Nas esquinas da capital da loucura

Um homem está sentado sobre um pedaço de papelão em frente a uma lanchonete na Avenida Paulista. O cobertor surrado pendurado em suas costas ostenta manchas de gordura, lama e fluídos desconhecidos. Os cabelos grisalhos envolvem sua cabeça num emaranhado de lã grossa e suja – sua auréola profanada de santidade decadente.

Seu nome é uma incógnita, sua origem é o mundo inteiro.

Mais parece um bicho, diz por trás de seus óculos enormes uma senhora que passa por ali. Atrás dela, seguem uma mala de rodinhas e um rastro de perfume Chanel no. 5.

O homem escuta a ofensa e se levanta, como se ganhasse vida subitamente, gritando palavras num idioma ininteligível. Uma mistura de russo, grego e inglês, um trava-línguas em som gutural cuspido no rosto de quem tenta se esquivar de sua existência inconcebível. É um profeta do apocalipse que está prestes a acontecer na próxima esquina.

Suas palavras não são religiosas. Os transeuntes não as compreendem, sentem medo, colocam os fones de ouvido, protegem-se contra os perdigotos com bolsas e casacos. No cenário da calçada suja, o homem-bicho mexe na lapela invisível da camisa puída, ajustando um microfone imaginário que propaga sua palestra com muita clareza.

No palco da sua mente, a plateia prestigia sua eloquência com aplausos infinitos. Ele recita poemas eruditos, versa sobre os vícios e preconceitos da humanidade com holofotes reluzentes enfatizando a elegância de seu terno de lã italiano fictício e de sua barba bem aparada inventada – um espelho invertido da realidade.

A rua não é mais aquele curral da agonia de todos os dias. Naquele instante, ela é sua consagração. Como um maestro regendo a orquestra dos carros, ele ergue os braços e segue gritando suas verdades.

O funcionário da lanchonete, trajando avental e quepe brancos, se inquieta com a situação. Seu nome é Marcos, e ele o carrega diariamente, escrito em letras vermelhas numa plaquinha amarela pendurada no jaleco.

Embora não seja o proprietário daquele cubículo de trinta metros quadrados, Marcos se sente responsável por tudo o que acontece naquele pedaço de rua. É um dever que extrapola o profissionalismo. Manter tudo em paz e em ordem para o patrão é um trabalho moral, é a garantia de seu emprego.

Atrás do balcão, seus pés ensaiam um salto mortal na direção do mendigo – se é que é permitido classificar tal homem nesta categoria, já que ele não pede nada, nem dinheiro, nem atenção. O que ele pede é cautela, coisa que Marcos desconhece.

Abanando um pano de prato, Marcos grita na direção do personagem ensandecido sai daí, chispa, seu infeliz! O homem desalinhado ignora o enxovalho distante do balconista e continua a se dirigir aos passantes com seu idioma codificado.

Marcos está decidido a não aturar tamanho desaforo. Nas prateleiras sob o balcão, ele procura algum objeto para atirar no intruso e interrompê-lo. Talvez não de forma tão violenta – a possibilidade de machucar um ser humano o aflige.

Além do mais, as implicações legais que isto poderia causar são tão ameaçadoras quanto o próprio espetáculo grotesco encenado pelo mendigo. De qualquer forma, precisava colocar um fim naquilo.

Pois agora, Marcos não o enxerga mais como um mero habitante marginalizado daquele cenário tão diverso da Avenida. O que o funcionário da lanchonete vê é uma ameaça, um homem descontrolado, com os olhos em brasa, que se aproxima cada vez dos transeuntes. É uma receita para o desastre, que está sendo escrita bem na sua frente. 

Enquanto Marcos transita por este conflito entre enxotar o homem ou voltar aos seus afazeres e ignorá-lo, as cenas se desenrolam. Nas esquinas que contornam a calçada da lanchonete, os carros cortam as ruas como facas cegas,  riscando o chão em traços invisíveis de pressa. Os pedestres desviam deles como podem, eles próprios numa constante corrida para trapacear o relógio.

As cores dos automóveis, os semáforos, o cinza do asfalto, dos prédios e dos sorrisos, tudo se mescla numa grande massa indistinguível. Apenas três figuras se destacam nesta tapeçaria sem vida: Marcos, o mendigo e a madame com os óculos escuros gigantes, que puxa sua elegante mala de rodinhas nas costas.

Ela agora está parada na esquina oposta de onde o mendigo conduz sua performance. Com a mão trêmula, ela tira os óculos e os coloca no topo da cabeça como uma tiara. Com elegância, ela se abaixa na direção da mala e a abre. Não há nada ali, exceto por um frasco de vidro grosso e comprido, com uma tampa preta.

Ninguém está prestando atenção aos movimentos daquela distinta senhora. Todos os olhares estão voltados para a outra ponta da calçada, para o mendigo e seu sermão sem sentido. As pessoas não fogem mais – ele se tornou uma celebridade instantânea. Com os celulares a postos, um grupo de cinco  jovens engravatados registra o espetáculo com postagens nas redes sociais.

Marcos sente-se ultrajado. Passa por baixo do balcão com uma vassoura nas mãos, pronto para resolver aquela situação em definitivo.

O suposto mendigo interrompe seu discurso ao reparar na mulher parada na outra esquina. Seus olhos se arregalam em espanto. Ele grita apocalipse e começa a correr com passos largos, os braços dobrados acompanhando o movimento do corpo com precisão. Marcos segue em seu encalço, tentando agarrá-lo pelo braço.

A senhora volta a vestir os óculos escuros. Na mão direita, o frasco misterioso. Enquanto ela se prepara para abrir a tampa, o mendigo se aproxima. Ela levanta o rosto na direção do mendigo e de Marcos, que correm a passos sincronizados.

O frasco está quase totalmente destampado. Ao perceber isso, o mendigo salta na direção da mulher e a derruba no meio da rua, em cima da faixa de pedestres. Marcos deixa a vassoura cair no chão e corre mais depressa para tentar salvá-los do caminhão que avança a toda velocidade. Ele tropeça a poucos centímetros do final da calçada, seu corpo agora uma bala disparada sobre os dois outros no asfalto.

Os três permanecem imóveis – o mendigo e a mulher mexem apenas os braços, lutando pelo controle do frasco de vidro. Marcos sente o gosto do sangue invadindo a garganta. Os pedestres os cercam, apontando os celulares para a cena da inevitável catástrofe.

A rua é invadida por um silêncio que dura dez segundos, quebrado pelo som de vidro e ossos estilhaçados. Marcos, o mendigo, a senhora, todos eles uma única massa disforme de sangue, humanidade e loucura.


Imagem: Pinterest

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