Leituras de Agosto – Clássicos, best-sellers e reflexões sobre a dignidade

Esse post está um pouco atrasado, eu sei. Em agosto as leituras foram muito marcantes, por isso precisei de um tempo a mais para digeri-las. E nesse mês estou tão imersa no que estou lendo, que tive dificuldade de sair dos livros para criar minhas próprias palavras e histórias.

Sigo firme e forte nas  metas de leitura. É claro que tem dias ou semanas em que deixo a desejar, dependendo do cansaço e da agenda corrida que assumo porque não consigo ficar parada (aliás, tá aí um ótimo tema para um post!). E tem a preguiça também, porque não sou de ferro.

Participar de três clubes de leitura é um fator que me auxilia a perseverar neste desafio de ler mais. É uma maneira excelente de exercitar o comprometimento, aprofundar o tema do livro, trocar opiniões e ideias e crescer intelectualmente e como indivíduo.

Em agosto, três livros se destacaram entre as minhas leituras: “Memórias da Casa dos Mortos“, de Dostoiévski; “Um Teto Todo Seu“, da Virginia Woolf e “O Segredo do meu Marido“, de Liane Moriarty – esse último, uma surpresa deliciosa.

leituras de agosto

“Um Teto Todo Seu” é um livro que eu poderia considerar como hors concours, por ser uma leitura obrigatória – não só para mulheres, mas para tod@s. Nesse ensaio, Virginia Woolf fala sobre a invisibilização da mulher na ficção, tanto como personagem quanto como escritora. Ela também elenca os obstáculos que a mulher enfrenta dentro do meio acadêmico e na vida em geral (e que, infelizmente, continuam a existir desde os anos 20, quando o livro foi escrito).

A autora faz uma espécie de tour pela história do mundo e da literatura, apontando possíveis motivos pelos quais os escritos das mulheres não são valorizados. Como solução, ela indica a independência financeira, intelectual e afetiva das artistas. Fiz uma resenha um pouco mais completa para o site do Leia Mulheres (que você pode ler aqui) e da qual retiro um trecho que acho crucial:

A solução para que a mulher produza ficção de qualidade, segundo Woolf, é ter uma renda estável e um cômodo onde possa escrever sem interrupções. Através do empoderamento financeiro, sem depender dos homens para se sustentar, a mulher pode se libertar também das amarras do pensamento e escrever o que realmente deseja.

“(…) dê-lhe um espaço, um teto todo seu e quinhentas libras por ano, deixe que ela diga o que lhe passa na cabeça e deixe de fora metade do que ela hoje inclui, e ela escreverá um livro melhor algum dia”.

Virginia fala muito sobre dignidade, que, coincidentemente, é um tema abordado por Dostoiévski em “Memórias da Casa dos Mortos“.

Literatura russa é uma viagem de imersão.

E Dostoiévski é capaz de nos transportar com maestria à sociedade prisional do século XIX – que ele mesmo conheceu de perto quando foi preso por motivos políticos – narrada pelo personagem Alexander Petrovitch.

Ao longo do livro, o autor descreve as peculiaridades de cada um dos presos com quem Alexander entrou em contato durante seu tempo na prisão, e como essas características individuais são (ou não) influenciadas pelo meio.

Essa foi uma leitura bem difícil, não só por causa do choque cultural e de época, mas também por ser uma radiografia do comportamento humano sem grandes julgamentos. Como se Dostoiévski gritasse “todos merecem ter dignidade” – e isso vai muito além de um lugar para dormir, comida ou roupas.

Fiquei durante dias remoendo o que significa essa tal dignidade, afinal.

Best-sellers também podem nos fazer pensar

Para descansar um pouco a mente, resolvi ler um livro que, à primeira vista, seria leve, como os best-sellers nos prometem. Doce ilusão. “O Segredo do Meu Marido”, de Liane Moriarty, é um livro repleto de temas profundos e que me fizeram questionar ainda mais a vida.

A história é mais ou menos assim (estou economizando nas palavras para não dar muito spoiler):

Cecília encontra uma carta escrita pelo marido, endereçada a ela, mas que deveria ser aberta apenas caso ele morresse. É claro que a curiosidade fala mais alto e Cecília lê a carta, descobrindo que seu amado John-Paul não é quem ela imagina. A partir daí, outros personagens e acontecimentos se cruzam e culminam num final surpreendente.

Esse livro me deixou três lições principais: a vida perfeita de propaganda de margarina não existe; se uma pessoa comete um crime hediondo, tudo pode ser esquecido se ela tiver um bom nome (aliás, essa questão das diferenças de classes sociais – até dentro da prisão – também é muito abordada por Dostoiévski); a vida sempre arranja uma forma de nos mostrar que todas as nossas certezas não passam de mentiras.

Tão distantes, mas tão próximos

Achei interessante o fato de esses três livros tão diversos abordarem temas que dialogam entre si. Quando Virginia fala sobre mulheres e ficção, ela toca em questões como o impacto da pobreza nas nossas vidas, injustiças sociais e manutenção de privilégios. Ao passo que, para Virginia, a dignidade da mulher (e da classe operária, em geral) está relacionada à estabilidade econômica e à liberdade de pensamento,  Dostoiévski vai além e coloca a dignidade como algo imaterial, exclusivo a cada um de nós e que independe dos bens que temos.

Os presos, personagens das Memórias de Dostoiévski, tentam a todo custo manter um ar de normalidade naquela situação atroz em que se encontram, como se quisessem se agarrar àquilo que os torna humanos ou eles mesmos. O narrador se mostra surpreso por saber dos crimes de alguns de seus convivas – os piores assassinos tinham aspecto sereno, eram respeitosos e corteses.

As aparências são mesmo traiçoeiras!

Em contrapartida, Liane Moriarty apresenta personagens capazes de acobertar crimes cometidos por seus entes queridos, de abrir mão de suas crenças, da dignidade e da própria felicidade para manter as aparências aos olhos da comunidade.

Nessa sociedade que nos cobra felicidade, vidas perfeitas e sorrisos constantes, será que às vezes também não agimos assim?

Enfim, acho que deu para entender por que demorei para escrever sobre as leituras desse mês.  Quando as reflexões são intensas, a gente se perde no tempo! E eu poderia escrever ensaios intermináveis sobre os temas desses três livros…

Mês que vem eu volto com as leituras de setembro, que também estão despertando emoções e contemplações poderosas.


Memórias da Casa dos Mortos, Fiódor Dostoiévski, Editora Martin Claret, 2016

Um Teto Todo Seu, Virginia Woolf, Editora Tordesilhas, 2014

O Segredo do Meu Marido, Liane Moriarty, Editora Intrinseca, 2014

 

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