Mudança, essa coisa mágica

A palavra nunca tem um peso muito forte. Implica ausência de mudança, de reforma, inércia e rejeição a tudo o que é novo. Já o  nunca mais tem uma conotação diferente: se você diz que não irá fazer isto ou aquilo  nunca mais, significa que, provavelmente, já experimentou e achou ruim, ou simplesmente esta coisa não deu certo para você. O aprendizado está ali, nas entrelinhas do pacto de não repetir determinada experiência.

Ainda que alguém prometa para si e para o universo, o nunca mais é um compromisso volátil, como as nossas convicções. Talvez volátil não seja o termo ideal, ou não tão adequado quanto mutável. Por mais que você deseje ser uma pessoa que não muda, que preze pela estabilidade, é impossível viver sem variações.

Imagine viver em um mundo sem transformações. Imagine o seu universo pessoal, a sua individualidade, o seu “eu”, sem mudanças. Logo de cara já é possível supor que você não teria aprendido a andar, falar, somar, conjugar verbos não fosse pelas transmutações às quais você se submeteu.

Em termos de paradigmas e mentalidade, opiniões e conceitos, o mesmo princípio se aplica, porém de maneiras mais complexas. Conforme nossas experiências se tornam mais ricas e intensas, e à medida que ampliamos os nossos horizontes antes limitados por nossa idade, também passamos a alimentar os nossos pensamentos de outra maneira.

Se você é adulto, tente se lembrar de como pensava quando era adolescente. Eu, certamente, não estaria no contexto em que me encontro hoje se tivesse optado por manter a mesma forma de pensar dos meus infames dezesseis anos, por exemplo, quando acreditava que alguém descobriria, por mágica, os meus talentos ocultos e, por isso, eu seria famosa – como escritora, cantora, pensadora.

Eu também acreditava que todas as pessoas eram ou boas ou más, e que não havia meio-termo. Em um determinado momento, cheguei a dizer para mim mesma que nunca seria como as outras pessoas e enumerei todos os “defeitos” que jamais me permitiria cometer. Como eu era ingênua!

A mudança mais radical que ocorreu na minha adolescência foi quando parei de comer carne, por motivos políticos e por amor aos animais. Foi uma das decisões mais difíceis da minha vida, e, ainda hoje, quase vinte anos depois, sou alvo de piadas, análises e até mesmo isolamento quando me posiciono sobre este assunto. Algumas pessoas até tentaram me “converter” ao carnivorismo, fizeram apostas sobre quanto tempo essa fase iria durar, enfim, fizeram de tudo para me desmotivar, mas eu mantive a minha promessa.

O problema é que, ainda assim, eu não posso dizer que nunca mais vou comer carne na vida, pois, entre morrer de fome em uma situação extrema ou comer um animal, tenho quase certeza de que, mesmo relutante, eu optaria pela minha vida. Mas teria que ser uma coisa muito, mas muito catastrófica, tipo uma invasão alienígena, guerra nuclear, um apocalipse mesmo.

nunca mais geralmente implica uma transformação de atitude que resulta de reflexão, arrependimento ou algum gatilho que desencadeou algo negativo. Algumas resoluções deste tipo são mais frágeis que outras – alguém pode dizer que nunca mais vai beber após uma ressaca violenta, e, ainda assim, tomar um porre no dia seguinte.

Somos humanos, afinal, e a nossa carne é fraca. E, por mais forte que sejamos, ocorre que algumas de nossas convicções e certezas precisam ser reconfiguradas, para não permanecermos isolados em nossa bolha. Porque, se a bolha estourar, o que acontecerá com o que restou de nós?

Quando eu digo que nunca, talvez por medo ou por ter uma ideia errônea a respeito da coisa que estou negando, me privo de uma oportunidade de crescer e modificar a minha própria essência. Claro que alguns nuncas são bastante válidos – dizer que nunca vou experimentar crack é algo bem coerente e racional, na minha opinião. Não quero me expôr a um vício ou a malefícios desnecessários.

Por outro lado, dizer que nunca vou me mudar de tal cidade, nunca vou fazer uma tatuagem ou pintar os cabelos é algo que, hoje, me parece cômico. Eu era a garota que falava exatamente isso, e agora tenho vinte tatuagens e adoro os meus cabelos coloridos.

Comecei este texto refletindo sobre o nunca porque aconteceu uma coisa muito engraçada e que tem tudo a ver com o parágrafo acima. Meu marido é artista e embarcou na carreira de tatuador. A minha família gosta muito dele, e, para minha surpresa, ao invés de fazerem cara feia, meus pais acharam o máximo essa transição. E eis que eles fizeram suas primeiras tatuagens, e já começaram a falar sobre as “próximas”. Logo eles, que não gostavam nada dessa ideia e, especialmente a minha mãe, que ficou um mês sem falar comigo quando eu fiz a minha primeira tattoo. Que são mais velhos – e a gente sabe como é difícil para as pessoas mais velhas mudarem de opinião. Que são super religiosos e certinhos.

Jamais imaginei que viveria para ver esse dia, mas a vida me surpreendeu. Eles, mais ainda.

Parece bem banal, esta pequena mudança da parte deles, mas para mim foi bastante significativa. Eu achava, quando era mais nova, que meus pais jamais me aceitariam por ser meio “rebelde” e ter opiniões controversas, porém acredito que isto foi o que os ajudou a expandir os horizontes e também a perceber que existem as tais áreas cinzas na vida. Sinto até uma pontinha de orgulho quando penso em toda a nossa história juntos, como pais e filha, e o quanto contribuímos mutuamente para o nosso crescimento individual.

A conclusão disso tudo é que, muitas vezes, somos responsáveis pelos nuncas e pelo talvez das pessoas que nos cercam. Mudança gera mudança, e isso não é apenas uma frase de autoajuda, é algo concreto.

Estar aberto para o novo, deixar um pouco o medo e as ideias pré-concebidas de lado e, pelo menos, colocar o pezinho no mar das possibilidades pode ter um efeito incrível, não só na sua vida, mas em todo o universo ao seu redor.


Imagem: Manuel Barroso Parejo

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