Leituras de Novembro – Uma viagem pela mente humana

Uma das características que mais me atraem na literatura é sua capacidade de nos transportar para dentro de outras vidas e, por consequência, para dentro de nós mesmos. Esse mergulho na alma de uma pessoa desconhecida – seja ela real ou não –  esse salto no escuro, é um grande fator transformador.

Ao tomar conhecimento do outro, também podemos nos conhecer.

E quando esse outro é um personagem ficcional, é ainda mais fácil nos identificarmos com suas características, tanto as positivas quanto as negativas. Durante o solitário ato da leitura, nos entregamos nas mãos do narrador e caminhamos pelos lugares que ele nos mostra, os quais, muitas vezes, são espelhos da nossa mente.

Isso é algo denso, eu sei. Mas, quem nunca se viu na pele de um protagonista ou herói de um livro?

Em novembro, embarquei numa viagem pelo íntimo do ser humano e redescobri coisas em mim que há muito estavam perdidas. Graças aos personagens extremamente complexos com os quais me deparei, retomei questionamentos sobre minha saúde mental, meus momentos de insanidade e os impulsos instintivos, quase animalescos, do ser humano.

A seguir, comento um pouco sobre os três livros desse mês que se encaixam nessa temática: Madame Bovary, Lady MacBeth do Distrito de Mtzensk e Reparação.

livros novembro

O romance clássico Madame Bovary, de Gustave Flaubert, encabeça essa lista e é uma leitura obrigatória para quem ama literatura. Este livro, que causou furor ao ser publicado, é o pioneiro do realismo psicológico, introduzindo uma nova maneira de contar histórias: pela perspectiva interna dos personagens.

O narrador desnuda a alma de Emma, uma mulher bela e encantadora. Insatisfeita com a vida, provavelmente portadora de transtornos psicológicos (mais especificamente, transtorno bipolar e depressão), ela busca em romances extraconjugais uma espécie de salvação do tédio e da rotina. Ao se casar com Charles, um médico pacato, meio acomodado e ainda pouco reconhecido na sociedade, Emma se vê imersa no insosso mundo da classe média, aquém de suas expectativas que se tornam ainda mais inatingíveis quando ela conhece o mundo dos ricos. O casal é convidado para um baile, no qual Emma dança com um nobre, vivencia momentos de êxtase e parece se comprometer a não perder aquela sensação de maravilhamento ao voltar para a “realidade”.

Podemos ver personificados em Emma e em Charles dois extremos da sociedade do século XIX: o cidadão sem impulso, quase acovardado pelos papéis sociais que o delimitam; e o indivíduo insatisfeito, que busca nos bens materiais e nos prazeres da carne uma forma de afugentar a depressão e a monotonia da vida.

Repleto de críticas sociais, retratando as insatisfações do homem em relação à vida burguesa e materialista, Madame Bovary é, sem dúvida, uma das narrativas mais primorosas da literatura.

Os dois outros livros do mês passado também se enquadram nesse contexto do realismo psicológico.

Em Lady MacBeth do Distrito de Mtzensk, do russo Nikolai Leskov, acompanhamos a transição de Catierina Lvona, de esposa de comerciante a assassina serial killer. Descrita como uma mulher que não era bonita, mas simpática, Catierina parece, a princípio, uma personagem comum e até sem muita vida. Após iniciar um affair com um empregado de seu marido, o oportunista Serguiêi,  Catierina assume uma postura fria e sangrenta, assassinando todas as pessoas que podem impedi-la de viver seu romance – inclusive crianças. A narrativa traz elementos do naturalismo, tanto na linguagem quanto na postura animalizada de alguns personagens, inclusive da própria Catierina.

O final, dramático e surpreendente, remonta ao mesmo fim trágico de Emma Bovary, porém Catierina demonstra uma frieza que é o extremo oposto do comportamento de Emma, uma protagonista passional e desesperada.

E, falando em desespero e paixão, o último, porém não menos importante, Reparação, de Ian McEwan, é um excelente exemplo da fusão entre a narrativa realista e a literatura moderna-contemporânea. As mulheres da história de Ian são intensas, controversas e suas motivações e emoções são apresentadas ao leitor com detalhes precisos.

Briony, uma pré-adolescente aspirante a escritora, presencia duas cenas que a fazem tirar conclusões precipitadas a respeito de Robbie. Os anos se passam e, ao longo da trama, ela tenta reparar um terrível erro que cometeu e que teve implicações terríveis nas vidas de sua irmã Cecília e do próprio Robbie. O final do livro é surpreendente – alguns leitores chegaram até a dizer que foi decepcionante, pois deixa muitas dúvidas no ar. De qualquer maneira, as personagens de Reparação me lembraram bastante as de Flaubert e a forma como McEwan descreve suas sensações e impressões é primorosa.

As personagens femininas dos três livros são incrivelmente bem construídas e densas.

E, apesar de alguns clichês – compreensíveis, graças ao contexto da época –  suas atitudes são chocantes, reveladoras, mostrando que a natureza do ser humano pode ser tão imprevisível quanto destruidora. Acredito que os autores escolheram essas mulheres justamente para impactar ainda mais o leitor, pois algumas atitudes delas são totalmente contrárias aos estereótipos femininos de delicadeza e passividade.

Emma Bovary é uma mulher ensandecida por suas paixões, que nos mostra que não é saudável reprimir as emoções. Catierina Lvona é o oposto do que qualquer mulher idealizada deveria ser, não é bonita, é fria e ousada – seus crimes, embora motivados pelo amor, não parecem afetá-la ou assombrá-la. Briony nos faz refletir sobre as consequências de nossos atos e sobre a repressão da sexualidade e o que isso pode causar. Cada uma à sua maneira, elas são espelhos de aspectos muito presentes na nossa sociedade.

De modo geral, todas essas histórias me conduziram a uma longa e frutífera jornada pela mente humana, pelas motivações e pelos desejos mais ocultos da alma. Somos todos muito diversos, temos muito o que aprender sobre os outros e nós mesmos.

E graças à literatura, esse farol que nos guia pela escuridão da ignorância, temos condições de descobrir quais são as características humanas mais ocultas, sem precisar sofrer na própria pele os infortúnios aos quais são submetidas as personagens dos livros.

Em muitos momentos, as vozes dessas mulheres ressoaram em mim, e eu pude compreender melhor a loucura e seus desdobramentos. Como diria Flaubert, Emma Bovary c’est moi! 


Gustave Flaubert – Madame Bovary – Penguin Companhia, 2011.

Nikolai Leskov – Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk – Editora 34, 2009.

Ian McEwan – Reparação – Cia. das Letras, 2011.

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