Antes da primavera

Manhã de setembro. A escritora se acomoda em sua cadeira não-tão favorita, ajusta a tela do computador e começa a contar uma história qualquer, sem era uma vez.

Um ruído a traz para a realidade – alguém deve ter tropeçado e caído no andar de cima. Ela estica o pescoço e olha para a sala. O susto a derruba da cadeira.

Há um homem parado no centro do cômodo, apalpando os bolsos de seu traje excêntrico, surpreso por estar ali. A escritora permanece sentada na mesma posição da queda, calada, boquiaberta. O intruso dá alguns passos em sua direção e oferece ajuda para erguê-la.

– Não tenha medo! Devo ter parado aqui por algum motivo. Venha, vamos conversar.

– Quem é você? De onde surgiu? Saia já da minha cas…

– São perguntas pertinentes, é claro. Meu nome é Lorn, sou um mago de Rijkin – mas creio que esse nome não signifique nada aqui em seu mundo. 

– Só pode ser brincadeira. Acho que bati a cabeça!

– Sou tão real quanto essas paredes, cara amiga. 

Lorn é um típico bruxo de histórias de fantasia. A túnica marrom, o colete de veludo cor de vinho, o chapéu pontudo, a barba imensa, o cajado de madeira. A escritora solta uma gargalhada, certa de que aquilo não passa de um truque da imaginação, e resolve entrar no jogo que sua mente criou.

– Está bem, senhor… Lorn? O que veio fazer no meu mundo?

– Bem…. eu… – O mago apalpa os bolsos mais uma vez e encontra um objeto que a escritora desconhece. Analisando o mostrador de vidro, ele continua a explicação – Em tese, eu deveria estar em Brinvil. Suponho que não seja esse o nome dessa cidade, correto?

– Ahan. – A escritora revira os olhos, prestes a dar as costas ao homem imaginário e continuar seu trabalho.

– Não vou fazê-la perder mais tempo. Diga o que desejas e te darei de presente, pelo incômodo que causei.

O mago sorri, empunhando o cajado na direção da jovem incrédula.

– Ok, moço. Quero saber qual é o sentido da vida. 

Sem pestanejar, o mago agita as mãos, sussurra algumas palavras ininteligíveis e bate o cajado no chão. A escritora não sente nenhuma diferença, encolhe os ombros e conclui:

– Sabia que você era uma fraude.

Lorn sorri com malícia e se despede, tirando o chapéu e sumindo como um holograma desfeito.

——————

aaron-burden-30648

Mais uma manhã de setembro. A escritora acorda sentada numa folha de árvore. Sem sustos ou espantos. Ser lagarta é tão natural quanto ser mulher.

Sente um impulso incontrolável de se pendurar ali mesmo, tecer uma casa protetora e aguardar sua transformação.

——————

O que falta para sair do casulo, querida lagarta?

Ainda é inverno, mas o clima é de verão. Sinto o dia arder nas antigas retinas, o céu de um azul constante, a chuva uma amiga que deixou saudades.

As estações se fundem em dias mistos – calor no sol, frescor na sombra, à noite o sopro morno de um planeta indeciso. A falta de definições permeia a existência – nada é fixo. Não há mais inverno absoluto ou verão total. A paisagem ganha um tom acinzentado, o único termo possível é o meio.

Perdemos a primavera e o outono, temporadas intermediárias que deveriam nos preparar para o rigor das temperaturas.

Tudo é extremo; e, quando há concessões, o relativismo nos engole.

A vida me confunde. Sou um aglomerado em constante mutação. De dúvidas monstruosas sobre o eu, sobre Deus, o universo, a vida. Não raro, um pensamento me invade: nada é real. Nem eu, nem Deus, nem o universo. Somos ilusões de uma realidade virtual.

Se tudo é ilusório, permito que a vida se misture à fantasia. Deixo as  imagens brotarem, compondo cenas que fazem meu coração sorrir.

Gosto de imaginar um ambiente com árvores em abundância. O aroma do musgo batendo forte nas narinas, a terra se desfazendo em torrões sob minhas botas rudimentares. Um cenário simples, entrecortado por luzes de vaga-lumes, estrelas e fogareiros.

Nesse reino inventado, só há espaço para o que refresca a alma.

Evito me perder em definições de alma, arte, beleza. Se me faz bem e traz frescor de mato, ou calor suave e reconfortante, então  vale a pena. Abraço o que julgo como bom. 

Nessa ânsia de fazer o bem, para mim e para o mundo, troco os pés pelas mãos. Caio em clichês. Esqueço do foco, do ritmo que me conduz.

Quem és tu, singelo projeto de mariposa?

Que pergunta petulante! Que me persegue desde a juventude, me faz tropeçar pelo caminho, buscar atalhos e esquecer tanto do ponto de partida quanto do destino. Não sou idosa, mas enxergo na pele flácida as vivências desnecessárias – hematomas indeléveis da alma.

Eu as julgo sem necessidade, pois tenho medo da imperfeição. São manchas no registro da vida, documento que desejo ver imaculado.

O sonho de ser borboleta delicada e graciosa é confrontado pela realidade: sou mariposa, grosseira e robusta. Forte, sim, pois sobrevivi à fase de lagarta. Agora, as asas pedem licença para voar, mas não terei uma acolhida calorosa. Serei conhecida como aquela que persegue a luz, de forma irracional, e não como uma sublime operária da natureza.

“E sinto a bruxa presa na zona de luz” *

O medo de passar o resto da vida às voltas com a luminosidade ilusória é gritante. Sou a bruxa e também a zona de luz.

Qual é o sentido da vida, ó nobre membrana que me envolve?

Olho para a pele viscosa e acolhedora que me abraça nesse processo de transição. Basta esticar a unha afiada, e ela se rompe. Esse é o esforço primordial necessário para sair daqui e, enfim, cumprir a missão de mariposa que, para meu espanto, também é polinizar.

Para fecundar a terra é preciso compromisso e resistência, e não graça e delicadeza.

Não quero sair daqui ainda. Creio que o mago me transformou em lagarta para que eu descubra alguma coisa – o que foi que pedi para ele? O sentido da vida! Essa busca incessante, a zona de luz, o círculo que nunca se completa.

Tenho medo de permanecer aqui por toda a eternidade sem uma epifania. Perder as chances. Não sentir o vento no rosto durante um voo pela mata. Não cumprir a missão de trazer frutos ao mundo.

Mas, e se eu sair daqui sem saber o sentido de tudo?

A primavera bate à porta. Não há mais tempo para dormir.


* Verso do poema A Bruxa, de Carlos Drummond de Andrade.

Imagens: Unsplash e Pexels

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s