Granola

Na varanda do apartamento de duzentos metros quadrados, Jussara descansa em uma espreguiçadeira macia. Ao seu lado, um copo de chá gelado com frutas vermelhas, laranjas cortadas em rodela e um ramo de hortelã verde vivo – um mimo para acompanhar o seu rotineiro tédio matinal.

O sol míngua no céu da manhã, que se transforma em tarde após o relógio indicar o meio-dia. Jussara sabe disso, pois o estômago dá sinais de irritação e o sofisticado relógio da sala, pregado na parede acima da lareira, emite doze bipes discretos e melodiosos.

Jussara olha para a cozinha, os olhos absorvendo as formas do descomunal balcão de granito preto, do fogão planejado, das panelas penduradas sobre a bancada em um desfile de cobre e ferro, das facas enfiadas no suporte de madeira, milimetricamente alinhadas. A geladeira de aço escovado de duas portas se assemelha a um obelisco. Larga, maciça e com seus controles e pontilhada por botões brilhantes, os quais servem apenas para complicar os simples processos de abrir, fechar, armazenar e procurar por comida. Tudo mecanicamente organizado, uma fotografia de catálogo de móveis, o cenário de um filme no qual a protagonista é uma dona de casa abastada e fútil, como ela.

Sente-se a mais frívola das viventes por não ter uma ocupação específica ou um uso adequado para o mundo. Sua letárgica vida é material para frequentes devaneios e indagações – o que sobrará de mim no futuro? qual será o legado da minha existência? quais são minhas reais habilidades? – todas, sem resposta.

Enquanto o cônjuge passa o dia no escritório, conhecendo pessoas interessantes, revolucionando o microcosmo da firma com suas ideias mirabolantes e preparando um terreno fértil para semear inovações, ela se arrasta de um cômodo a outro, uma assombração envolta em robes de seda e vestidos refinados.

Nesta valsa vespertina, transitando entre os quartos e as salas, questionando a banalidade da vida, Jussara decide que hoje não haverá almoço. Não que alguma vez ela tivesse precisado cozinhar em sua vida. Sua infância foi repleta de empregados e, assim que se casou, tratou de reproduzir o mesmo conceito da casa de sua família. Tinha uma empregada que cozinhava para ela três vezes na semana, deixando marmitas elaboradas seguindo o cardápio metódico da nutricionista. Tudo o que Jussara fazia era esquentar o almoço nos dias em que a funcionária não estava.

Mas hoje não é um dia de folga para a empregada, que já está posicionada com o avental diante da pia, com os legumes enfileirados: tomate, cenoura, batata. “Vou fazer aquele macarrão que a senhora gosta”, anuncia animada, quando Jussara surge atrás do balcão.

“Guarde isso, Lúcia. Tire o resto do dia para você”, diz a patroa, dispensando a empregada e oferecendo uma gorjeta de cem reais. “Volte só amanhã”, ordena, com olhar de quem esconde segredos de estado. A empregada estranha, fica sem saber o que fazer, tentando descobrir se aquilo é real ou uma piada de mau gosto. Com a nota na mão, Lúcia esquadrinha as feições inéditas da patroa, mas não hesita em aproveitar a incalculável atitude da madame e guarda a cédula no bolso da calça.

Com a rapidez cautelosa de quem receia revolver as águas e despertar um monstro subaquático adormecido, Lúcia arranca o avental da cintura e desaparece em meio às roupas penduradas na área de serviço. Seus movimentos despertam o aroma de amaciante e sabão em pó, que chegam até as narinas de Jussara e a fazem sorrir pela metade.

Sozinha em sua maçante fortaleza, obstinada a subverter as noções do que é certo ou errado comer àquela hora do dia, Jussara abre os armários, a geladeira e as gavetas, investiga os mantimentos e se dedica à missão de romper as convenções do almoço.

A ideia de se entregar a um doce cruza sua mente, mas parece errada demais. Comer algo que não é salgado corrompe totalmente os valores do almoço, é claro, porém não serve ao propósito de nutrir o corpo. Ela precisa de  algo que proporcione saciedade e desconstrua a ideia do arroz com feijão, da massa com molho, da salada e da carne para a refeição do meio do dia.

Durante a investigação pela cozinha, Jussara avista o elemento-chave para sua empreitada rebelde. Um pote de vidro alto e gordo, recheado de cereais e frutas secas. “Granola!”, exclama para os azulejos que a observam, erguendo os braços e sentindo-se iluminada por um feixe de luz.

Com as mãos em forma de concha, apanha uma tigela no armário de louças, abre a gaveta e retira com delicadeza uma colher, que deposita ao lado do recipiente de cerâmica esmaltada.  Abre a geladeira e de lá retira a garrafa de leite. Uma fruta cairia bem – maçã ou banana? Opta pelas duas.

Com a faca pequena, Jussara fatia a maçã em finas lascas redondas, que depois são cortadas em tiras e despejadas na tigela. Em seguida, a granola, com passas, castanhas e outros grãos que Jussara não reconhece. A banana em rodelas, depositadas uma a uma, criando um espiral decorativo sobre os cereais. Derrama o leite gelado e grosso, com cuidado para não estragar o primoroso desenho. Por fim, um fio de mel dourado.

Jussara contempla sua criação como um chef renomado após inventar um prato exótico. Sente-se levemente menos incapaz de produzir algo com as próprias mãos, como se as grandes questões da existência se resumissem a saber mesclar ingredientes em uma tigela. Com sua obra-prima nas mãos, caminha até a área externa do apartamento, de volta à espreguiçadeira e ao sol.

A cada colherada espessa e fibrosa da descabida refeição, Jussara experimenta um sabor de libertação. A vida é líquida como o leite, seca como as passas que grudam nos dentes. Sem uma pitada de açúcar, torna-se intragável como farelo seco de aveia. Com os olhos fechados e mastigando sem pressa, mergulha nas metáforas da singela granola, uma intensa epifania rompendo a solidão.

Deste dia em diante, seria uma combatente das rotinas.  Amanhã, quem sabe? Poderia até almoçar arroz doce.


Imagem: Lena Wolff – Pinterest

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