Leituras de Setembro – George Saunders, Rita Lee e Clarice Lispector + “O que é literatura?”

No mês passado, li muito menos do que gostaria. O tempo me engoliu com sua garganta faminta, os dias passaram num estalo e senti necessidade de me afastar das letras. Escrevi pouco, cumpri apenas as metas dos clubes de leitura dos quais participo e tive vergonha de mim mesma.

Mas, como diria Rita Lee, “são coisas da vida“…

Claro que meu gosto pela leitura continua intacto. Também não me tornei avessa aos livros ou a escrever. Acho que só precisava refletir um pouco mais – como leitora e escritora –  sobre o que é a literatura, pra que servem os textos, as histórias, a linguagem.

E, por capricho do destino, foi exatamente isso que os livros desse mês me ajudaram a fazer.

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O primeiro finalizado em setembro foi Dez de Dezembro do norte-americano George Saunders. E, olha, que livro! Apesar da linguagem por vezes exageradamente coloquial, e embora tenha sido uma leitura por vezes desconfortável, acredito que esse livro seja um belo exemplo de Literatura, com “L” maiúsculo.

Os contos de George nos transportam para uma dimensão quase onírica, uma viagem dentro da mente e da imaginação dos personagens. Ao longo das narrativas, o autor nos apresenta os devaneios dos protagonistas, além de elementos fantásticos e uma pitada de ficção científica.

Sempre surpreendendo, seja nas atitudes inesperadas de seus personagens ou nos desfechos inusitados dos contos, George traz o coração pulsante das emoções, de forma crua, despojada de roupagens sentimentais ou julgamentos. Apenas o ser humano, que pode ser tão bom quanto ruim, tão racional quanto emotivo, tão cruel quanto inventivo.

“Hahaha, a mente era mesmo uma coisa fantástica, sempre soltando daquelas…”

O meu conto preferido  é “Filhote”, que é igualmente engraçado, perturbador e triste.

Na sequência, foi a vez de reler A Hora da Estrela, obra que completa 40 anos, da minha autora preferida spirit animal, Clarice Lispector. Esse é um daqueles livros que todo mundo deveria ler, em algum momento da vida. E há tanto para ser dito a respeito dessa história, que peço perdão por fazer comentários tão rasos e breves. (Você pode conferir uma ótima resenha desse livro no site do Leia Mulheres).

Macabéa, uma migrante nordestina na cidade grande, é a personagem principal. Ela é o que poderíamos chamar de “alienada”, no sentido em que essa expressão costuma ser amplamente utilizada – uma pessoa desprovida de conhecimentos intelectuais.

De certa maneira, nos compadecemos dela por isso. No entanto, no decorrer de sua história, Macabéa demonstra ser sábia, ávida por autoconhecimento, questionadora e, a despeito de tudo, feliz.

Em meio a todos os revezes que a vida apresenta, Macabéa acredita que tem tudo de que precisa: uma profissão, casa, comida, namorado, amizades. Ela não se enxerga como uma vítima das circunstâncias, não se prende a pensamentos negativos e, ao contrário do narrador que Clarice inventa para contar sua história, não sente que é uma ignorante por não ter conhecimentos.

A releitura de A Hora da Estrela me trouxe alguns questionamentos: se todos vamos morrer, por que nos preocupamos tanto com saberes intelectuais, visto que não trarão vantagem nenhuma nessa hora final? Por que não nos concentramos em conhecer a vida, suas nuances e simplicidades através da vivência e da experiência? Para que serve o conhecimento?   

E, nesse turbilhão, veio também a leitura de Rita Lee: Uma Autobiografia, no Leia Mulheres. Não vou dizer que não gostei nem um pouco do relato autobiográfico da ovelha negra mais famosa do Brasil, pois estaria mentindo. Foi um livro que me decepcionou um pouco, pois, após entrar em contato com livros tão densos, houve certo estranhamento.

Os relatos de Rita são gostosos de ler, engraçadinhos, com linguagem leve e recheados de momentos históricos da música e da cultura brasileira. A cantora conta sobre sua infância, a relação com as drogas, o estupro sofrido quando tinha cinco anos de idade, as rebeldias, os problemas com a polícia e a censura na época da ditadura, a vida em família e no mundo do rock’n’roll. Em dado momento da leitura, me peguei pensando: pra que serve um livro desses, se não para agradar aos fãs?

E essa pergunta me levou à mãe de todas as perguntas: O que é literatura? 

Claro que não tenho a mínima pretensão de trazer respostas definitivas, apenas quero propor (como de costume) um exercício.

Suponha que não houvesse nenhum tipo de parâmetro que definisse os textos como “bons” ou “ruins”. Imagine que todos os livros do mundo tivessem o mesmo peso, a mesma importância. Tente conceber, também, um cenário em que a academia não fosse responsável por ditar o que é ou não é alta literatura.

Nesse contexto hipotético, os livros que trazem qualquer coisa de positiva ou que servem ao propósito do leitor, seriam considerados como bons. Sem importar a classificação.

Um livro autobiográfico de uma das cantoras mais importantes e renomadas do país, embora não tenha uma estética primorosa ou seja repleto de sagazes colocações, é literatura tanto quanto os grandes clássicos. É um registro, um recorte da história, escrito pela própria personagem. E, ainda que não tenha me agradado esteticamente, traz temas relevantes para discussão.

Clarice Lispector, hoje tão aclamada, era pouco aceita na época em que viveu. Assim como muitos autores que consideramos clássicos ou gênios – sem contar, é claro, os poetas e escritores marginais que possuem sensibilidade ímpar, mas que nunca farão parte do “cânone literário”.

Por isso, como escritora, não posso me ater ao que é acolhido por um seleto grupo de intelectuais que sentam em suas cadeiras de arrogância, que dão preferência a temas que, muitas vezes, pouco ressoam com os “reles mortais”. 

Literatura é arte, sim. Sua função, portanto, também engloba expressar sentimentos, causar estranhamento, tentar fazer sentido desse caos que é existir no mundo.

Tomando isso como princípio, todos os livros que li em setembro cumpriram primorosamente sua função. Me trouxeram incontáveis riquezas, combustível para tarde e noites inteiras de reflexão, serviram como dedos invisíveis, me ajudando a desatar os nós que embaraçam a minha percepção do mundo.

Um viva à literatura, em todas as suas formas!


Rita Lee – Uma Autobiografia – Globo Livros, 2016

Clarice Lispector – A Hora da Estrela – Editora Rocco, 1998

George Saunders – Dez de Dezembro –  Companhia das Letras, 2014

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