A cara do pai

Desde pequeno, Tiago estava acostumado a ouvir da família e dos amigos: você é a cara do seu pai. Na infância, isso o fazia vibrar. O pai, Cristiano, era o cara mais incrível que ele conhecia – sempre montando brinquedos mirabolantes, inventando aventuras, sempre sorrindo.

Naquela época, Tiago analisava o espelho minuciosamente. Buscava as mínimas semelhanças com o rosto do pai, concentrava-se naqueles traços os quais ostentava com orgulho – os olhos grandes e escuros, o nariz meio torto, os lábios superiores mais finos, a curvatura da orelha direita e as sobrancelhas espessas e retas.

Quando tinha algum questionamento, corria para apresenta-lo a seu pai, que era o sábio e o herói do seu universo ainda em expansão. Era ele quem ensinava para o filho os mistérios do mundo: como nascem as estrelas, de onde vêm os pingos da chuva, para onde vão os cães quando fecham os olhos para sempre.

Mas, com o passar dos anos, as dúvidas que Tiago apresentava a Cristiano se tornaram cada vez mais complexas. O pai passou a evitar o contato com o filho, chegando do trabalho tarde da noite, viajando aos finais de semana, levando serviço para casa, criando barreiras mais altas que as pequenas pernas do filho.

Tiago sentia que, na vida do pai, não havia mais espaço para ele.

Sentia-se tão esquecido que os mimos de Maria, sua mãe, não eram suficientes para consolar seu jovem coração. Cristiano fazia tanta falta para o filho quanto Diego, seu melhor amigo que mudou de escola quando estavam na primeira série.

Aos treze anos, Tiago fugiu de casa. Correu para o parque da cidade com a mochila recheada de salgadinhos e revistinhas dos X-Men. Dormiu num banco de madeira frio, a noite pairando sobre ele como um vigia. Quando o sol apareceu, os guardas municipais o encontraram e o levaram para sua mãe, que o abraçou por dez minutos sem soltar.

De volta a casa, a notícia de que o pai os havia abandonado atingiu Tiago como um meteoro. No mesmo dia em que o filho fugiu, antes que seus pais soubessem deste fato, Cristiano confessou à Maria: estou indo embora; vou me casar com a Gisela da contabilidade.

Maria tentou contornar a própria dor para revelar a notícia a Tiago, as lágrimas desenhando linhas quase invisíveis em seu rosto. O garoto, sem chorar, jurou para a mãe que jamais iria abandoná-la, que cuidaria dela até o fim de sua vida. Eles se abraçaram e Maria desabou no colo adolescente de seu filho único.

Era o destino – eles contra o mundo, um clichê que o garoto nunca imaginou vivenciar.

Tiago passou boa parte da juventude amargurado e fechado em seus rancores. Dividia o tempo entre os estudos e o trabalho, entregando nas casas e lojas dos clientes os doces e salgados que a mãe produzia. Ao lado dela, construiu uma vida simples, tranquila e farta. O pai não fazia tanta falta, no fim das contas. Era apenas uma sombra esquecida no baú da memória.

Viajavam uma vez ao ano para países estrangeiros com as economias do pequeno negócio. Parcelavam as passagens em dez vezes no cartão e se hospedavam em hotéis sem muito luxo. Eram como melhores amigos, e Maria sempre estava disposta a responder as dúvidas do rapaz.

A mãe se esforçava, mas não conseguia ter respostas tão boas quanto às do pai. Tiago nunca reclamou.

Aos vinte e quatro anos, conheceu uma mulher.

Apaixonou-se por um breve período de seis meses, mas tratou de interromper o relacionamento logo no início. Sempre que se aproximava da mãe, mulher tão sofrida e dedicada, sentia-se culpado até pelo menor pensamento de abandoná-la.

Assim, Tiago seguiu a vida por mais dez anos, quando, de súbito, a mãe faleceu. Sem dizer adeus, sem dar ao filho a oportunidade de se acostumar com sua ausência. Ele teria que aprender a ser órfão mais uma vez.

Mas o pai não estava morto, apenas metaforicamente.

No velório de Maria, lá estava ele, com lágrimas sintéticas e aquele rosto tão familiar, que Tiago não conseguia esquecer. Era mesmo a cara do pai, fato do qual se recordava sempre que tinha que encarar o espelho.

Não teve coragem de cumprimenta-lo. Todos os parentes enfatizavam a Tiago sua semelhança com o pai, e ele se envergonhava, tentando evitar a troca de olhares. No fundo, queria muito cruzar a sala, sentar ao lado de Cristiano e vomitar todas as palavras guardadas por tantos anos.

Seria inapropriado fazer isso ali. Talvez em outra ocasião.

Tiago se esqueceu da presença do pai na hora do enterro. Os amigos e parentes formaram um círculo protetor ao seu redor. Todos prestaram suas últimas homenagens e partiram do cemitério logo que o padre disse as últimas palavras.

Cabisbaixo, Tiago buscou consolo nas ruas da cidade. Caminhou durante muitas horas, revivendo os bons momentos que passou com a mãe. Terminou o percurso na praça em que costumava contemplar o pôr-do-sol com ela aos domingos. Sentou-se no banco e desatou a chorar, o corpo entristecido acompanhando o compasso das lágrimas.

Perto dali, Cristiano espreitava atrás de uma árvore. Tinha seguido Tiago desde o cemitério, pensando numa maneira de abordá-lo. Ao vê-lo entregue ao desespero, desejou poder consolá-lo. Sentar ao seu lado, toma-lo nos braços e responder suas dúvidas, como quando era apenas um garotinho curioso.

Tarde demais – Cristiano sabia que não teria respostas para as perguntas do Tiago adulto. Como poderia? Logo ele, tão perdido, tão solitário. Assolado pelo carma, que se concretizou quando Gisela decidiu deixa-lo há algumas semanas.

Bem-feito para mim, pensou, tossindo um sorriso envelhecido.

Continuou ali, velando o filho à distância. A cada vez que Tiago virava o rosto, enxergava a si mesmo num espelho estranho, capaz de transportá-lo para muitos anos no passado. Definitivamente, ele era a cara do pai. Até nas lágrimas, que jorravam densas e inesgotáveis.

Incapaz de ir ao encontro de Tiago, Cristiano virou as costas para a praça, abandonando o filho mais uma vez. Soprou um desejo ao vento, de que suas semelhanças fossem apenas físicas.


Imagem: Annie Spratt, Unsplash

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