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Todos os dias, eu entro aqui neste blog e tento pensar em algum assunto sobre o qual eu gostaria de escrever, ou sobre algo que precisa ser dito, ou algum sentimento que necessito colocar para fora. Escrevo algumas linhas, apago, recomeço, salvo no rascunho, volto, deixo de lado, ainda não é o momento, talvez amanhã – e, então, retorno aos esboços e às frases e palavras e parágrafos inacabados e… desisto.

Isto vai além do famigerado bloqueio de escrita. Vai além de uma simples falta de tempo, inspiração ou preguiça. Isto é falta de vergonha na cara, em português bem claro. Um escritor não é feito de planos, sonhos, ou de desculpas como um dia eu escrevo aquele livro que está adormecido em mim há dez anos. Escritores são feitos de textos, são incansáveis, desconhecem o medo de fazer o que tem que ser feito.

A resiliência daqueles que levam a ferro e fogo seu ofício me fascina. Longas horas, dores nas costas, sono, distrações – parece que nada os impede de criar os universos mais complexos, ou de suscitar dentro de nós uma chama , ou mesmo uma pequena centelha de vida, que se alastra e se transforma em fogo eternamente ardente.

Sou uma humilde aprendiz nesta arte de começar uma ideia e terminá-la com o mínimo de consistência. “Eu nunca termino nada” é um pensamento que me assola, me atordoa e me deixa de joelhos a todo o instante.  

Concluo, portanto, que perseguir um sonho ou me tornar aquilo que desejo ser é mais uma questão de empenho do que qualquer outra coisa. Insistência, se preferir.

Quando descobri minha paixão pela escrita, acreditava na inspiração e na noção romântica de que o escritor sempre tem algo dentro de si para externar. Como se as histórias, as narrativas, os personagens, estivessem vivos dentro deles, esperando o momento certo para serem criados através das palavras dos autores. Isso acontece, mas com uma intensidade bem menor do que eu imaginava. As palavras, as personas, os lugares imaginários, todos eles moram em mim, mas o texto não depende deles, e sim da minha vontade. Ou melhor, do meu comprometimento.

Talvez essa seja a palavra certa: compromisso. Criei este blog há um ano, e me comprometi, durante um bom tempo, a alimentá-lo diariamente, com reflexões, experimentos literários, deixando de lado a minha zona de conforto e conhecendo coisas sobre mim mesma que jamais imaginei. Tem sido uma jornada incrível, mas, para onde ela me levou?

Por vezes, me pego rabiscando nos cadernos, elaborando ensaios na minha mente ao longo do dia, mas alguma coisa se perdeu dentro de mim, e o que antes era uma prioridade ficou em segundo plano. Como é possível colocar em espera algo tão vital? É crucial escrever, é paixão, é sonho, é reinvenção da vida…

Mas, hoje não, talvez amanhã, eu não sei o que escrever, estou cansada, não tenho tempo, minha cabeça está uma confusão… Essas são as palavras que falo para mim nos momentos em que me desprendo do compromisso de levar adiante os projetos engavetados. Tantas desculpas, pouca coragem.

Porque é, sim, um engano achar que quem escreve não se desnuda por completo. É o texto, vivo, pulsante, constrangedor e embaraçoso, são as entrelinhas e os pormenores que transparecem a verdadeira essência de um escritor. Neste sentido, os poetas são os mais sublimes mestres desta arte de se despir através das palavras.

Falta poesia, então? Estas imagens, ora tão nítidas, ora tão abstratas e surreais, que erroneamente tomamos como brincadeiras românticas ou exercícios fúteis de sintaxe, ou a ausência total dela. Ao contrário, a poesia é um alimento necessário para manter a máquina funcionando. Eu não sou poeta, tenho plena consciência de que todas as vezes que me aventurei nesta linguagem foram infrutíferas, pra não dizer vergonhosas.

Aliás, sobre a vergonha, essa armadilha que me pega pelos calcanhares, que me faz continuar parada no mesmo lugar de vinte anos atrás, quando eu só escrevia pensamentos aleatórios na minha agenda – sim, tenho muito a falar sobre ela. Vergonha de mim mesma, de mostrar ao mundo o que sou, de dizer “sou isso” e receber gargalhadas, dedos apontados como facas na direção do meu coração derramado nos textos.

E a vergonha nunca vem sozinha, o medo, seu íntimo parceiro, caminha com ela de mãos dadas, formando um círculo de pedra ao meu redor. O medo da rejeição, da solidão que precisarei abraçar para terminar todos os contos, livros, ensaios, projetos mofando nos compartimentos do meu cérebro.

Penso que nada disso merece a minha atenção, porém o que antes se mostrava como prioridade acabou sendo engolido por estes vilões. A falta de coragem, a timidez, os vacilos, os tropeços, são apenas mecanismos de defesa, porque, no fundo, eu tenho muito medo de me sentir nua na multidão.

E ser escritor é isso, é deixar de lado o confortável cobertor que nos protege dos fantasmas à noite, é abrir o peito na frente de todos e dizer eu sou, eu existo, ainda que isso nos custe a própria vida. Ultrapassa a simples vontade de fazer arte, pela arte, ou de produzir conhecimento – mesmo porque, o que somos além de meros estudantes da vida e da essência humana?

É aprendendo sobre si e sobre o mundo que os escritores nos iluminam com um conhecimento místico. Como se tudo o que produzem (ou, se um dia eu conseguir me definir como escritora, “produzimos”) tivesse o poder de acender uma vela nos cantos escuros da existência.

Todos os dias, eu entro aqui neste blog e enfrento meus fantasmas. Quando eles não vencem, aperto o botão publicar, e tento não me arrepender. Escrever todos os dias não é fácil, mas não tenho como escapar disso. O grande desafio é vencer todas as barreiras que me impedem de compartilhar o que escrevo, este pedaço de mim, com o mundo, ainda que neste diálogo-monólogo de um blog que, por vergonha e medo, não divulgo.

São muitas as páginas que deixo intencionalmente em branco. Hoje, não. Amanhã, quem sabe? Coragem, coragem,  sigo falando baixinho, em prece.

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