Transfiguração

Quando Alan olhou para o relógio no painel do carro, após atravessar mais um semáforo quase fechado, três horas haviam se passado. Três horas vagando sem destino, gastando gasolina e pneus, tentando esquecer a vida que deixara para trás.

O rádio do carro emitia um chiado constante, porém sutil, sob a voz macia da locutora que anunciava o aniversário de falecimento de um cantor de rock que Alan costumava conhecer e admirar, no passado. Ainda conhecia, pois sua memória permanecia intacta, embora ele já não existisse mais como antigamente.

A canção que seguiu a notícia era triste, melancólica e não combinava em nada com a sensação de alívio e renascimento que pulsava dentro de seu peito. Era outra pessoa, tinha até outro nome, mas não conseguia decidir se usaria a nova identidade ou se manteria o seu nome de nascimento, em alguma cidade pacata onde ninguém o conhecesse. As duas possibilidades o deixavam tenso, ansioso e animado, tudo ao mesmo tempo.

Pelo retrovisor, vislumbrava algumas imagens intermitentes que se mesclavam às recordações esfumadas e translúcidas, entre elas o rosto de Bruna, a paixão dos tempos de escola. A menina tinha uma beleza inusitada, era rechonchuda, com o rosto coberto de sardas, os cabelos finos e pretos, os dentes da frente meio separados, mas tudo o que ela era e fazia deixavam Alan desconcertado.

Nunca chegou a confessar o que sentia, embora fosse tão óbvio que até os professores faziam comentários e brincadeiras, o que deixava Bruna com uma expressão que era um misto de alegria e completa vergonha. Há anos que não pensava nela, e estranhou o motivo de tal aparição no oceano de sua memória.

O carro andava devagar, no ritmo de suas recordações, e havia mais um semáforo à frente, o que fez Alan pisar bruscamente no freio. Olhou pelo espelho torto, ajeitou-o, e lá estava ela, dessa vez um pouco mais distante, ao lado de vários móveis antigos espalhados pela calçada. Bruna não era apenas uma miragem ou uma projeção do inconsciente, ela era real e estava a apenas alguns metros de distância.

Alan encarou a rua, a calçada, o retrovisor e seus olhos cansados de tanto dirigir, mas não encontrou dentro de si motivação alguma para estacionar o velho Corsa e ir atrás daquela aparição. Além disso, não havia ainda escolhido qual rumo tomaria dali por diante, se manteria vivo o Alan ou se daria vida ao Carlos Pereira de Gusmão, o nome que assinara com letras simples e bem desenhadas abaixo de sua foto no documento falso.

A gasolina estava dando sinais de que iria acabar antes que Alan pudesse sair da cidade e continuar até… até onde, mesmo? Conduzindo o veículo sem prestar muita atenção ao trânsito, quase que instintivamente, o rapaz começou a se questionar o motivo de ter fugido enquanto subia a pequena rampa da rua até o posto mais próximo.

Tinha fugido do quê, exatamente?

Tinha ótimos amigos, um bom emprego, não tinha um amor, é certo que não, mas isso não era o suficiente para decidir jogar tudo para o alto. Tinha insatisfação, e de sobra. Sede de aventuras. Talvez tenha sido a morte do cachorro, que transformara seu  apartamento no lugar mais assustador e inóspito do mundo, o pequeno mundo que Alan criara para si naquele prédio recém-construído, que tinha cheiro de tinta e grama fresca.

Aquele mundo não existia mais, apenas os trezentos e vinte mil reais que ele valia, e que agora habitavam sua conta bancária. Pensou em gastar tudo com as besteiras mais improváveis, mas não era tão impulsivo assim, ou era? Não, aquilo não era impulso, ele tinha um plano, tinha até vendido o apartamento, isso não era impensado.

As certezas escorriam por entre os dedos.

Após abastecer o tanque do automóvel, e ainda com muitas perguntas pipocando em sua mente, resolveu que não iria mais dirigir naquele dia. Três cidades atrás, Alan já havia sentido esta mesma vontade de dar meia volta e parar com essa besteira de querer ser outra pessoa, e precisava de um lugar para dormir, pois o sol já parecia tão cansado como ele.

Encontrou uma pousada com aspecto razoável e decidiu que dormiria ali, só por hoje. Descarregou a mala abarrotada, os livros – não gostava tanto assim de ler, mas gostava de tê-los por perto – e caminhou até o quarto como se flutuasse em uma nuvem gosmenta de antecipação e medo. Era um sentimento novo e Alan imaginou que era isso que experimentavam os exploradores antes de uma nova investida.

Passou a noite em guerra consigo mesmo, e só conseguiu um pouco de sossego após rasgar aquela falsa identidade – onde estava com a cabeça, quando mandou confeccionar aquele documento? Não precisava de um pedaço de papel para provar que teria uma vida nova.

Quando o sol apareceu, tímido, mergulhado no céu cinza daquela terça-feira, Alan resolveu que não sairia do quarto. Navegou entre o sonho e a realidade até que a noite caiu, novamente, e a fome o empurrou para fora dali. Saiu a pé, levando consigo um livro sobre móveis antigos, o preferido de seu pai.

Bem perto da pousada havia um simpático bistrô, com cortinas estampadas na janela. O ambiente o convidou a entrar e, aconchegando-se no assento acolchoado, Alan pediu uma taça de vinho e um prato de espaguete com almôndegas. O livro estava pousado sobre a mesa e Alan o abriu aleatoriamente, revelando uma página que descrevia as particularidades de uma mesa de madeira do século XIX. Arrependeu-se de não ter parado para conversar com Bruna quando a viu no dia anterior, mas, de que adiantaria? Se ela fosse aficionada por antiguidades, era melhor ele estudar bastante sobre o assunto antes de passar vergonha.

A garçonete chegou com o suculento jantar e o vinho bordô, enegrecido pelo vidro verde do copo. Alan respirou fundo o aroma do molho e lembrou da casa da avó, das macarronadas de domingo, dos resquícios da vida que escolhera ignorar.

Abriu a carteira – tinha essa mania de sempre olhar na carteira antes de começar as refeição nos restaurantes, como que para verificar se o dinheiro ou o cartão de crédito ainda estava lá. De dentro dela, caiu um pedaço de seu rosto, seguido por outros, o que fez o seu coração disparar. A migalha final do papel verde da identidade caiu bem em cima de uma das almôndegas, mas Alan não percebeu.

Juntou todos os picotes em um montinho, amassou com força entre as duas mãos e engoliu. Comeu o espaguete, as almôndegas, tomou o vinho, sentiu-se satisfeito por ter eliminado qualquer vestígio do documento falso que havia rasgado no quarto do hotel.

Somente no dia seguinte viria a perceber que, na verdade, agora não era mais Alan, mas sim Carlos Pereira de Gusmão. Alan fora engolido, junto com seu passado, o macarrão e o vinho.

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