Todo mundo tem dias ruins

Como é complicado navegar pelo mar da existência nessa nossa era digital, não é mesmo? Já seria bem difícil, mesmo sem a internet, porque muito antes disso já vivíamos a máxima de “estamos nesse mundo para sermos felizes”. Eu concordo que a felicidade é uma das coisas mais almejadas, é uma riqueza e um privilégio, e eu mesma faço o possível para me manter nesse estado de espírito.

No entanto, a verdade é que a vida é um tecido emaranhado de acontecimentos, emoções, vitórias, fracassos, momentos bons, outros não tão bons, muitos deles péssimos, e por aí vai.

Enfatizar a alegria constante, as good vibes o tempo todo, desprezando os necessários altos e baixos, as desavenças, os desafetos, as irritações, as tristezas que nos fazem crescer, é algo irracional.

Já escrevi sobre isso no passado, sobre a obrigatoriedade da felicidade, a todo o instante, e, adivinha? Isto é impossível. Como poderíamos saber que existe o prazer e a alegria se não conhecêssemos o desgosto e a infelicidade?

Ao olhar para as timelines da vida, parece que a grande maioria das pessoas jamais experimentou um momento de tristeza. Todos os dias, em nossas redes sociais, somos bombardeados por fotos de pessoas lindas vivendo coisas incríveis, pessoas que às vezes nem tínhamos reparado quão lindas e perfeitas eram na vida real – no caso de amigos ou conhecidos.

Estas pessoas, sejam elas celebridades ou não, se tornam os nossos referenciais de “grama verde”, fazendo referência ao ditado da grama do vizinho, e whatever. As histórias que estas imagens e postagem nos contam são capazes de despertar admiração, inveja, tristeza e muitos outros sentimentos, que podem se transformar em gatilhos.

E o que são gatilhos? Bem, como o gatilho de uma arma que dispara um projétil, um gatilho emocional traz à tona algum sentimento indesejável. É bem comum vermos artigos, relatos e postagens a respeito de como este oversharing, retratando uma vida perfeita pode fazer mal. Não só para quem está do outro lado, curtindo ou observando as publicações, como também para quem acaba se tornando viciado em postar tudo. Como se a vida precisasse de curadoria e edição para ter algum sentido, ou como se fosse necessário comprovar a sua felicidade, seu sucesso ou suas experiências através de fotos. Isso não é necessariamente ruim, apenas um tanto quanto solitário.

O que vale mais: compartilhar recortes e momentos avulsos ou compartilhar uma vida plena, mesmo nos períodos difíceis e conturbados? Talvez o que eu queira dizer é que estamos nos tornando muito rígidos em nossas relações – desfeitas com um clique caso algo nos desagrade – e, com isso, acabamos perdendo a capacidade de ajudar alguém que precise de um ombro, de apoio real, de presença e afeto não virtual.

Pode parecer que estou aqui para criticar este comportamento, mas, na verdade, muitas pessoas já fizeram isso antes. E, sinceramente, acredito que este seja apenas um reflexo do pensamento da nossa sociedade como um todo.

Afinal, desde sempre escolhemos o que queremos recordar, e frequentemente optamos por exibir apenas os retratos sorridentes, cheios de beleza e plenitude. É errado? Não sei. Mas é importante lembrar que as lágrimas e as caras feias também fazem parte da nossa existência.

Hoje eu estou aqui para dizer a mim mesma e a você: a vida não é uma festa de bolhas de sabão com unicórnios e cupcakes e corações o tempo todo. Deveria ser algo óbvio, não é mesmo? Eu sei, você sabe e todos sabemos que viver não é um mar de rosas, então por que nos sentimos mal quando olhamos para o lado e não estamos vivendo o glamour que a grama do vizinho parece retratar?

Bem, antes de mais nada é preciso ter em mente que as fotografias e postagens não passam de recortes da realidade. Antes de tirar uma foto, mesmo que seja de um momento espontâneo, há um processo racional, uma decisão a respeito daquele retrato, e do motivo pelo qual desejamos guardar ou compartilhar isto. Enquanto escrevo este texto, por exemplo, edito o meu pensamento para soar mais coerente, apago os trechos que não são tão bem escritos, para que o leitor, e o meu próprio ego, pensem que sou inteligente. Faz parte do jogo.

E esse jogo não tem muito espaço para os dias ruins. Dias em que olhamos no espelho e vemos o cabelo bagunçado, olhamos para a vida e encaramos a desordem, as incertezas, o frio na barriga, a falta de grana, a pilha de contas, a louça na pia… Nada disso merece ser compartilhado em lugar algum, porque ninguém está disposto a olhar a miséria nos olhos e apertar um botão de curtir. Ou está?

Os dramas do cinema parecem fazer sucesso, talvez por serem retratados por belos atores, mas tenho cá pra mim que o verdadeiro motivo é o reconhecimento. Olhamos aquele pobre protagonista passando pelos perrengues que às vezes também vivenciamos e nos sentimos um pouco menos miseráveis. Misery loves company.

Os dias ruins estão aí. Eles não vão parar de surgir porque você deseja, ou porque você tem uma atitude positiva, ou por causa do universo conspirando a seu favor. A forma como encaramos estes dias pode ser diferente se adotarmos um pensamento otimista, mas eles continuarão acontecendo. É inevitável. Até as pessoas mais bem sucedidas, famosas, lindas, incríveis, teoricamente perfeitas, têm dias péssimos, como nós, pobres mortais.

E esta reles mortal que vos fala, hoje, está passando por um dia destes, em que nada parece bom. A minha vida poderia ser bem melhor, se eu fosse, sei lá, uma destas pessoas que sorri o tempo todo e acredita no seu potencial, se eu lesse livros de autoajuda, se eu tivesse mais grana, se eu aceitasse o meu corpo ou tentasse mudá-lo, ou se eu tivesse nascido com outro corpo, ou outra cara, ou outra personalidade… Mas, sabe, está tudo bem.

O dia vai acabar, o humor talvez melhore, e, se não melhorar, vou refletir sobre o que está me fazendo mal e tentar sorrir um pouco mais, não em fotos, mas no meu íntimo. No fim das contas, todos temos dias ruins. Talvez a diferença seja o que fazemos com eles, e eu optei por compartilhar. Misery loves company.


Imagem: Aily Torres

One comment

  1. Nossa…. Fiquei sem palavras com o seu texto… Disse tudo!
    As pessoas não sabem compartilhar momentos díficeis, por isso vivem um mundo onde só existe felicidade… Que e aquele passado pelas redes sociais.
    Assisti uma parte de uma palestra do Sérgio Portela e fiquei encantada, ele fala sobre quem discorda e concorda com a gente que traz exatamente isso…
    Amei o post!
    Beijos,
    Keth.
    Blog: http://www.parbataibooks.blogspot.com.br

    Curtir

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