Abraço do silêncio

Já faz algum tempo que moro aqui, neste pedaço de terra no meio de lugar nenhum. Três anos, quatro talvez. Parei de acompanhar o calendário social assim que cheguei a esta nova morada de pedra, hera e musgo.

Minha programação é regida pela Terra.

Vejo o sol subir e descer, assisto às estrelas formarem uma tapeçaria branca e tento discernir se é segunda ou terça-feira, embora isso não tenha importância para mim. Aqui, a vida não depende do relógio, mas dos movimentos impulsivos e sincronizados do planeta em seu estado bruto.

Meço o tempo de acordo com as necessidades físicas. Tudo neste meu universo recém-descoberto é intuitivo. Os cachorros latem apenas quando estão com fome ou ouvem algum ruído indecifrável, uma sinfonia que me traz segurança e conforto.

Eles me fazem companhia, mesmo que às vezes eu me esqueça de sua presença. Porque quando se vive no meio do nada, as carências costumam ser menos amplificadas, a natureza já é, em si mesma, uma satisfação.

A solidão preenche todos os espaços e, pela primeira vez em anos, não sinto o peso de estar apenas comigo. Acolho a epifania que me diz, em pequenas doses diárias:

Sentir-se só não é estar fisicamente isolado.

Quando decidi abandonar a civilização, a solidão me assolava. Havia dias em que as paredes eram minhas únicas cúmplices e ouvintes – e eu precisava falar com alguém, só Deus sabe o quanto!

Era impossível ter um animal de estimação, pois o tempo era escasso. Eu navegava sem rumo em meio ao mar de corpos que transitam nas avenidas, nos ônibus, trens, parques, como ondas de gente isoladas em suas próprias ilhas. Multiversos que nunca se tocavam, sem nenhuma conexão capaz de instigar uma centelha de calor.

O toque se resumia a meros esbarrões ao acaso no ônibus ou no trem. Às vezes, a encontros desesperados dos quais não consigo me recordar, não por terem sido ruins, mas pela dor que evocam. Tentar preencher a solidão com as carências alheias é tentar acondicionar água dentro de uma peneira.

Na floresta urbana, éramos todos furados, incapazes de reter o que nos sacia. Por isso, tão vazios.

Os sortudos falavam sobre suas conquistas, seus filhos, carreiras, passeios. As fotografias belas e repletas de sorrisos esfregavam na cara dos solitários a torta de merengue podre do fracasso. Meu único sucesso era o profissional – mesmo assim, bastante questionável – e as imagens de perfeição e felicidade dos outros feriam minha alma.

Eu me sentia indigna. Ganhava muito dinheiro, mas não me conectava com ninguém por mais de um dia. Todas as relações que travava eram sintéticas, virtuais ou ligadas ao trabalho.

E essas conexões superficiais me afastavam mais de quem eu era.

E, para minha tristeza – ou felicidade, afinal, antes tarde do que nunca – só comecei a vislumbrar quem sou ao completar cinco décadas de vida.  Logo após meu aniversário, perdi o emprego ao qual me dediquei durante vinte e cinco longos anos, no único lugar onde trabalhei.

Foi como se tivesse perdido a razão de viver.

Passei alguns dias em choque, sem saber para onde ir. A sensação de liberdade se misturou ao desespero em relação ao futuro. Para o mundo (e para o espelho) eu estava derrotada. Cinquenta anos, desempregada, solteira, sem filhos. Pelo menos, o fundo de garantia foi generoso, quase igual ao tamanho do fundo do poço.

Porém, ao contrário do que se imagina, dinheiro não compra paz de espírito.

Meu primeiro impulso foi chorar, me recolhendo ao luto do fim de uma era. Os colegas diziam logo você encontra outro trabalho, mas no fundo eu me perguntava se ainda queria essa vida tão estressante. Eu costumava sonhar com férias, um lugarzinho isolado e remoto, paz e tranquilidade, cachorros, vinhos, livros, uma horta, montanhas. Uma vida sem pressa. 

Percebi, então, que naquele aniversário, o presente mais importante que ganhei era intangível: a possibilidade de realizar vontades adormecidas. De passar horas contemplando a vida em pequenas doses, sem nunca olhar para ponteiros, calendários, agendas. Seguir o ritmo preciso e equilibrado da vida orgânica. 

Decidi viajar. Fazia tanto tempo, que precisei comprar malas novas. Entrei na primeira agência de turismo que encontrei e agendei quinze dias para a cidadezinha de Wengen, na Suíça. Ao chegar lá, minha empolgação se transformou em lágrimas, tamanha a beleza do lugar, cercado por montanhas, verde e casas dignas de um quadro.

Ainda assim, os confortos modernos me inquietavam. Apesar de não ser barulhenta, Wengen é uma cidade movida pelo turismo. Voltei para casa decidida a não encarar mais destinos óbvios como aquele. Eu ia descobrir o meu próprio lugarejo.

Não precisei de muito para encontrar um pedaço de terra para chamar de meu, num dia ensolarado de outono. Sem hesitar, saquei o dinheiro que recebi após a demissão e não olhei para trás.

A princípio, o medo me invadiu. Mas, o que eu tinha a perder?

Até a família, que antes passava longe do meu apartamento elegante, passou a me visitar com mais frequência, agora que meu lugar é um refúgio de paz e delícias. Quando estão todos aqui, me sinto mais solitária que na minha própria companhia. É como se me transportasse de volta ao sentimento de não pertencer.

Mas eu pertenço. A mim, a essa terra, às pedras que me confortam nas noites de frio e calor. Pertenço, pois esse era o propósito escondido nos confins da minha alma: viver no campo, para o campo e de seus frutos.

Hoje, mal sei em qual dia da semana estamos. Mas sei que as amoras começaram a amadurecer, e preciso colhê-las amanhã antes do sol nascer. Sei da couve que cresce mais verde que o horizonte que me rodeia. Das ervas, dos temperos, da mandioca e dos três tipos de laranja que saboreio todos os dias.

Sei também do silêncio, essa companhia agradável, que se retira apenas para dar lugar aos assovios dos pássaros, aos latidos preguiçosos dos meus cães, ao farfalhar das árvores que cantam com a brisa.

Já faz alguns anos que, na solidão, o abraço do silêncio nunca me abandona. 


Imagem: Unsplash

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