Sinfonia caótica

Cinco ruídos distintos se fundem e batucam na minha cabeça. Durante todo o dia. Todos os dias da semana.

Eles já fazem parte da paisagem sonora, como um quadro velho pendurado em uma parede velha, que mal é notado pelos moradores de uma casa. Ou uma árvore nunca podada. Ou o ruído estático de uma geladeira em seus picos de funcionamento – para traçar uma comparação menos visual, e mais auditiva.

Morar na cidade tem dessas coisas. Principalmente em um bairro movimentado como o meu. Sempre tive a sensação de que a vida no interior seria tranquila, com apenas o som dos passarinhos trinando pela manhã e ao fim da tarde. Claramente, eu estava equivocada.

Porque aqui, é interior e cidade grande – embora seja mais notável a presença de seus elementos negativos que a dos positivos.

É como se a cidade reunisse o pior dos dois mundos.

A poluição sonora aqui é intensa, especialmente das oito às cinco. À noite, por graça de todos os seres divinos, a sinfonia formada pela música da geladeira, do ventilador e dos cães solitários reina em meio ao vazio e ao breu, por vezes permeado por buzinas e gritos desconexos dos boêmios.

A noite é quando os ruídos também vão dormir.

Basta amanhecer, e mais uma vez lá estão eles, estes sons tão familiares, mas nem um pouco imperceptíveis. Acho que nunca havia tentado distingui-los até este momento, quando, subitamente, um dos barulhos mais intensos simplesmente cessou. A sensação que se seguiu foi um misto de alívio e estranhamento – para onde foi aquilo que pesava dentro do meu crânio?

Ao que tudo indicava, era uma ferramenta de serrar alguma coisa. Consultei a sabedoria popular e a internet para descobrir o nome daquilo que me causa desconforto diariamente: uma Makita.

Na verdade, esse é mais um caso de metonímia, pois Makita é o nome da empresa que fabrica diversos tipos de ferramentas elétricas, como serras, parafusadeiras e outros dispositivos barulhentos. É engraçado como um nome tão inofensivo pode causar tanta irritação.

Durante exatos vinte e cinco minutos, a ausência daquele som repetitivo permitiu que meus ouvidos percebessem os outros instrumentos que compõem a poluída trilha sonora dos meus dias.

Uma melodia desconexa e sem partitura, que toca como uma música de elevador ou o rádio de uma sala de espera. Constante e inoportuna.

Cinco bipes agudos seguidos, provavelmente do alarme de ré do caminhão de lixo. O som de jatos d’água do lava rápido da esquina. As rodas apressadas dos carros, motos, ônibus que passam na avenida. Os gritos das crianças do condomínio e o som da bola quicando na quadra de futebol.

Juntamente com o som da Makita, estes são os cinco ruídos que ressoam na minha cabeça, dia após dia.

Ao fundo, quase como um sussurro débil, os passarinhos cantam. Eu não os classifico como ruídos, pois a música que eles produzem é tão singela e agradável, que não me incomoda. É mais como um alívio para os ouvidos castigados.

As andorinhas voam baixo, bem perto da minha janela, numa dança alegre e otimista, louvando o dia ensolarado. O bem-te-vi grita do topo do prédio – daqui do quarto, consigo enxergá-lo empoleirado na velha antena de tevê.

Quando, enfim, eu estava conseguindo apreciar os diferentes trinados e cantorias como se não existissem outros ruídos, como se a natureza fosse a única rádio disponível na minha frequência, a serra sonora cortou as ondas invisíveis com frieza.

Uma frieza tão precisa e arrogante, tão barulhenta que até os pássaros fugiram de seus locais de repouso.

Despertei forçosamente daquele estado onírico, que não era um silêncio propriamente dito, muito menos uma paz absoluta, pois os outros quatro ruídos permaneceram em ação durante a pausa da Makita. Seu retorno apenas confirmou que o grito desesperado daquela serra – cortando algo provavelmente muito duro – era o que mais me atormentava ao longo do dia. 

Coloquei os fones de ouvido e escolhi uma playlist com músicas tranquilas de meditação. Foram instantes de conflito – se eu aumentasse o volume suficientemente para sobrepôr a melodia agonizante da Makita, prejudicaria meus ouvidos.

O ruído ultrapassava as barreiras dos fones de ouvido e se intrometia nos acordes dos violões, cantando como vozes de apoio nos refrões da minha playlist.  Troquei o estilo musical por algo mais potente, mas isso também me impediu de concentrar tanto quanto os sons do lado de fora.

Enquanto as canções se esforçavam para me alegrar e afastar a minha irritação, eu divagava sobre como seria interessante um quarto com isolamento acústico. Como quando eu trabalhava em São Paulo, naquele escritório de consultoria e não escutávamos um único pio do lado de fora. 

Era estranho, como estar mergulhada no mar com os ouvidos submersos – embora pudéssemos escutar uns aos outros perfeitamente. Apesar da ausência de barulhos incômodos, ficar o dia todo com as janelas fechadas me causava uma certa claustrofobia, precisamente como ficar debaixo d’água durante muito tempo.

Lembrei-me de quando morava com meus pais e trabalhava na área coberta do quintal, nos dias de sol. Eu digitava no meu teclado observando as plantas, mergulhada no silêncio de um bairro tranquilo e residencial.

Eu poderia viver numa casa com quintal, num bairro mais afastado. Abrir mão de algumas regalias, como ter dezenas de agências bancárias, cinco padarias, médicos, academias, lojas, restaurantes e um shopping center na avenida perto de onde moro.

Mas, será que eu conseguiria viver assim?

Gosto de pensar que sim, mas estou tão acostumada com esta sinfonia desconexa e desafinada, que talvez fosse difícil me adaptar.

Como quando me mudei de Santos para Jacareí. Saí de um centro comercial para um bairro pequeno de uma cidade interiorana. O silêncio à noite era tanto, que eu não conseguia adormecer.

Os cinco ruídos distintos que martelam meus tímpanos diariamente se calam às cinco da tarde. Transformam o dia em crepúsculo e anunciam a noite que se aproxima.

Pensando bem, esses ruídos não são assim tão caóticos.

Eles já fazem parte do cenário sonoro da minha vida, são lembretes de que o dia amanheceu. E, quando eles silenciam, é sinal de que já posso descansar – inclusive os meus ouvidos.


Imagem: Ahmad Dirini

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