Você não é todo mundo

A vida desta mulher se formou na dicotomia entre o afastamento da realidade e a ânsia de pertencer ao lugar-comum.

A menina caminha de mãos dadas com a mãe no shopping center. Ela se detém em frente à vitrine da loja de brinquedos, seus olhos brilham em êxtase contemplando uma boneca coberta de glitter, com cabelos trançados até a cintura e roupas cintilantes.  A menina se volta para a mãe, puxando seu vestido, suplicante. Argumenta entre beicinhos e lágrimas fabricadas os motivos pelos quais aquela hipnótica boneca deveria ser sua.

A mãe pensa que poderia comprá-la. Negar esse mimo à sua filha não seria uma questão de falta de dinheiro, mas de princípios. Olhando para a pequena atriz, cheia de manhas e quase aos prantos, a mãe se ajoelha e, com a voz suave e tranquila, explica que aquele objeto de plástico será mais um para a coleção dos brinquedos esquecidos. A filha bate o pé, afirma que será fiel à nova amiga inanimada, compromete-se a estudar e fazer as tarefas  do dia a dia com afinco.

Dividida entre ceder aos caprichos de sua menina entristecida e continuar a educá-la para valorizar o que tem, a mãe se levanta. Alterna o olhar entre a vitrine e os enormes olhos pedintes da filha, luta internamente com seus pensamentos e emoções.

Com um pesado suspiro, a mãe pega na mão da filha e mantém a postura de quem não irá ceder. Ela precisa aprender a passar vontade, reafirma para si em silêncio. A filha, cabisbaixa, se deixa levar pela mão da mãe que a puxa com delicadeza para longe das tentações.

Enquanto a mãe se orgulha por ter sido forte e ensinado à sua menina uma valiosa lição, a filha, engolindo as lágrimas, promete para si que jamais deixará seus filhos sentirem tamanha frustração. 

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Na mesa da cozinha, a filha adolescente tenta convencer os pais a deixá-la viajar com os amigos. A mãe diz que não, porque onde já se viu uma menina dessa idade viajar sem a supervisão de um adulto? 

A garota sente o peito explodir em brasas. Refuta todos os argumentos dos pais em meio a lágrimas, lamentos e tentativas de explicar suas razões. Será que vocês se esqueceram de como é se divertir e curtir a vida?, a garota brada, com os braços agitados, caminhando e pisando com força o chão da cozinha.

A mãe se recorda de quando era pequena, engole o gosto amargo de ter se transformado naquilo que sempre detestou em sua própria mãe. Toda a arrogância da autoridade pesa sobre seus ombros naquele momento. Ela não quer ver a filha perdendo tempo com banalidades, mas também não quer ser a carrasca que não a deixa criar suas próprias memórias.

O pai, ao observar o semblante perdido da esposa, interfere com uma solução. Você pode ir, mas com uma condição: nós vamos também. Vamos levá-los até a praia e vamos ficar hospedados na mesma pousada que vocês. Assim, todos se divertem, de forma saudável!

A filha protesta mais ainda.  Todo mundo vai tirar sarro de mim, chora, inconsolável. Vocês não me entendem, vocês nunca vão me entender. Aos prantos, ela desaparece pela porta da cozinha.     

A mãe a entendia, e muito bem. O abismo entre elas só iria crescer cada vez mais. E não havia nada que ela pudesse fazer para conter estes tremores de terra que o alargavam a cada conflito.

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Quando aquela menina crescer e se tornar adulta, já haverá acumulado mais experiências do que imaginava. Tanto boas quanto ruins. Será uma colagem de fotografias amareladas, algumas mais vívidas e nítidas, mas que irão compor a essência da pessoa que ela será naquele momento.

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É o último sábado do mês de setembro. Em plena primavera, as azaleias florescem por todas as praças da cidadezinha onde a moça mora. Ela se senta em um dos bancos de madeira, com um sanduíche nas mãos, o único almoço possível durante a correria do trabalho. Nunca imaginou que trabalharia aos sábados, mas era melhor do que ficar desempregada.

Sentada ali, mastigando seu almoço, ela retorna à infância, à adolescência, a tudo o que seus pais a ensinaram. Eles a criaram como uma pessoa única, especial, indispensável para a humanidade. Como se ela fosse totalmente diferente das outras que existem por aí.

Misturada à paisagem da praça, com os taxistas, os pombos, os cães fuçando nos arbustos e nos sacos de lixo, ela não se sente nem um pouco especial. Toda a proteção e todo o afastamento das coisas mais mundanas não a elevaram a nenhum patamar mais avantajado. Ao contrário, ela é apenas uma vendedora de uma loja de brinquedos, que não sabe o que fazer da vida, ou o que é a vida.

Seus pais sempre a lembravam de sua condição de “pessoa mais importante do universo”. Você não é todo mundo, diziam, quando ela desejava compartilhar as experiências dos reles mortais e fazer parte daquela massa amorfa que eles chamavam de os outros. Seu maior desejo era compreender os porquês das pessoas que erram, caem, tropeçam, mas que encontram alguma direção, sobretudo das que se perdem no meio do caminho.

Talvez seu grande desejo inconsciente fosse se perder, para poder se encontrar. E nem disso eles puderam protegê-la.

Ela se sente menos do que importante, naquele momento. Como se pudesse compreender todas as mazelas da existência, justamente por carregar o peso do sofrimento absoluto sobre seus ombros caídos. A personificação do drama, em um corpo de mulher sentado sobre tábuas rijas de madeira envelhecida.

Toda aquela proteção, a troco de nada. Ela está ali, misturada aos demais viventes, sem ter a mínima noção do que a torna única.

Porque, no fundo, ela sabe que não é. Ela é igual a todas as outras pessoas, ela é a humanidade inteira.

De certa forma, aquilo a conforta.  Após tantos anos ouvindo você não é todo mundo, a moça percebe que sim, ela é. Todas as angústias, os desejos, as paixões, aflições, virtudes, todos os pecados, vícios e fraquezas moram dentro dela, aglomerados nas moléculas que a compõem.

A moça analisa a praça. Sente-se em casa, acolhida pelo mundo onde todos são iguais – perdidos, buscando pertencer, perseguindo a redenção.


Imagem: Alejandro Alvarez

 

3 comments

  1. Nossa que texto mais lindo!!! Essa mulher se parece muito com a minha mãe kkk uma mulher forte que sempre de ensinava e ainda me ensina que tudo tem o seu tempo. Enquanto ao seu blog nossa eu adorei, eu me senti tão a vontade, tão em paz aqui sabe para ler seus contos seus temas me inspiraram muitoo, vou te seguir com certeza!!!

    -Beijoss

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