A semana é uma linha que nunca termina

Sexta-feira. De novo. O mundo se regozija por não precisar acordar cedo amanhã, pelas possibilidades de diversão, de sair para viajar, de aproveitar a vida sem o fardo das obrigações do trabalho.

Uma parte do mundo, pelo menos. Há aqueles desafortunados – a grande maioria, presumo – que trabalham aos finais de semana e têm suas folgas às terças, quartas, quintas-feiras. Como eu, há alguns anos.

Trabalhei em um call center que prestava atendimento aos sistemas informatizados de uma multinacional. Imagine só, ser o repositório de toda a raiva de alguém traído pela tecnologia, que, assim como você, só queria estar na praia, ou na montanha, existindo sem precisar categorizar os dias da semana!

No começo, fui escalada para o segundo turno, das duas da tarde às dez da noite, o que ainda me permitia ter um pouco de vida social, antes e após o horário do serviço. Porque a vida também acontece muito mais à noite, quando todos já cumpriram suas funções e estão prontos para as possibilidades.

Quando meu chefe me mudou para o primeiro turno, alguns meses depois, eu me tornei praticamente uma eremita. Sair de casa era difícil, assim como a vida de modo geral. As noites eram para dormir, os dias para trabalhar e as tardes para me recuperar da sensação de “o que estou fazendo da minha vida?”. 

Os finais de semana não significavam nada para mim, todos os dias eram arrastados e envoltos em uma fina névoa de desespero e cansaço.

As folgas eram alternadas. Às vezes aos sábados e aos domingos, em outras às quartas e quintas-feiras. Havia nos dias de descanso uma magia diferente. Ficar à toa enquanto todos trabalhavam era uma espécie de subversão – ainda que a folga fosse merecida e totalmente justificável.

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Faz quase um mês que fui demitida. O peso de cumprir aviso prévio é certamente menor do que a obrigação de cumprir todos os prazos apertados, sem contar a jornada de trabalho, que é reduzida em duas horas. Não faltam traduções para fazer, e isso me deixa um pouco confusa, já que a demissão se justificou na crise que acomete o país e na falta de volume de trabalho.

Tenho cumprido minhas funções em um estado meio suspenso, como se a vida flutuasse ao longe e eu estivesse correndo, tentando alcança-la, sem sair do lugar.

Estou presa na iminência da liberdade.

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Conheci um senhor que dizia que a vida era mais interessante às segundas-feiras. Enquanto todo mundo pragueja por ter que voltar às obrigações, com pressa de chegar logo ao final da linha do calendário, o mundo se estende claro e vibrante aos que têm calma e esbanjam tempo.

Um sujeito comum pode chegar a uma padaria, às três da tarde, e pedir um pingado e uma fatia de bolo de fubá, ou até mesmo uma dose de Jurubeba, sem o julgamento de ninguém. Afinal, é uma tremenda afronta ficar assim tão à toa, enquanto o mundo todo está correndo uma maratona.

Todos estão sempre muito ocupados às segundas-feiras para notar a desinteressante existência de um aposentado que só quer poder desperdiçar seu tempo numa padaria.

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Não consigo me lembrar de quando comecei a sentir o frio na barriga que preenche o meu corpo às cinco da tarde de uma sexta-feira. Acho que este sentimento surgiu quando viajava no ônibus fretado, de São Paulo para Santos, um percurso que muitas vezes durava três ou quatro horas – sobretudo nas vésperas de feriado. Cinquenta passageiros frustrados, cansados, roncando e presos em uma lata de sardinha rodando a cem por hora.

Fazíamos de tudo para que aquele tempo fosse o mais breve possível – assistindo a filmes engraçados, comendo pizza e salgadinhos. Era como se fingíssemos estar em uma excursão para algum lugar divertido, como fazíamos na escola. A diferença era que, na segunda-feira, estaríamos todos ali novamente, colecionando quilômetros até lugar nenhum. 

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Dizem que o tempo passa rápido quando estamos nos divertindo. Mas, como justificar as oito horas que se transformam em vinte minutos, quando um prazo te persegue e te agarra pelos calcanhares?

A vida hoje me parece passar mais depressa do que quando eu tinha vinte e poucos anos. E não é porque estou me divertindo, isso posso garantir. Naquele tempo, eu contava os dias para poder aproveitar o final de semana fazendo o que eu realmente gostava, como todos os seres humanos que trabalham contra o relógio.

Ainda faço isso, é claro, mas os dias hoje são mais cíclicos. Eles passam por mim sem que eu os veja, enquanto, no passado, eram como aqueles filmes épicos antigos que nos fazem dormir profundamente.

Mesmo quando morava em São Paulo, onde tudo é pressa, era como se eu estivesse boiando num mar sem ondas, tentando atravessar o mar aberto. As horas se multiplicavam exponencialmente, e era possível viver três meses em uma semana.

Agora, o tempo corre sem amarras, estou atada a um trem-bala do qual não consigo descer.

Aqui no interior, sinto que todos almejam correr como na capital, viver numa grande bolha de ansiedade e efervescência. A gente se ilude achando que a vida é mais tranquila longe dos grandes centros – mas o problema é que cidades são cidades, todas querem se espelhar nas metrópoles.

Eu me pergunto: qual é o sentido de querer copiar um modelo de frustrações e infelicidade?

Além disso, por que vivemos todos nesta incessante busca por um dia mágico que virá para nos salvar? A rotina do trabalho nos pesa tanto que é como se o final de semana, ou os dias de folga, fossem as nossas únicas oportunidades de ser, na mais pura concepção deste termo.

Seguimos esse roteiro obscuro e deprimente, riscando os dias em que somos infelizes, ao invés de fazer algo para mudar a maneira como desfrutamos do nosso tempo. Não estou dizendo que devemos fazer o que amamos, como dizem os livros de autoajuda por aí.

Quero dizer que sábados e domingos são apenas dias como outros quaisquer, são fragmentos do tempo, são terças e quartas-feiras maquiadas, com cheiro de milk-shake. Mas podemos tomar este milk-shake metafórico quando bem entendermos, somos livres neste sentido – ou pelo menos gosto de pensar que somos.

A vida não precisa se resumir a esperar que um apocalipse dominical venha nos salvar da desgraça da segunda-feira. 


Imagem: Freepik

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