O homem que pedia desculpas

Sentado no banco, com os olhos voltados para o chão, Lúcio ensaia o diálogo previsto para dali a dez minutos com sua namorada. A mensagem precisamos conversar ainda brilha na tela do celular, e Lúcio recorre àquela frase afiada para elencar as palavras que pretende proferir.

Ele não faz ideia do que Guta tem para dizer. Um filme começa a rodar em sua mente, e todos os momentos em que ele possivelmente estragou tudo se projetam no concreto. Um traço que se sobressai é a forma como ele está sempre um passo atrás do que deveria fazer, sempre atrasado, um aluno que precisa de meio ponto para ser aprovado – e nunca consegue.

Lúcio é um eterno repetente nas provas do amor e da vida social.

Ao seu redor, as pessoas não o notam, ele é um vulto na praça. Talvez tenha sido percebido pela mulher em quem esbarrou antes de se sentar, mas Lúcio acredita que ela só o enxergou após seu pedido de desculpas.

Me desculpe. Desculpa. Sinto muito. Me perdoe. Mil perdões. Foi mal

O rapaz tem um vocabulário variado para seus atos de contrição. Às vezes, emprega todos os termos numa única frase cuspida como um ramalhete de flores, sobretudo nas situações as quais considera mais graves.

Naquele instante, Lúcio só consegue pensar onde foi que eu errei? O que foi que fiz?

Certa vez, Guta quis viajar, mas Lúcio não conseguiu tirar folga. Pediu desculpas, mandou flores, Guta sorriu, nenhum dos dois acreditou no perdão. Seguiram a vida com nós atados na garganta e olhares distantes.

Lúcio tentou compensar a frustração da namorada com jantares e presentes extravagantes. Duas noites da semana estão reservadas a Guta, para o resto de sua vida, e ela costuma escolher programas requintados. O casal segue de mãos dadas, escolhendo pratos com nomes elegantes, ocupando os assentos mais badalados dos espetáculos musicais e teatrais da cidade. Se Lúcio tivesse contatos, eles poderiam até sair nas colunas sociais.

Mas ele não é o tipo de homem movido por tais ambições. Deseja as simplicidades da vida – um amor, uma casa aconchegante, filhos, um cachorro e tardes preguiçosas de domingo. O grande problema é que Lúcio ainda não sabe disso e, ao longo dos anos, esteve mais preocupado em agradar as pessoas à sua volta do que descobrir quem ele realmente é e do que gosta, sem a influência de terceiros.

Agora que o tempo não tem mais tanta pressa, concedendo ao rapaz permissão para pensar sobre sua história de vida em meio ao movimento cotidiano da cidade, Lúcio percebe que jamais reservara um instante para se aprofundar em suas próprias questões.

Com Guta, sua única preocupação era agradá-la e fazer de tudo para não perdê-la. No entanto, tinha dificuldade de responder a si mesmo o que ela havia feito por ele, além de oferecer companhia e reclamar de seus trejeitos.

Mais uma coisa pela qual Lúcio se coloca em constante condição de contrição. Qualquer que seja sua atitude, lá estão as palavras, prontas para serem pronunciadas assim que ele pressente (ou interpreta, ainda que de forma equivocada) um olhar de reprovação.

Me desculpe. Desculpa. Sinto muito. Me perdoe. Não tive a intenção. 

Embora, em certas ocasiões, ele tivesse, sim, a intenção de agir daquela determinada forma. Lúcio, esse homem um tanto passivo, pronto para deitar no chão e servir de tapete vermelho para quem desejar desfilar, jamais sonhara em ter vontade própria. Estou aqui para servir, prometeu ao universo. E até então não havia se perguntado se as pessoas a quem servira ao longo da vida eram merecedoras.

O profundo estado de contemplação é interrompido pela chegada de Guta, bamboleando o corpo sobre o salto fino, a postura decidida e confiante – o contrário do namorado, que se curva sobre o próprio corpo até na hora de se levantar do banco. Eles se saúdam com um beijo no rosto, não quero borrar o batom, e Lúcio a conduz, com a mão em sua fina cintura modelada pelo vestido elegante.

Na mensagem, Guta dizia que precisava conversar e sugeriu um local público, aquele “nosso” restaurantezinho. Lúcio teria escolhido sua própria casa, ou algum espaço mais reservado, mas acatou a decisão da amada sem questionar. Tudo por ela.

Sentam, como sempre, na melhor mesa da casa. Assim que o garçom pede licença para ir buscar as bebidas, Guta começa a falar.

– Lu, meu querido… – diz a moça, tomada por tremores e segurando a mão do namorado, molhada de suor.

O rapaz a interrompe, retirando a mão daquele afago cheio de cuidados, num rompante inédito. A voz é suave e baixa, mas portadora de duras verdades. Lúcio despeja todos os questionamentos da praça no colo de Guta, enfatizando a sensação de cansaço produzida pelas recorrentes reprimendas da namorada. A moça tem os olhos úmidos, a expressão decepcionada.

– Resumindo, Guta, estou farto de ser tratado como capacho.

Em ato também inédito, ela desata a chorar, ignorando o público do restaurante, que cochicha e especula sobre os motivos de tais lágrimas. Lúcio está resoluto, sem esboçar reação. Não vou deixar que ela me manipule desse jeito.

Enxugando o rosto com o guardanapo de pano, Guta se recompõe e se levanta. Seu olhar é afiado e ressentido. O peso dos sapatos no piso de mármore é um aviso de que a batalha ainda não terminou. Lúcio, porém, sente o orgulho crescer dentro de si. Enfim, consegui me impor contra as injustiças que venho sofrendo. O rapaz desfruta de um jantar tranquilo, engolindo o sabor de ter sido autêntico, ao menos uma vez na vida.

No caminho de volta para casa, o celular vibra. A mensagem de Guta o atravessa como uma bala de calibre devastador. Eu só queria dizer que estou grávida. Lúcio não consegue conter o desconsolo e se atrapalha na direção do carro, colidindo contra uma árvore e atropelando um senhor que passeia com o cachorro.

Não há sobreviventes. Os paramédicos que tentaram salvar a vida de Lúcio dizem que suas últimas palavras foram as que ele sempre dizia, que eram pronunciadas como por reflexo.

Me desculpe. Desculpa. Sinto muito. Me perdoe. Não tive a intenção. Mil perdões. Foi mal


Imagem: Unsplash

 

 

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