser isso, para dizer a verdade.

O que eu desejo é melhorar, a cada dia, a cada texto escrito e publicado. Crescer e deixar marcas nas pessoas que gostam do meu trabalho e da minha arte. O resto é apenas verniz, que acaba ficando gasto com o tempo. E meu ego não sente tanta necessidade desse tipo de brilho.

A escrita independente, que fazemos apenas para nós e nosso seleto público (obrigada, meus queridos leitores!), é sincera, honesta e viva. Por não estar amarrada a nada, tenho total liberdade de criar o que bem entender, escrever textos só pelo prazer de ver as palavras amarradas entre si. Ser independente, apesar de não garantir frutos monetários, me permite fazer experiências malucas, fugir do clichê, ou abusar dele sem medo de ser podada pelo mercado.

É claro que eu não recusaria uma boa proposta de publicação, mas apenas se me permitisse manter minha essência. 

E, falando em publicações independentes, a partir desse mês trago uma novidade: o zine Mil Palavras, que terá distribuição gratuita e publicação mensal. Você pode baixar a versão digital nesse link: Zine Mil Palavras – 1ª Edição, ler no computador, em seus dispositivos móveis; ou imprimir em formato A4, frente e verso, tirar xerox e espalhar por aí. O conteúdo é gratuito e livre, e vou batalhar para manter viva essa forma de publicação.

A próxima edição será lançada em janeiro de 2018 e contará com textos meus e ilustrações de artistas convidados.

A ideia é começar com a distribuição gratuita em xerox e, aos poucos, conseguir patrocinadores ou criar um esquema de apadrinhamento por parte dos leitores – cada um contribuindo com uma quantia acessível e que seja suficiente para manter a publicação funcionando (custear a impressão, diagramação e distribuição).

Eu acredito que essa seja uma maneira de continuar a escrever, sem perder a honestidade, sem vender minhas palavras e sem comprometer a minha busca por uma escrita verdadeiramente literária e artística.

Minha escrita é independente, e assim permanecerá.


Imagem: Pexels

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