Uma pausa para me reencontrar

O mundo corre depressa. O tempo, com suas pernas longas e ágeis, nos leva nas costas, e, por vezes, nos atropela, fazendo-nos desviar o foco de coisas vitais, como a paz de espírito e o autoconhecimento. Não temos tempo para parar, perder, gastar. O ócio tornou-se um luxo deveras cobiçado e paira sobre nós a constante sensação de que, se estamos parados, somos inúteis.

Tempo é dinheiro, é bem de consumo, é moeda de troca. E, graças a esta mentalidade, quanto mais o preenchemos com atividades, mais nos sentimos validados e produtivos, como se estivéssemos fazendo a coisa certa. Afinal, só dá para parar quando estamos dormindo – quando dormimos.

Mas, e quando a gente começa a transbordar e não consegue lidar com todos esses compromissos, tamanha a rapidez com que o mundo gira? Como proceder?

Na maioria dos dias, eu me sinto uma malabarista, tentando conciliar o trabalho, os compromissos, o lazer, as tarefas domésticas, o cuidado pessoal, as leituras, os projetos paralelos, as relações com as pessoas, a sede pelo conhecimento, a vontade de mudar o mundo, a preocupação com o dinheiro…

Sobra pouco, ou quase nenhum tempo, tampouco vontade ou disposição, para encontrar o meu equilíbrio e cuidar da minha saúde mental, que costuma ficar esquecida numa gaveta junto com a saúde espiritual. Lá dentro, elas gritam, mas eu geralmente não sei onde coloquei a chave para libertá-las e cuidar um pouco delas.

E  nesses dias tão turbulentos, quando a sanidade caminha na corda bamba e a vontade de perseguir os sonhos parece debilitada, é mais do que vital recuperar esta harmonia.

Na verdade, enquanto idealizava este texto, comecei a refletir sobre quando foi a última vez em que eu parei e fiquei à toa, de verdade, pensando na vida, meditando, tentando desfazer os nós que se entrelaçam dentro da minha mente, e que não são poucos.

Lutei para conseguir encontrar uma resposta, e isto acendeu um alerta dentro de mim, porque indica que faz muito, mas muito tempo que não pratico esta ausência de ruído, este fazer nada, o ócio criativo, o tédio necessário para dar um reset no pensamento. Sempre que termino as obrigações do dia e tenho algum momento de folga, procuro logo preenchê-lo com alguma outra obrigação, como se aqui dentro não houvesse espaço para pensar muito na vida, nem para ficar sozinha comigo mesma.

Então, neste dia de recomeços, com cheiro de primavera e ventania, resolvi fazer um exercício e passei quase duas horas deitada, olhando para o teto. Literalmente. Reclinei a cabeça no travesseiro, cruzei uma perna sobre a outra e, sem fechar os olhos, fitei aquele quadrado branco como se fosse um oráculo, capaz de me ensinar o verdadeiro sentido da vida.

Assim que comecei a relaxar, meus olhos começaram a percorrer, alternadamente, o teto, os pés, o relógio, e cada instante parecia uma eternidade de tédio sem fim, e eu me senti engolida pelo tempo, que se arrastava como uma lagartixa preguiçosa.

Tive vontade de me levantar, fazer um chá, pegar um livro, ligar a televisão, sair de casa, enfim, me livrar daquela solidão e da ansiedade que me envolveu nos primeiros quinze minutos, os mais longos de que tenho memória.

Porém, conforme os ponteiros do relógio se moviam, eu pude escutar a música produzida pelo lento tique-taque na minha cabeceira, os ruídos da rua, as batidas do meu coração, os assovios agudos do vento na janela, minha respiração, até que o meu quarto se transformou numa sinfonia de sons, pensamentos, sensações e choques de realidade.

Muitas coisas estavam adormecidas em mim, e elas despertaram neste breve momento em que parei e me permiti escutá-las. Lições do passado, broncas que eu precisava levar de mim mesma, lembranças de pessoas queridas, alguns perdões que eu precisava praticar, tudo veio à tona quando me abri para o que estava guardado nas profundezas da minha alma. Fui presenteada com três ideias geniais, revisitei personagens que esqueci de criar, histórias que nunca comecei a escrever, sonhos desbotados e cacos de projetos que se despedaçaram pela falta de tempo, vontade, perseverança…

Chorei, sorri, senti saudades, sobretudo de mim mesma, da pessoa leve e despreocupada que eu costumava ser antes de transformar a vida neste oceano de complicações, papéis, funções, pessimismos, negações e deveres. E, ao contrário do que eu imaginava, não entrei em desespero, nem me afundei na tristeza.

Foi fácil perceber como as mudanças criaram raízes em mim, algumas das quais já comecei a aparar assim que consegui vislumbrá-las. Outras ainda permanecem enfincadas no terreno do meu ser, mas sei que não irão durar muito, pois vai faltar alimento para que cresçam e ganhem proporções indesejadas.

Quando me levantei, olhei para o relógio e não acreditei que tanto tempo havia se passado. Um frio de desespero por ter ficado à toa, com tanta coisa pendente na vida, ameaçou subir pela minha espinha, mas eu o interrompi dizendo “hoje não”.

Este passeio dentro de mim aconteceu tão rápido, e, ainda assim, durou o suficiente para me trazer a paz e a serenidade de que eu tanto necessitava, sobretudo neste inferno astral pré-aniversário. Foi como se eu tivesse saído do meu próprio corpo e me olhado do lado de fora, e, com mãos invisíveis, abraçado o meu outro-eu, dizendo baixinho “está tudo bem, vai ficar tudo bem”.

Sorri ao me olhar no espelho e reconhecer a pessoa ali refletida como uma amiga, uma parceira, principalmente após, enfim, perdoar certas coisas  há muito adormecidas.

E, agora, sempre que sentir que estou me afogando nas coisas e na falta de tempo, sei que posso parar, olhar para dentro e receber mais um longo abraço acolhedor.


Imagem: Pinterest

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