Culpa ou responsabilidade – o que você está sentindo?

Você sente que poderia fazer mais? Sente que deveria estar se dedicando com mais empenho a alguma atividade? Você acredita que alguma atitude sua prejudicou alguém ou infringiu alguma lei da sociedade ou algum valor que você cultiva?

Se você respondeu sim a qualquer uma das perguntas acima, acredite: você não está só. Todo mundo, em algum momento, sente culpa por ter feito algo que não deveria, ou é acometido por um senso de responsabilidade que pesa nos ombros.

Dia desses, minha terapeuta me disse que, na maioria das vezes, nos sentimos culpados equivocadamente. A sensação de culpa costuma aparecer quando fazemos algo que, no nosso íntimo, sabemos que é errado – seja com relação aos nossos valores ou com relação às convenções sociais, ou mesmo no âmbito da lei. Esta culpa também nos aflige quando magoamos alguém ou quando fugimos de algum propósito que fazemos para nós – como uma dieta ou uma rotina.

Mas será que estamos sentindo a culpa, em si, ou apenas nos sentindo responsáveis por alguma coisa? Eu particularmente só agora é que comecei a compreender melhor estes dois cenários. Ainda assim, é bastante difícil discernir entre eles, pois ambos tocam num ponto delicado: o desejo de ser perfeita e de jamais cometer deslizes.

Por que me sinto culpada, se a culpa não faz o tempo voltar atrás? E por que me sinto responsável pela reação que as outras pessoas terão a respeito de algo que fiz ou deixei de fazer? 

Eu não sabia que havia distinções entre estes sentimentos. Passei mais de trinta anos da vida achando que tudo que acontecia de errado comigo ou à minha volta era minha culpa, que eu era obrigada a fazer mais do que era humanamente possível para ter aquela sensação de missão cumprida. Para não sentir que fiz menos do que esperavam de mim. Como se eu pudesse controlar todos os fatores que conduzem a uma consequência.

Essa síndrome de mártir, de Madre Teresa, de Cristo me acompanha desde cedo. Eu me sinto muito culpada quando não atendo às expectativas do mundo, ou quando não cumpro o que espero de mim mesma. E isso me causou grandes prejuízos no passado. Inúmeras foram as vezes em  que insisti em situações que eu não conseguia controlar, só porque me sentia responsável por alguma pessoa ou algum resultado (muitas vezes impossível de atingir).

Parece que nos cobramos a perfeição, seja por medo do fracasso, ou por medo de decepcionar os outros. Pode ser também pelo receio de não sermos aceitos – seja na vida ou no pós-vida (o que se aplica a quem acredita em céu, inferno e julgamentos divinos).

A diferença entre essas sensações é bastante sutil. No entanto, é crucial reconhecer que existe, sim, um limite entre a culpa e a responsabilidade.

A sensação de responsabilidade é como um sinalizador dentro de nós, que nos lembra dos nossos deveres sociais e morais. Se eu deixo de fazer algo que é uma obrigação, um alerta soa dentro de mim e me faz correr para tentar reparar esta omissão ou falha. Como, por exemplo, o incômodo que sentimos ao pagar uma conta com atraso, ou chegar tarde quando temos horário marcado com alguém.

A culpa é aquele sentimento de “eu não deveria ter feito isso” ou “por que diabos fui agir dessa forma?” . E não estou me referindo a um crime ou a algo ilegal. Porque, obviamente, se infringimos as leis, somos culpados e responderemos por isso. O sentimento de culpa é um remorso quase sempre voltado a questões que são polêmicas, a atitudes que tomamos e que não são consideradas corretas de acordo com um conjunto de valores. A culpa do pecado, norteada pelas religiões, é um bom exemplo disso.

Mas, por que nos sentimos assim? Talvez por existirem tantos tabus na sociedade, por acreditarmos que pagaremos por nossos pecados eternamente. Num mundo onde apenas a perfeição é aceitável, errar é imperdoável. 

E o que é a culpa, se não o arrependimento pelos erros cometidos? A responsabilidade que atribuímos a nós também tem a ver com a obrigação de sermos sempre produtivos, pontuais, cumprindo à risca todas as convenções sociais.

Lembre-se: não existe perfeição e existem coisas que não podemos controlar. 

É claro que temos que nos responsabilizar pelas consequências de nossos atos. Isso é indiscutível. Mas não podemos carregar nos ombros uma culpa avassaladora por qualquer mínimo deslize que cometemos.

Arrepender-se é um passo para não reincidir no erro, mas é um ato pontual, e não uma ruminação constante. Sentir-se culpado uma única vez e arcar com os efeitos dos nossos atos já é o bastante.

No entanto, sentir-se culpado por algo que foge ao seu controle é como querer contar os grãos de areia do deserto – um desperdício enorme de tempo e que não leva a conclusão alguma.  

Na verdade, se a gente parar e pensar bem, não existe culpa, e sim aprendizado. Quando cometemos algum ato que sabemos que vai de encontro aos nossos valores, por qualquer motivo que seja, já sabemos que isto é errado. Então, por que fazemos essas coisas? Provavelmente porque a natureza da nossa curiosidade quer nos ensinar alguma coisa. Ou porque ainda não aprendemos totalmente.

Insistir no erro nem sempre é burrice – algumas pessoas aprendem logo na primeira queda; outras necessitam cair diversas vezes até compreenderem como atingir o equilíbrio necessário para não voltar a tropeçar.

No caso da responsabilidade, é bom escutar a voz da consciência. Se você se sente responsável por algo ou alguém, pergunte a si mesmo: este compromisso cabe realmente a mim? Eu sou realmente o encarregado pelo resultado esperado nesta situação?

Às vezes a gente tende a querer resolver tudo, inclusive as coisas que não estão ao nosso alcance. Temos que compreender que não somos responsáveis por cada mínimo detalhe.

Talvez o grande aprendizado consista em reconhecer a nossa pequenez diante de algumas circunstâncias que se apresentam para nós. Acho que esse é o significado do desapego.

Sentir-se culpado por algo que já passou, além de infrutífero, é um hábito paralisante. A culpa é filha do passado, um motor que nos leva para trás.

Sentir-se responsável por coisas que ultrapassam as suas possibilidades e a realidade do contexto em que você vive é uma sensação esmagadora. Não carregue mais do que os seus ombros conseguem suportar.


Imagem: Adi Constantin

2 comments

  1. Ótimo texto! Eu vivo em uma vigília constante para não me cobrar muito e fazer o mesmo com as pessoas ao meu redor. Me autoconhecer tem me ajudado muito. Sendo uma virginiana com ascendente em escorpião, se não me vigiar, acabo injetando em mim meu próprio “veneno”…kkk. Parabéns e um grande abraço.

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